Reencontro com minha família chinesa
20/12/2006 at 13:47 (Curiosidades)
Cheguei na China em 1989 e o primeiro ano foi muito difícil. A Embaixada Brasileira não era organizada. Não havia um serviço de apoio a funcionários brasileiros e ninguém havia pensado nisso. O Embaixador era só trabalho e passávamos longas e intermináveis horas na embaixada. Isso anulava as possibilidades de uma vida particular normal fora do trabalho. Eu só tinha um final de semana alternado para botar a casa em dia, comprar comida, e pesquisar os assuntos do meu interesse holístico. Driblava da melhor maneira possível para ter aulas particulares. O único lazer disponível era uma piscina em um grande hotel, que só fechava às onze da noite, e a ela me filiei. Era até gostoso sair a uma temperatura abaixo de zero e ir nadar em uma piscina com a temperatura normal. Foi nessa piscina que numa noite fui abordado por um rapaz chinês. Estava de saída do vestiário, de costas para a porta e arrumando minha bolsa, quando ele se dirigiu a mim, em inglês, me chamando de orgulhoso e pedante. Achei que não era comigo e não olhei. Ele então disse: é com você mesmo que estou falando! Olhei e tremi todo. Era o mesmo rapaz que tinha sonhado há seis meses atrás, em um daqueles sonhos que você acorda sem reconhecer o lugar onde está. Você me conhece de onde? – perguntei. Daqui mesmo – respondeu. Quer jantar lá em casa hoje? – perguntou.
Como, nem lhe conheço! – respondi. Mas eu já lhe conheço, vamos – disse. Olhei para aquele rapaz e senti que estava voltando ao passado. Fomos de bicicleta para a casa dele com a recomendação de que não deveria abrir a boca para que os vizinhos não soubessem que eu era estrangeiro. Como era inverno e estava vestido com pesadas roupas, era fácil disfarçar. Chegamos na casa dele, subimos a escadaria estreita típica dos prédios copiados dos russos. A mãe abriu a porta e vi o pai sentado à mesa. Era tudo muito familiar e fui recebido como se fosse da família. Não sei o que conversaram porque não falava ainda nada de mandarim, mas fui servido com uma quente sopa de vegetais. Daquele dia em diante e por cinco anos essa família guiou todos os meus passos naquele país, direta e indiretamente. Através dela tive acesso a tudo que um ordinário cidadão chinês teria, nas inúmeras redes de proteção e sobrevivência. Conheci médicos, professores, monges, artistas, gente que faz. A cada passo que dávamos na amizade mais ficavam claros os sinais de inúmeras vidas vividas juntos. Eu mudei o rumo dessa família e ela me fez refazer o curso de minha vida atual. Quando a mãe faleceu em Pequim, em 2001, veio até a mim, em Brasília, avisar e perguntar o que fazer. O comunismo tinha reprimido a fé e a religião e ela não sabia como lidar com isso depois da morte. Fiz um pequeno ritual e ela foi embora.

