Por que estrangeiros querem adotar crianças brasileiras?
04/05/2008 at 18:17 (Curiosidades)
Embora em algum momento da minha vida pensei que jamais seria um bom pai, a vida me fez provar que não só era capaz de ser um bom pai mas um bom pai solteiro. Recentemente disparei a sonhar com crianças me pedindo para serem adotadas, todas as noites, insistentemente, ao ponto de acordar no meio da noite pensando que elas estavam na sala. Nunca vi essas crianças mas elas são bem reais quando aparecem. Uma delas até já conheço, de tantas vezes que me apareceu. Então procurei a “maior e mais antigo” “Independente Centro de Adoção”, IAC em inglês. A telefonista é supergentil e em cinco minutos senti como se tivesse achado um lugar maravilhoso sobre adoção de crianças nos EUA, inclusive porque não exige que o adotante seja casado nem se preocupa com a preferência sexual dele, a raça, a religião. Não é um avanço? Não demorou muito e recebi pelo correio o “pacote” dessa agência.
A carta de apresentação da agência é convincente e a pessoa responsável já publicou até livros e nela salienta o aspecto “professional, credenciada e sem fins lucrativos” da agência. Ela tem atuação em 33 estados norte-americanos e se gaba de ser uma das poucas agências de adoção que não tem “regras exclusivas nem restrições contra a religiosidade, a sexualidade, o status civil e a etnia” dos candidatos a adoção — por exemplo, casais gays podem adotar. O candidato é convidado para um “seminário” sobre adoção e também a se tornar membro da organização. Aí começam os números, estranhos para uma organização “sem fins lucrativos”. Para se “filiar” o candidato paga, no ato, uma taxa que varia de 2 a 3 mil dólares. Sim, prepare-se para fazer a converção para Reais porque os valores são em dólares. Se escolher o menor plano de filiação, o candidato deve pagar cinco prestações que variam entre 1,576.00 a 1,792.00 dólares. Claro, o filiado terá apoio, assessoramento e até receberá assistência psicológica “enquanto durar o processo de adoção”.
A página seguinte do “pacote” fala das demais taxas que o candidato, já filiado, deve pagar. De acordo com o seu salário e depois que já pagou as taxas acima, quatro novas parcelas devem ser pagas: se o candidato ganha até 59,000.00 dólares por ano (que é o salário médio para balconistas, vendedores de passagem etc.) ele ou dela vai pagar a primeira parcela de 9,500.00 dólares, a segunda de 1,500,00 dólares, a terceira de 1,500.00 dólares perfazendo um total de 12,500.00 dólares. Veja que estou repetindo a palavra “dólares” para você lembrar que tem que fazer o câmbio para reais. Pois bem, dependendo do nível salarial, as taxas variam de 12,500.00 a 17,500.00 dólares. Já pensou essas quantias em reais?
Evidentemente que o candidato tem despesas adicionais, como, por exemplo, as despesas médicas do bebê durante a gravidez da mãe e até o nascimento. A agência cobra até as cartas que você deve trocar com a mãe do seu futuro bebê adotivo… Esqueci de falar que a agência só trabalha com bebês e uma das páginas do pacote convence você que essas pobres crianças, geralmente “são filhos rejeitados que a mãe não quiz abordar”, por alguma razão – aqui, o candidato à adoção já deve guardar dinheiro para pagar a futura terapia do bebê por ter sido rejeitado pela mãe. Então, as despesas extras que o candidato a adoção será obrigado a pagar pelo contrato assinado, variam entre 3,650.00 a 10,900.00 dólares. Agora uma pergunta: você entende agora porque os norte-americanos vão a países do terceiro mundo, inclusive à America Latina, adotar crianças? Você agora entende porque existem “casas de amparo” a crianças indesejadas neste rico país? Claro, um das páginas explica o quanto você pode receber de retorno do imposto de renda se você adotar uma criança, querendo assim dá a impressão de que você paga e depois recebe parte desse dinheiro… Que produto é esse tão lucrativo para uma agência sem fins lucrativos? Por que tanta gente vem ao Brasil adotar crianças, com ajuda de autoridades, advogados etc?
Houve uma época em que eu era contra às restrições do governo brasileiro pela adoção de crianças por estrangeiros. Hoje eu sou contra as muitas restrições impostas aos próprios brasileiros que querem adotar e os juizados dificultam — por que seria mais saudável uma criança ser criada em orfanato? Você já pensou em viver lá por um dia? A lei deve ser revista com realismo, inclusive com a compreensão de que, se casamento fosse uma segurança para a criança adotada, não haveria tanta família desajustada, abuso e assassinato de crianças pelos próprios pais, casados! Enquanto isso, os orfanatos estão cheios de crianças “depositadas”, de Norte a Sul, muitas delas vivendo da boa-vontade dos corações, mas cheios de privações, inclusive afeto e a constante exposição a traumas do abandono. Eu fui um pai solteiro e sou muito orgulhoso de dizer que sai melhor que a encomenda. Por isso acredito que há milhares de potenciais pais e mães solteiros brasileiros capazes de adotar e bem. Amor não vem com a aliança de casamento, não tem a ver com gênero, raça, cor, religião. O povo brasileiro é visto por muitos povos estrangeiros como um povo feliz, carinhoso, afetivo — e eu concordo. Não é que o estrangeiro também não seja. O que quero enfatizar é que a questão da adoção pode ser muito bem resolvida por nossa sociedade, bastando para isso mudar a lei e aposentar alguns administradores nessa área.
Amor é um processo individual que se mistura com bondade, caráter, missão e isso não se adquire com o casamento nem se materializa apenas em famílias legalmente constituídas – amor é uma semente individual que não depende do repasse de pai para filho. Se fosse assim, mais uma vez, não haveria famílias desajustadas. Conheço pessoas que foram adotadas e elas foram a salvação de muitas famílias… Está passando da hora da lei brasileira encontrar uma saída mais humana, realista, justa e fácil de deixar as pessoas de bom coração e boas condições financeiras adotar livremente, com inspeções e tudo o mais, mas com processos rápidos e sem discriminação de gênero, número, preferências, idade, raça, religião – dentro do próprio país. Os serviços sociais no Brasil ainda trabalha em cima de julgamentos pessoais — quase sempre errados. Eu já contribui por longo tempo para uma creche em Brasilia, até descobrir que os administradores eram emocionalmente desequilibrados. Os juizados de menores brasileiros precisam ser renovados, aprefeiçoados e seus funcionários precisam passar por reciclagem educacional, aperfeiçoamento, receber computadores e material de trabalho. Envolver pessoas de várias raças, sem discriminar o gênero.
A lei precisa ser rigorosa contra os abusos de pais despreparados, doentes… e quase sempre casados! A mesma lei que proíbe, para inglês ver, menores viajarem desacompanhos, ou sem o consentimento dos pais poderia também proibir ter crianças perambulando pelas ruas das grandes cidades brasileiras, ou vivendo com pedintes, expostas ao tráfico de drogas, abusos sexuais etc. A lei deveria apostar no amor e na capacidade humana de se doar e adotar uma criança de qualquer idade, especialmente neste tempo em que o conceito de família é relativo – depende do ponto de vista e isso é muito subjetivo e questionável.

