Não discuta jamais com a voz que vem do seu coração

Estava de férias na praia de Boa Viagem, Recife. O mundo é lindo quando na sua frente só tem o infinito azul do céu e do mar e nada mais a se preocupar. Por que será que todo turista é feliz? Nesse clima maravilhoso bateu nos meus olhos uma alemã querendo comprar água de coco. Ela falando em alemão e o vendedor falando recifense. Entrei na conversa como tradutor e acabei arranjando uma companhia. Depois que descobrimos que estávamos no mesmo hotel, resolvemos ficar o dia inteiro juntos. Combinamos para jantar. Depois do jantar, voltamos para o hotel e fomos para o quarto dela. Meu sangue fervia. Sem trocarmos sequer um beijo, ela foi tomar banho e do banheiro me chamou. Fui até a porta. Completamente nua e sorridente ela me convidou para se juntar ao banho. Todo o meu sistema emocional respondeu exceto uma intuição forte de que deveria ir embora. Mas como? – perguntei a mim mesmo. Embora! Embora! Embora! – dizia minha intuição. Olhei para a garota, pedi desculpas e fui embora. No outro dia pela manhã voltamos a nos encontrar no café da manhã e ela disse-me que iria embora ao meio-dia. Não fui pra praia como planejei e acompanhei a minha nova amiga ao aeroporto. Nos despedimos e fiquei com o seu cartão. Três meses depois fui mandado a serviço para Alemanha. A primeira coisa que fiz foi ligar para ela e contar a novidade, já me oferecendo para ficar na casa dela.

Cheguei na Alemanha e ela estava me esperando na estação de trem. Minha cabeça já matinava que iria tirar o atraso e compensar pela minha “covardia” da última fez no hotel em Recife. Jantamos, ouvimos música, falamos sobre o Brasil e ela me levou até o quarto de hóspedes. Então você não me perdoou da última vez que lhe deixei no banheiro? Sim, já lhe perdoei e até tinha esquecido disso — respondeu. Então, porque não dormimos juntos hoje? – perguntei. Neste momento ela puxou-me pelo braço, me faz sentar no sofá e disse: “eu tenho Aids. Quando encontrei você em Recife eu já sabia disso e queria me vingar em alguém!”. Foi um momento de choro e silêncio. Passei a noite em claro, agradecendo a todos os anjos do céu por terem me mandado embora daquele quarto de hotel em Recife. Não tenho mais dúvidas das minhas intuições e nem questiono a voz do meu coração. Todos nós temos essa maravilhosa proteção. É só obedecer, sem questionar. Pouco tempo depois, os meus cartões começaram a voltar com a seguinte informação: essa pessoa faleceu. Jamais trocamos sequer um beijo. Mas do dia que nos despedimos até o da devolução do último cartão eu rezei muito para que o espírito dela encontrasse a luz e o perdão. Era uma linda criatura e qualquer um poderia estar no meu lugar…

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