Xamanismo, o caminho tibetano da saúde holística
08/05/2009 at 21:05 (Xamanismo)
Por José Joacir dos Santos
Uma das coisas que mais me chamou a atenção nas primeiras visitas a templos budistas tibetanos na China, Hong Kong e Tailândia, foram as armas exibidas por divindades espiritualistas. Máscaras e expressões faciais não ficam por menos e o ocidental desavisado, acostumado com a cara bonita de santos e anjos, pode se assustar e imediatamente fazer julgamentos errados e conectar ao que ele conhece por “demônio”. Para o tibetano e muitos outros asiáticos, acostumados com tradições milenares, tais entidades têm poder e são elas que atravessam as dimensões do tempo, do espaço e da hierarquia dos mundos com uma só finalidade: a bondade. São muitas as entidades que aparecem também com “armas”. A Mestra Kuan Yin, por exemplo, quando necessita ir aos infernos e nesse trajeto tem que enfrentar “donos” dos lugares, também armados, ela não se faz de rogada e materializa artefatos militares semelhantes à natureza densa daqueles que encontra pela frente e o tom de igualdade intimida tais criaturas nas portas e portais do tempo. Ela também tem outras formas: Kannon, Cherezig, Pu Sa, Avalokitesvara e veste-se de acordo com a missão. Para o xamanismo tibetano, a espada é um dos instrumentos de trabalho espiritual e essa maneira de ser foi incorporada aos templos onde se ensina artes-marciais. A tradição antiga diz que o iniciado (sim, artes-marciais no Brasil perdeu este caminho) recebe uma espada invisível de presente do seu mestre para ser utilizado nos momentos de transe, de viagem ou de conexão espiritual. O instrumento transfigura-se e aparece aos olhos de todos os que forem de outros mundos, especialmente anjos inconformados e presos ao ódio, mais conhecidos como “demônios”. Essa tradição é registrada pelos estudiosos tibetanos e siberianos. O pesquisador René de Nebesky Wojkowitz diz, em seu livro “Oracles and Demons of Tibet”, que muitas tradições xamânicas tibetanas sobreviventes são pré-budistas e semelhantes às práticas da gelada Sibéria, embora as distâncias geográficas, caracterizando, assim, a raiz xamânica humana. Ao contrário de algumas tradições xamânicas latino-americanas, nas quais são utilizadas plantas alucinógenas, fumo, álcool e até haxixe (mascado ou fumado), nos processos de transe de médiuns e xamãs, nas tradições tibetanas isso é proibido. Um xamã sob efeitos de ervas ou de qualquer coisa que retire a ligação com sua consciência plena não tem acesso a seres espirituais de elevada categoria. No Tibete, quem utiliza ervas alucinógenas ou qualquer outra coisa para rituais xamânicos são consideros impostores, isto é, perderam seus poderes e são passíveis de punição se a comunidade descobrir. Uma pessoa sobre efeitos alucinógenos de qualquer espécie só acessa seus próprios demônios, se é que consegue. O máximo permitido ao médium e ao xamã tibetano (e siberiano) é a queimação de folhas de ervas medicinais como juniper, que é uma árvore medicinal também utilizada nos funerais da India, pinheiro, elcalipto, salvia, etc. Eles fazem uma fogueira e colocam as erpas para queimar por cima da madeira. Óleos essenciais dessas plantas também são utilizados como incenso. O principal elemento para induzir à transe é a música, cânticos, mantras. A música é tida como auxiliar nos processos de incorporação de espíritos, ajuda na utilização do corpo físico do xamã/médium, na expressão facial e espíritos do outro lado da luz odeiam música. Há uma rica gama de instrumentos musicais na cerimônias, vários tipos de tambor. Algumas orações são cantadas em ritmo acelerado, puxado por tambores, para facilitar e dar o tom do processo de incorporação. Depois que a entidade assume o corpo do xamã, faz imediatamente ajustes energéticos e de cura no próprio corpo do xamã para poder começar os trabalhos de cura. Os passos são os seguintes: o espírito a ser incorporado é conhecido e invocado (não se incorpora espíritos desconhecidos, que se negam a se identificar ou que pedem compensação física como bebida, fumo, etc.). Acredita-se que ao ser invocado, o espírito imediatamente se apresenta. Dai o fato dos tibetanos não pronunciarem os nomes dos demônios. Com o ritmo da música há a incorporação. A entidade dança e dá provas da sua identidade. Há o ajuste com o corpo do médium. As vezes o médium espuma pela boca, contorce-se e muda de figura. A espuma é natural e faz parte do ajuste energético dos dois mundos, mas logo passa. O corpo do xamã é dominado e ele se acalma. A entidade então fala, dá instruções, ensina, canta orações e mantras e pode materializar objetos, curar doenças, executar cirurgias e muitas outras habilidades que a comunidade sabe que o xamã em sã consciência jamais poderia executar ou dizer, até for falta de conhecimentos. Em algumas circunstâncias os espíritos fazem questão de provar a idoneidade do xamã. A entidade se utiliza de espadas ou outra coisa disponivel do uso pessoal do xamã e faz com que o xamã se corte sem sentir dor. Esses “cortes” também servem para purificar o corpo do médium dos venenos que incomodam a energia do espírito. Tive a oportunidade de participar de uma cerimônia dessas, na qual a entidade retaliou a língua do xamã e com o sangue dele escreveu para mim um mantra, com as devidas recomendações que não posso revelar. A entidade falava como se a língua do médium não tivesse sido ferida e ainda por cima em um idioma antigo tibetano, traduzido para duas outras línguas até chegar ao inglês para que eu compreendesse. Ainda com a língua jorrando bastante sangue, a entidade deu passagem a uma cerimônica de iniciação secreta que não posso dar detalhes. Segurando um facho de incensos acesos, a entidade passou o fogo rente ao meu corpo físico, seguindo a linha dos chácras até os pés, sem que o fogo me queimasse. Em seguida, literalmente cuspiu todo o sangue da boca do médium sobre o meu rosto. O sangue evaporou-se totalmente e eu entrei em transe, o qual durou até o final da iniciação. Não sabia qual a língua que estava sendo falada mas no centro do meu cérebro havia completo entendimento de tudo o que era dito, como se fosse um código que só o iniciado pudesse saber. Ao terminar a cerimônia e as pessoas esvaziarem o templo, fui chamado pelo monge-xamã para uma conversa amistosa depois que me foi dito ser o único estangeiro admitido no local. Em um bom inglês, pudemos conversar e não havia sinal algum dos cortes na língua daquele homem-santo. Falamos de muitas coisas, não tocamos no assunto da iniciação e, utilizando a vidência, ele me aconselhou sobre coisas da vida prática, enaltecendo minha capacidade de juntar coisas do Oriente com Ocidente. Os tibetanos atribuem a uma “seleção divina” a escolha de um xamã. Nem todos os médiuns com alta capacidade de manifestação, são escolhidos para a medicina xamânica. Como não há outra maneira de se exercer a atividade xamânica sem a submissão do candidato a um processo iniciático, especialmente porque ele vai ser aquele que atenderá terapeuticamente à comunidade, muitos candidatos são preteridos pelas “imperfeições da psiquê”, embora manifestem habilidades mediúnicas importantes. Acredita-se que quem sofreu um trauma e não curou carrega essa memória para as reencarnações seguintes e o trauma se manifesta em forma de deficiência física ou mental. Ainda hoje no Tibete e em múitas regiões da Sibéria, o xamã é o único “médico” que a comunidade conhece e respeita. Por isso é que o xamã é chamado “homem da medicina e da cura”. Ele entende de plantas medicinais, das dificuldades da mente, do corpo, da alma e do espírito porque essas coisas não se pode separar no ser humano. Os “conselhos” de iniciação viajam no tempo e no espaço das vidas do candidato para examinar todos os aspectos do ser. Sabe-se que há, sempre, entre os candidatos, raposas em pele de carneiro. Ninguém substima as capacidades dos demônios porque eles são tão poderosos quanto os anjos do bem. A única diferença entre eles é o destino final das intenções. Quando um demônio decide aliciar uma pessoa é porque conhece a real intenção do ser eterno daquela pessoa, que pode ser corrigido se ela quizer. Como aliciar uma pessoa para ser químico se ela não tem a menor habilidade para a química da cura? Depois de selecionado e submetido ao processo iniciático, o xamã passa por períodos de treinamento nos rituais da nova profissão em completo isolamento nos mosteiros. Não se aceita candidato a xamã se o pai for xamã. Os xamãs são celibatários e não há distinção entre homem e mulher. O que conta são suas habilidades e qualificações. Muitos são escolhidos já na infância. Alguns são anunciados como Jesus foi. Em outros, as habilidades se manifestam na maturidade sexual. Esse mesmo processo acontece com os demônios. Os tibetanos acreditam que os demônios escolhem um corpo infantil ou em processo de puberdade. A aproximação de um demônio com essa intençao (a tomada do corpo) provoca adoecimento na vítima, cujos sintomas a medicina halopática desconhece. Alguns demônios não se submetem ao processo comum e às normas encarnatórias e forçam a aquisição de um corpo para assim viver na Terra. Os xamãs noviços são submetidos a muitos tratamentos para serem curados dos males naturais ou daqueles impostos por espíritos conhecedores das habilidadaes deles. As vezes é preciso morrer para renascer… Um dos treinamentos psiquicos faz o noviço sentir mentalmente como se seu corpo fosse retalhado e os pedaços servidos a famintos demônios. Talvez haja aí uma semelhança com a Paixão de Cristo. Outro treinamento leva o noviço a se transportar mentalmente para uma árvore, a qual é cortada em depaços. De acordo com sua reação, ele está habilitado a efetuar os vôos da alma e sai do corpo para visitar outros mudos, em missão, de forma a poupar seu próprio corpo físico de qualquer imposição demoníaca. Essas viagem habilitam o noviço na linguagem das cores do arco-iris, dos sete raios, e aí ele aprende a ler aura a serviço da cura. Tudo isso sem uso de qualquer alucinógeno, qualquer erva tóxica, porque essas coisas levam o usuário ao mundo de suas próprias ilusões, indefeso, incapaz de discernir o joio do trigo, além de se expor à vulnerabilidade de domínio e possessão do seu corpo por demônios enganadores, vendedores de favores fúteis. Acredita-se que o xamã que pratica ou aceita encomendas para a maldade seja a própria encarnação da maldade vestida em pele de cordeiro. Essa visão tibetana pose ser arremessada como pré-requisito básico a todas as terapias energéticas em voga hoje no Brasil e no mundo ocidental, aí incluídas Reiki, Cura Prânica, Mãos de Luz, etc., todas vindas da mesma origem e alimentadas pela mesma fonte energética universal. O Espiritismo Kardercista faz as mesmas recomendações com outras palavras. A responsabilidade de praticantes e curadores é a mesma de segurar o cajado como faziam os curadores judaico-cristãos, desde Moisés. Também não ficam distantes desse contexto os trabalhadores da área de saúde porque estamos falando de diferentes matizes da mesma luz. Há de chegar o momento em que todos trabalharemos em parceria. jjoacir@yahoo.com

