Sono, Sonho e Homeopatia
12/12/2006 at 20:48 (Homeopatia)
Quando refletimos sobre os sonhos e o sono muitas perguntas emergem à nossa mente com: Porque a necessidade de dormir e, porque sonhamos? Qual a relação entre o sono, os sonhos e a nossa vida? Será que o mundo fantástico e, às vezes, caótico dos nossos sonhos servem para restaurar e manter a homeostase psíquica e somática? Quem sonha sou eu ou o outro de mim mesmo? Muitas controvérsias existem, mas os sonhos, assim como todos os fenômenos do que é vivo e dinâmico, está envolto em muitos mistérios inexplicáveis e, não pode ser reduzido à fórmulas e explicações mecanicistas da ciência do velho paradigma. Vale lembrar que os problemas podem ser resolvidos, e os mistérios, apenas vividos.
A revolução científica está exigindo um novo paradigma, obrigando a academia aceitar as probabilidades, o imponderável, o inexplicável e a dinâmica mágica e misteriosa da vida. O sono é um estado de repouso normal e periódico, que no homem se caracteriza pela suspensão das capacidades perceptivas e motoras de modo consciente e voluntário. O ato de dormir é necessário, uma vez que além de eliminar a sonolência, contribui para que o organismo se reequilibre, reparando as suas forças e adquirindo mais vitalidade para o novo período de vigília. Esse reequilíbro não visa exclusivamente os aspectos somáticos porque, quando sonhamos, de forma conpensatória, estamos promovendo o reequilibro psíquico.
Atualmente sabemos que um indivíduo privado de sonhar entra em um estado de psicose a partir do segundo dia. Este fato nos faz ponderar que os sonhos estão para a manutenção psíquica, assim como os rins para a manutenção fisiológica. Nos sonhos vivenciamos e experimentamos situações que podem confirmar, modificar ou negar as atitudes que estão sendo realizadas pelo ego vígil. Com isso, os sonhos são compensatórios, promovendo o equilíbrio psíquico, além de ter um caráter pedagógico, pois possibilita vários ensaios sobre as temáticas importantes da vida, alertando-nos sobre as atitudes, apresentando criativamente ou, às vezes, dramaticamente os caminhos que devemos seguir.
Se desconsiderarmos os sonhos, estamos desconsiderando, no mínimo, metade de nós mesmos, negligenciando a nossa totalidade. Esse desequilíbrio e essa unilateralidade produzem muitos efeitos reparatórios e compensatórios, a psicologia, chama de neurose e o mundo. A neurofisiologia do sono nos permite analisar as ondas cerebrais e a dinâmica do ato de dormir. No gráfico abaixo, podemos ver como é o comportamento do sono de uma pessoa normal, onde nos períodos REM (sigla inglesa que significa rápidos movimentos do globo ocular), o sono é profundo, com uma completa paralisia de toda musculatura, queda da temperatura e muita insensibilidade para as senso-percepções, mas paradoxalmente, devido as produções oníricas, que acontecem nesta fase, as ondas cerebrais revelam uma intensa atividade, muito próxima da vigília, o coração se acelera, a respiração fica variável e os olhos movem-se como os de uma pessoa acordada. Além da fase REM, temos 4 estágios de sono, onde os estágios 3 e 4 referem-se ao sono mais profundo e que acontece menos vezes do que os estágios 1 e 2.

Temos, em média, cinco períodos REM, sugerindo que toda noite de sono, vivênciamos cinco sonhos. Os sonhos são fenômenos naturais que provêm de uma descarga elétrica e que provoca alterações cerebrais, eles restabelecem o equilíbrio psíquico e, quando atingem a consciência, influenciam a forma de pensar e de agir das pessoas. Ouvimos vários relatos sobre a alteração do estado de humor em função dos sonhos ou, até mesmo, de impressões e sensações das coisas que aconteceram no dormir. Muitos estudiosos afirmam que os sonhos têm duração de 15 segundos a 5 minutos. E, como eles surgem na forma de imagens, a mente é que vai dar uma linguagem e um entendimento ao estímulo onírico. Os sonhos não devem ser necessariamente lembrados, pois quando estamos 1 inconscientes não existe memória, que só começa a funcionar após alguns minutos de vigília. Existem pessoas que nunca se lembram dos sonhos e outras que se lembram diariamente, no mínimo, de 2 1 diz que a lembrança do sonho tem um significado e, por isso, deve se sonhos. A psicologia analítica dar atenção especial à todos os sonhos, pois eles são grandes instrumentos para o auto conhecimento. Muitos chamam os sonhos de língua de Deus, outros de mensagens do demônio, mas eles estão ligados com a vida de cada um, nos remetendo à psicologia individual, à personalidade e, às atitudes e padrões de comportamento do sonhador.
O sono e os sonhos, na homeopatia, são especificamente voltados ao repertório do caso. Para o homeopata importa a posição durante o sono e todas as manifestações que acontecem dormindo, além do comportamento e o “ritual” para dormir e acordar; os hábitos, os horários e as dificuldades para dormir e ou despertar. Também importa como são os sonhos, se eles são agitados ou tranqüilos, se chegam a despertar e que horas que isso acontece. Quando existem sonhos recorrentes, seus conteúdos são extremamente importantes, pois, além de permitir fazer o diagnóstico diferencial, 2 está influenciando o indivíduo. Os sonhos contribuem para percepção de qual núcleo miasmático denunciam e revelam as temáticas existenciais que, quando desprezadas, levam a pessoa da psora 3 . para a sicose, chegando até ao estupor da sífilis O homeopata não pode interpretar os sonhos, aliás, nenhum profissional ético e sério deveria invadir, interpretar e reduzir os sonhos em um amontoado de explicações racionais, nem a meros depósitos de pulsões censuradas pela consciência, transformando-os em desejos reprimidos. Os sonhos são materiais sagrados que devem ser respeitados, Jung afirma que a função do médico, frente aos sonhos, é de ouvi-los, pois este ato, por si só, já é terapêutico e, quando muito, ampliá-los com símbolos universais e com as próprias experiências subjetivas do paciente, perguntando qual o sentimento associado ao sonho ou à aspectos parciais do sonho, onde isso se manifesta fisicamente e qual significado tem.
Temos temas de sonhos que nos remetem claramente aos núcleos miasmáticos de Bryonia Alba, determinados remédios, podemos citar: sonhar que esta trabalhando é freqüente em Ferrum Metálicum, Aconitum sonha que esta em combate, brigando ou na guerra é característico de Arsenicum Album sonha com fogo, queimadura e com acidentes, enfim cada com a própria morte, remédio tem sua dinâmica miasmática e, por conseqüência, manifesta esta dinâmica nos sonhos, por isso acreditamos que os sonhos são os verdadeiros caminhos para a fonte do si mesmo, pois expõe, de forma pura e simples, o núcleo da psique humana. Os sonhos são de extrema utilidade para guiar os homeopatas na primeira e segunda prescrição, tendo igual valor aos sintomas físicos e emocionais. Com estes três elementos pode-se fazer uma anaminese, levantando o histórico biopatográfico do paciente, ficando muito mais fácil perceber o núcleo miasmático que está motivando sua existência. Através dos sonhos percebemos, de forma nítida, a influencia do medicamento homeopático, sua interferência na dinâmica do paciente, o caminho e as modificações que a substancia energética está produzindo.
Muitas vezes, após o uso do medicamento, os sonhos começam a surgir, outras vezes mudam sua tonalidade afetiva e ou seus conteúdos, a intensidade, a frequência, os temas e as situações. Lembro de um paciente, de sexo masculino, que relatava um sonho recorrente, sempre Atropa Belladona. Após com a temática de estar sendo perseguido por um gigante, muito comum em Belladona CH 200, em dose única, suas produções oníricas foram mudando, o sentimento de tomar aflição, que muitas vezes lhe fazia acordar sobressaltado, foi diminuindo, até que trouxe um sonho em que começou a estabelecer um diálogo com o gigante, com a sensação de que, na proporção em ia crescendo, o gigante ia diminuindo de tamanho, até ficarem iguais. Ficou mais seguro e dizia que seu humor estava menos oscilante, o medo diminui e sua vida ficou menos tensa. 1 C. G. Jung (1875- 1961) é o criador da Psicologia Analítica, método psicoterápico que, assim como a homeopatia vitalista de Hahnemann, visa a evolução do homem em todos os sentidos, para que ele atinja a individuação que equivale ao mais alto fim existencial. 2 Miasma é o termo, usado na homeopatia, que representa a temática existencial e individual que vai dar sentido e significado à vida.
Quando não reconhecemos esse núcleo central, adoecemos, pois a dinâmica energética fica comprometida. 3 Na homeopatia de Hahnemann (1755-1843): Psora, Sicose e Sífilis, são as três fases de evolução do desequilíbrio energético onde, em cada fase a doença provoca sintomas que partem da superfície, psóricos, passando por um período de aumento, agressividade e de expansão na sicose até atingir a falência e o estupor no âmago da sífilis. 2 Outra experiência é a de uma moça que, freqüentemente, sonhava estar sendo traída ou enganada pelo seu pai, já falecido e com problemas de alcoolismo. Relata guardar muita mágoa e indignação em relação a seu pai, dizendo que nunca se sentiu desejada ou amada por ele, apesar de Staphyságria CH 30, em dose única, ter tido muito esforço para agradá-lo e conquistá-lo.
Após tomar trás um sonho em que estava ajudando seu pai, que trabalhava como marceneiro, à construir uma cadeira. Disse que ele a elogiava e estava numa relação de companheirismo, sempre desejada mas nunca vivênciada. Sua tristeza, bem como seus momentos de raiva foram diminuindo e sua ansiedade melhorou sensivelmente. Percebemos, de forma clara e imediata, a influência do medicamento homeopático na produção onírica das pessoas. Principalmente quando analisamos as experiências de patogenesia, feitos no homem são, para o estudo das substâncias em doses energéticas e infinitesimais. Encontramos inúmeros relatos de sonhos ligados, exclusivamente, à temática do medicamento experimentado sem nenhuma conexão com o indivíduo experimentador. Com isso, podemos avaliar a evolução do caso pois, se estamos tratando com similares a temática dos sonhos não mudam ou mudam pelo efeito da patogenesia, criando metástases mórbidas e não o equilíbrio e a superação do caminho equivocado.
O sono é representado, pela mitologia grega, por Hipno, irmão mais novo de Tânatos, a Dicionário Mítico Etimológico (Brandão, J.; RJ, Ed. Vozes, morte. Ambos são filhos de Nix, a noite. No …“ Uma vez instalado sobre as pálpebras de alguém, tudo pode acontecer: liberação, 1991) temos: viagens, novas experiências, sonhos, visões, ódio e amor… Trata-se de uma transição com O que nos remete a possibilidade de transformar profundamente os acontecimentos e a vida.”… pensar que a vida noturna é tão intensa e significativa, interferindo diretamente na construção da personalidade. Não podemos deixar de lembrar que passamos quase metade da nossa vida na condição inconsciente e a maneira, mais direta e natural, para o inconsciente se comunicar com a consciência é o sonho.
A mente consciente age exclusivamente pelo método da limitação, exclusão e concentração, mas o inconsciente jamais é excludente, não é lógico, pois caminha de maneira analógica e holográfica e, finalmente, não está concentrado nos limites de tempo e espaço, trazendo conteúdos pessoais e universais, de um passado longínquo e de um futuro inimaginável. Com isso suas produções são misteriosamente criativas e transcendentes apontando, simultaneamente e paradoxalmente, para uma causa, que nos remete ao passado e para uma finalidade, que nos direciona ao futuro. Por isso, que existe inúmeros relatos sobre sonhos premonitórios, sonhos 4 . proféticos e sonhos que provocam fenômenos sincronísticos.
Os sonhos são expressões simbólicas manifestas pelo conjunto psicossomático Acreditamos que as doenças também sejam as expressões simbólicas, que este mesmo conjunto expressa para denunciar um desequilíbrio que, muito provavelmente, se originou do conflito miasmático que vem da temática existencial e da dificuldade de dar um encaminhamento positivo e significativo para a vida. Estamos nesta experiência existencial para crescer e transformar criativamente, por isso ninguém se contenta, por muito tempo, apenas com a manutenção da vida, todos buscam desafios, de forma consciente ou inconsciente. Não existe ser humano feliz sem estar engajado em um processo que vai além da simples e passiva espera da morte.
Os sonhos sinalizam esse caminho, nos coloca frente ao mistério e, na maioria das vezes, inclui a dimensão criativa em nossa vida cotidiana, podendo evitar as manifestações sintomáticas, que surgem para mobilizar, de forma mais concreta, o indivíduo para o seu caminho. O filósofo, Sinésio de Cirene, 400 d.C., nos deixou este registro: “Os sonhos são democráticos e benevolentes, visto que todos podem sonhar, tanto ricos quanto pobres. Aos vinte e cinco anos, Diário das suas você já deve Ter aprendido a lidar com seus sonhos. Escreva-os – mantenha um Escrever os sonhos também é bom para desenvolver a habilidade com as palavras.” noites.

