Monografia: A psicossomatização das doenças

Apresento a monografia de Eveline Montello Rodrigues Carvalho para a obtenção do título de biomética no Centro Universitário Filadélfia (Unifil), Londrina, Paraná, 2008, sob o titulo “A psicossomatização das doença”. Todos os direitos são reservados. Proibida a reprodução de parte ou do todo sem a autorização expressa da autora. E-mail: eve.carvalho@yahoo.com.br

Por questão de espaço, aqui só é publicado partes da monografia.

 CARVALHO, Eveline Montello Rodrigues. A psicossomatização das doenças. 2008. 71 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biomedicina) – Centro de Ciências da Saúde, Centro Universitário Filadélfia – UniFil, Londrina, 2008.

“RESUMO

Este trabalho visa a desmistificar a antiga visão de que as doenças têm, como sua única procedência, o desencadeamento de fatores como a predisposição genética, as disfunções orgânicas e a presença de antígenos. Assim, apresenta–se uma discussão sobre o arcabouço teórico–conceitual, através da revisão da literatura existente, acerca da psicossomatização das doenças humanas. Foram traçadas considerações a respeito da emoção e da repressão, da necessidade de adoecer, da psicossomática, da significação da saúde e da doença, do soma e da psyche, do processo da psicossomatização das doenças, das doenças psicossomáticas, com especial enfoque ao estresse, à depressão e ao câncer. Como remate, encontra-se uma abordagem sobre os fenômenos psicossomáticos na mulher, bem como considerações concernentes ao papel dos placebos, como terapêutica.  Neste sentido, esta pesquisa se mostra como valiosa ferramenta, já que encerra conceitos imprescindíveis ao profissional de saúde, para que este possa compreender a gênese das patologias de seus pacientes, no intuito de minimizar seu sofrimento, bem como na aquisição de novos conhecimentos no tocante à influência do estado emocional no desenvolvimento da maioria, senão de todas as doenças. Palavras-chave: Doenças Psicossomáticas. Estresse. Depressão. Câncer. Placebo.

Abstract - This work aims to demystify the old vision of the diseases that have as their only source, the trigger factors such as genetic predisposition, the organic disorders and the presence of antigens. Thus, it presents a discussion on the theoretical and conceptual framework, by revising the existing literature, about the psicossomatisation of human diseases. They were drawn with regard to emotion and repression, the need for sick, the psychosomatic, the meaning of health and disease, and the sum of the psyche, the process of psicossomatisation of diseases, psychosomatic diseases, with special focus on stress, in depression and cancer. As end point, is an approach on the psychosomatic phenomena in women as well as considerations concerning the role of placebos, as therapy. In this sense, this research shows is how valuable tool, since it contains concepts vital to the health professional, so that it can understand the genesis of the pathologies of their patients in order to minimize their suffering, and the acquisition of new knowledge regarding the influence of emotional state in the development of most, if not of all diseases.
Keywords: Psicossomatics diseases. Stress. Depression. Cancer. Placebo.

1 INTRODUÇÃO

“Que na realidade a mente governa o corpo, embora a sociologia e a medicina não prestem atenção a isso, é o fato mais essencial que conhecemos sobre o processo da vida” (ALEXANDER apud SILVA, 2005, p. 36).

Já em 1978, o diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante a conferência de Alma Ata, declarou a incapacidade da medicina tecnológica e especializante para resolver os problemas de saúde de dois terços da humanidade (LUZ, 1997 apud CAMPELLO, 2001). Tal informação é atualizada por Luz (1997 apud CAMPELLO, 2001), que indica já serem três quartos da população mundial carentes de saúde. E mais, Campello (2001, p. 15) afirma o seguinte:

Contabiliza-se como sendo cerca de um terço os casos que não se enquadram em nenhum quadro nosológico e estima-se que cerca de 30 a 50% da demanda do clínico geral no atendimento primário, tem sintomas puramente psíquicos ou psicógenos, o que aumenta se levarmos em conta sua implicação em várias doenças, alcançando, segundo alguns estudos, 60 a 70%.

Perlustrando as boas idéias, Silva (2005) cita que, sem esquecer a pluricausalidade das doenças, estas, para ocorrer, exigem como fator suficiente, na quase totalidade das vezes, algum tipo de sofrimento na esfera emocional. Na base deste sofrimento, haveria sempre um estado de desassossego íntimo, de desamor a si próprio, de insatisfação interior, enfim, para o qual o indivíduo não daria solução satisfatória e, portanto, teria a doença como conseqüência e forma de escape.

Dentro dessa concepção, o doente, ensina Pontes, não pode mais ser percebido como um órgão ou conjunto de órgãos que não funciona bem, mas como um ser vivo que não consegue adaptar-se à realização do existir, incapaz que foi, em algum estágio da existência, de resolver de forma adequada e satisfatória seus conflitos internos (SILVA, 2005, p. 105).

Conforme atesta Silva (2005), a formação acadêmica dos profissionais da área médica teve como base, durante muitos anos, a idéia de uma ciência clássica, a qual considerava apenas aquilo que poderia ser provado, medido, dosado, transformado em algum número e quantificado. Entretanto, tais reflexões sofreram mudanças ao longo do tempo, tendo em vista que a prática médica mostrou ser possível dosar uma enzima, radiografar e medir um coração, isolar um vírus ou uma bactéria, mas deparou-se com a impossibilidade de se “dosar” o grau de tristeza ou de sofrimento de alguém.

Assim, a medicina tem passado por mudanças, ao longo dos anos, visando a compreender o indivíduo de modo integral. “O homem só adoece na totalidade. Mesmo se a doença for localizada, o ser humano expressa: eu estou doente” (RENATO DEL SANTI, apud SILVA, 2005, p. 101).

Como se observa, o fenômeno do adoecer seria, assim, decorrente da ligação mente-corpo, a qual já era citada por Freud (1923/1997) (BANDEIRA, 2007), bem como a idéia da existência de uma “alma” ou de uma força externa ao corpo que lhe desse vida e sobre ele influísse. Tais concepções evoluíram ao longo do tempo e das culturas, oscilando entre um conhecimento puramente religioso e outro mais ligado à medicina e à filosofia (SILVA, 2005).

Nesse sentido, cabe ponderar que as expressões gregas soma e psyche, designando o que se poderia entender como corpo e alma foram, pela primeira vez, utilizadas por Anaxágoras (500-428 a.C.), que as considerou como partes distintas, introduzindo uma concepção dualista do ser humano, a qual, por sua vez, foi referenciada por Platão e predominou ao longo de quase dois milênios, inclusive sob a influência religiosa de São Tomás de Aquino, e filosófica, do pensamento cartesiano (HAYNAL; PASINI, 1983; SILVA, 2005).

Assim, com o decorrer do tempo, e com o advento de um número cada vez maior de pesquisas, a interdependência corpo-alma é, hoje, um fato.

Conforme explana Goethe apud Silva (2005, p. 125):

Em todo ser vivo, aquilo que designamos como partes constituintes forma um todo inseparável, que só pode ser estudado em conjunto, pois a parte não permite reconhecer o todo, nem o conjunto deve ser reconhecido nas partes.

Segundo Silva (2005), ao emitir esse conceito, Goethe o iniciava perguntando: “Há síntese maior do que o ser vivo?”. E resumia, nessa afirmação, a essência da noção em que se apóia a medicina psicossomática: a unidade indivisível do ser humano.

O presente trabalho visa a desmistificar a antiga visão de que as doenças têm, como sua única procedência, o desencadeamento de fatores como a predisposição genética, as disfunções orgânicas, e a presença de antígenos, como vírus, bactérias, etc. Posta assim a questão, é de se dizer que esta pesquisa se trata de uma revisão da bibliografia existente acerca da psicossomatização das doenças humanas.

Por tais razões, o intuito deste estudo encontra-se pautado na necessidade de compreender e minimizar o sofrimento humano, tendo em vista que se faz indispensável que o profissional de saúde, de hoje, possua a ciência do influxo das emoções no adoecer de seus pacientes.

Nesta busca por novos conhecimentos, constatou-se que a maioria das doenças, se não em sua totalidade, tem origem no desequilíbrio emocional das pessoas, encontrando seus porquês no desenvolvimento desta pesquisa, a qual também apresenta um aprofundamento na gênese das principais patologias que, atualmente, assolam a humanidade, a saber: o estresse, a depressão e o câncer.

Finalmente, cumpre observar que este estudo traz, ainda, os aspectos peculiares das doenças no corpo, na alma e na mente feminina, bem como o papel do placebo, como instrumento de pesquisas e terapêutica para os males psicossomáticos.

2 EMOÇÃO E REPRESSÃO

De acordo com Silva (2005), em psiquiatria, a palavra emoção é uma designação genérica, que engloba o sentir e a expressão, física e involuntária, deste sentimento. É, pois, um fenômeno que se passa, ao mesmo tempo, no soma e na psyche, ou seja, no corpo e na mente.

O termo “inteligência emocional”, que hoje, consensualmente, designa a capacidade de lidar com as emoções, as próprias e as dos outros, individualmente ou em grupo, parece ter sido proposto inicialmente por Wayne Payne, em 1985, em sua tese de doutoramento sobre a emoção, realizada

em Cincinnati. Foi depois utilizado por Peter Salovey e John Mayer, em 1990, e amplamente divulgado por Daniel Goleman, em 1995, com um livro de notório sucesso editorial (REIS, 2005).

Convém ressaltar que, segundo Dias da Silva (1970 apud SILVA, 1995), as emoções básicas seriam três: medo, ira e amor. Delas, derivariam todas as outras. Assim, o ódio, a vingança, o ciúme, a inveja e o desprezo se relacionariam à ira. O espanto, a ansiedade, a aflição, o pesar, o sobressalto e a intranqüilidade estariam relacionados ao medo. De igual forma, a piedade, a tristeza, a afeição, a alegria, o entusiasmo e a excitação sexual derivariam do amor.

Dessa forma, cada uma dessas emoções corresponderia a um determinado tipo de resposta corporal, mediada pelo Sistema Nervoso Autônomo (SNA) e de suas ligações com o sistema endócrino, desencadeando, assim, uma situação anormal, de desequilíbrio e, portanto, “estressante”. Assim, se essa preparação não tiver seu desaguadouro natural na movimentação dos músculos voluntários, ela se descarregará naqueles órgãos sobre os quais não se tem controle, ou seja, estômago, intestino, coração e vasos sangüíneos (SILVA, 2005).

É evidente, então, que a repressão das emoções, seja qual for, é tremendamente maléfica para o organismo e deve, a todo custo, ser evitada. O grande problema é que, conforme cita Mowrer (apud SILVA, 2005, p. 87), “um dos traços mais pronunciados da vida moderna é a repressão das emoções”. Assim, um homem de negócios, um político ou um estadista devem ser insensíveis. O médico não pode se deixar envolver com os sofrimentos de seus pacientes.

Silva (2005) afirma que as próprias regras do convívio social e da educação induzem as pessoas a reprimirem a expressão física e verbal de suas emoções. Tome-se o caso do choro, por exemplo, o qual se constitui em um dos mais eficazes meios para o restabelecimento do equilíbrio interior daqueles acometidos pela tristeza, pela cólera, pela dor e, até mesmo, pela alegria e pelo amor.

Porém, como regra geral, desde cedo, os pais ensinam a seus filhos que estes devem “engolir o choro”; que “chorar é para os fracos”; e que “homem não chora”. Quando adultos, o caso é ainda mais grave, pois chorar torna-se vergonhoso; “chorar é coisa de criança” (SILVA, 2005).

A importância do choro para a saúde […] fica clara nas observações do doutor Fuy, bioquímico do Saint-Paul-Ramsey Center, nos Estados Unidos. Segundo seus estudos, as crianças nascem com disantonomia familiar (doença na qual há incapacidade para o choro) reagem, ao mais leve grau de ansiedade, com elevação da pressão arterial, urticária, sudorese profunda e salivação excessiva. Mesmo em adultos, as pessoas que sofrem de colite ou úlcera choram muito menos que aquelas que não apresentam esse distúrbio. A razão pela qual o choro é benéfico decorre da descarga muscular que provoca, dando vazão a toda tensão do corpo (SILVA, 2005, p. 92).

Entende-se que alguém chore diante de uma cena triste, mas não é a cena em si que faz a glândula lacrimal secretar, e sim a experiência da tristeza. De igual forma, o simples ato de secretar lágrimas não equivale ao choro. A glândula lacrimal secreta diante de estímulos neuroquímicos. Enfim, hipersecreção lacrimal não equivale a chorar. A natureza não tem sentimentos, nem ética. Tais categorias são experiências simbólicas específicas da produção humana. O ponto de cruzamento dessas duas dimensões é o que se procura estudar na psicodinâmica, expressando-se no corpo, o qual passar a ser um campo de leitura, e a prioridade cognitiva desloca-se da doença para existência do paciente (EKSTERMAN, 1994).

Diferentemente dos animais, o ser humano dispõe de uma outra forma de expressar que lhe vai à mente: as palavras. Contudo, tal qual ocorre nas expressões físicas, a civilização e a cultura não ajudam: o homem é condicionado, desde cedo, a não dizer aos outros que sente. Tudo pode estar minado por dentro, mas todo esforço deve ser no sentido de exibir uma fachada de normalidade. Dessa forma, criam-se, no interior das pessoas, verdadeiras prisões emocionais, transformando-as em seres “emocionalmente constipados”, dado que tendem a reprimir o que realmente sentem como ocorre, por exemplo, com os pacientes que desenvolvem algum tipo de câncer (BANDEIRA, 2007; SILVA, 2005; VOLICH, 2000).

A incapacidade desses indivíduos de comunicarem, com palavras, seus pensamentos, faz com que eles “falem com a linguagem dos órgãos”, ou seja, o adoecer de determinado órgão é a forma inconsciente de proclamarem seu sofrimento, por não conseguirem fazê-lo de outra forma. É ilustrativo para Pontes (2005 apud SILVA, 2005) o caso dos pacientes que desenvolvem úlcera péptica. São, geralmente, pessoas retraídas, de poucas palavras, “controladas” e que, sofrendo sem expressar o sofrimento, “fecham a boca que fala e abrem a boca do estômago”, nele provocando feridas e, conseqüentemente, desenvolvendo úlceras.

Como escreveu Mandsley, há mais de cem anos, ‘se a emoção não se libera, vai agarrar-se aos órgãos, perturbando seu funcionamento. O desgosto que se pode exprimir por meios de gemidos e lágrimas é rapidamente esquecido, enquanto o sofrimento mudo, que remói incessantemente o coração, acaba por abatê-lo’ (SILVA, 2005, p. 100).

Além da repressão das emoções, outros são os fatores desencadeantes das diversas patologias existentes na atualidade, dentre os quais merecem destaque a necessidade e as vantagens do adoecer, como será discutido a seguir.

3 A NECESSIDADE DO ADOECER

Já nos albores da civilização, os médicos antigos chamavam a atenção para o fato de o principal fator causal das doenças – ao menos das doenças graves – é a conduta. O psiquismo é, portanto, fundamental para a conservação da saúde e, ao modular o comportamento da pessoa, tem o poder de multiplicar a vulnerabilidade biológica do corpo, abrindo as portas para as manifestações orgânicas das doenças (RAMADAN, 1988 apud SILVA, 2005, p. 106).

Assim, se observa que o processo do adoecimento ocorre como se obedecesse a uma necessidade do indivíduo, de tal forma que as doenças, ou a saúde, seriam “opções de vida do sujeito titular do corpo”. Uma dessas opções seria o processo de adoecer como válvula de escape dos conflitos intrapsíquicos e emocionais (SILVA, 2005).Chaves (1976), citado por Trindade (2007), acredita que o sistema integrativo determina as correlações psicofisiológicas das emoções. Essa integração do indivíduo como uma unidade existencial às variações física, químicas e biológicas do meio, e os constantes impactos que as relações sociais e interpessoais determinam à emotividade e à fisiologia, com seres portadores de necessidades vitais, de anseios, de sonhos, de idéias, de planos prospectivos de vida, de necessidades de afetos, de carinhos e atenções, que o convívio humano quase sempre frustra e desilude.

Em 1917, Groddeck (1988 apud CASETTO, 2006) publicou um artigo intitulado “Condicionamento psíquico e tratamento de moléstias orgânicas pela psicanálise”, no periódico Internacionale Zeitschrift für Psychoanalyse. Nele, o autor apresenta o conceito “por quem somos vividos”, ao qual atribui poder de ação a todo o organismo. Groddeck estende a teoria do processo conversivo a todo processo de adoecimento: o motivo do sintoma, inconsciente, elucida-se pelas conseqüências que ele provoca, senão práticas, ao menos simbólicas.

Para Petersen (2000), a dor pode ser interpretada em três níveis hierarquizados, a saber: o primeiro, que considera o significado biológico da dor; o segundo nível, simbólico, refere-se ao envolvimento de, pelo menos, duas pessoas, tendo assim a dor como forma de pedir ajuda; e o terceiro significado, o qual se refere ao aspecto comunicativo da dor.

Nesse sentido, Groddeck (1988, p. 219) ainda cita que:

A doença não provém do exterior, o próprio ser humano a produz; o homem só se serve do mundo exterior como instrumento para ficar doente, escolhendo em seu inesgotável arsenal de acessórios ora a espiroqueta da sífilis, ora uma casca de banana, depois uma bala de fuzil ou um resfriado.

Torrano-Masetti e Santos (2000), em seu artigo “A recaída da neoplasia hematológica: um enfoque psicossomático”, confirmam a relação entre a formação de sintomas e a representação simbólica do afeto. Segundo eles, a recaída pode representar uma repetição, tal qual se observa no sintoma neurótico, indicando uma tentativa mal sucedida de elaboração de conflitos psíquicos, que desencadeiam emoções dolorosas.

À guisa de exemplo, pode-se citar o caso de um empresário que sofre um infarto quando se depara com a falência de sua empresa, ou da mãe que sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) por não suportar uma vida familiar conflituosa e insatisfatória. Em ambos os casos, a doença, por mais paradoxal que pareça, é o preço a pagar por manter a vida dentro dos limites possíveis (SILVA, 2005).

Conforme expõe Silva (2005), outro motivo a embasar a necessidade do adoecer seria o desejo de autopunição. Refere-se a pessoas que, em nível inconsciente, se sentem culpadas e merecedoras de castigo. Tais pessoas mantêm, com o próprio corpo, uma relação ambivalente de amor e ódio: preocupam-se com ele mais do que o “normal”, mas alimentam o desejo de puni-lo. Sentem-se portadoras de algo mau a ser extirpado e têm o seu exemplo maior nos “polioperados”, isto é, naqueles indivíduos que se submetem a várias operações ao longo da vida.

No dizer de Pontes (2005 apud SILVA, 2005, p. 109), esses são os pacientes que vão ao médico “não com vistas de aliviar seu sofrimento, mas com o objetivo de extirpar algo de si mesmos”, sendo comum que já o tenham feito, como a retirada do apêndice, da vesícula, de cistos e miomas de ovário e útero, de pólipos, etc.

Uma última razão, por fim, justifica a opção por adoecer: os ganhos secundários que, em nossa cultura, a doença orgânica traz consigo. Assim, ao adoecer, o indivíduo regride, como se voltasse a ser criança, passando a ser objeto de afeição e carinhos especiais e a ser merecedor de indulgências dos outros. Para muitas pessoas, embora não para todas, a doença e o repouso na cama satisfazem às suas necessidade de dependência, e elas quase recebem de braços abertos essa oportunidade (SILVA, 2005, p. 110).

Segundo Allouch (2003), em 1990, Tustin sustentou a idéia de que as perturbações somáticas constituem o esboço de uma saída do autismo, quando o paciente começa a sentir que alguém o pode cuidar de modo apropriado. Enfim, em 1997, em seu artigo intitulado “Autismo: aspectos autísticos na farmacodependência e nas doenças somáticas”, Rosenfeld declarou que o sintoma psicossomático dá, a estes pacientes, uma sensação de identidade, além do abandono do sentido da solidão (ALLOUCH, 2003).Campos et al. (2003, p. 100) cita o caso da alopecia: “Na maioria dos casos a etiopatologia é desconhecida, porém estudos levantam a hipótese de que sua causa seja psicossomática, vinculada a causas físicas ou associada a outros tipos de doenças ou síndromes”.

Silva (2005) faz uma analogia entre o choro de uma criança e o adoecer de um adulto, uma vez que ambos se mostram como eficientes instrumentos para chamar a atenção de outros, para que lhe venham ao socorro e lhe cerquem de cuidados. Nesse sentido, deve-se observar o que o sensível médico inglês, M. Balint, dizia, ao afirmar que “as pessoas adoecem com alguém, para alguém ou por alguém”. A prática clínica confirma essa afirmação (CARVALHO, 2008; MONTGOMERY, 2006, p. 87).

De igual forma, o processo de adoecer traz outras vantagens, de natureza mais prática, a saber: a pessoa doente está isenta dos papéis sociais normais, ou seja, não precisa ganhar seu sustento, trabalhar, etc., e – muito importante – não é responsável pela doença, recebendo, assim, a indulgência social (SILVA, 2005).

Tenha-se presente, ainda, que o fato de alguém adoecer de úlcera, e não de infarto, e de aquele outro sofrer de asma brônquica, e não de reumatismo, por exemplo, tem sua razão ligada à confluência de fatores diversos, como o padrão genético com que nasce, mas principalmente à natureza de seus conflitos interiores. Assim, o tipo da doença e a época da vida em que adoece têm muito a ver com a história do indivíduo, as perdas e frustrações que sofreu, e sofre, e sua incapacidade de lidar com elas (SILVA, 2005).

4 A PSICOSSOMÁTICA

Define-se classicamente por ‘psicossomático’ todo distúrbio somático que comporta, em seu determinismo, uma fator psicológico interveniente, não de modo contingente, como pode ocorrer em qualquer afecção, mas por uma contribuição essencial à gênese da doença (JAMMET; CONSOLI, 1989, p. 205).

Em meados do século XIX, ainda antes do advento da Psicanálise, J. C. Heinroth (1773-1843), um psiquiatra alemão, reconheceu a influência das “paixões” em algumas doenças. Ele foi o primeiro a utilizar o termo Psicossomática, sendo considerado, por muitos, o pioneiro nesse campo. Outros vieram, depois dele, sustentando a importância dos afetos no adoecer (BARBOSA, 2007; CANOVA, 2008; FONSECA, 2007; RIBEIRO, 1996).

A postura psicossomática deriva-se da posição holística, uma vez que termo grego “holos” significa total. Traduz uma concepção dualista do homem e a influência recíproca de uma parte sobre a outra. Este conceito tenta recuperar o que, na antiga Grécia, Platão, Hipócrates e Aristóteles consideravam: a unidade indivisível do ser humano (CANOVA, 2008; RIBEIRO, 1996).

Uma característica muito importante encontrada em pacientes somatizantes é o uso da linguagem corporal, a mais arcaica forma de comunicação humana, tendo um déficit na capacidade de simbolização e de mentalização. Esta expressão conflitiva no órgão é uma via de acesso ao inconsciente. Temos então o soma e o psiquismo que são intraduzíveis (BARROS, 1995, p. 15).

Durante a antiguidade, o processo de adoecimento era considerado uma manifestação de forças sobrenaturais, sendo a cura procurada em rituais religiosos. A desvinculação da doença, do pensamento religioso, se desenvolveu a partir de confrontações públicas de idéias, e do posicionamento de escolas políticas, filosóficas, científicas e até mesmo religiosas (RIBEIRO, 1996). O pensamento de Sócrates (470 a 399 a.C.) emergiu em um período de grande prosperidade para Atenas, levando, gradualmente, à concepção do homem constituído não apenas de um substrato material – o corpo e suas funções –, mas também de uma essência imaterial, vinculada aos sentimentos e à atividade do pensamento: a alma. Hipócrates, contemporâneo de Sócrates, nascido por volta de 460 a.C., introduziu a idéia da unidade funcional do corpo, na qual a psyché, ou alma, exercia uma função reguladora. Considerava o homem como uma unidade organizada, sendo impossível observar as partes do corpo, abstraindo-as do todo cósmico ou corporal. Entretanto, essa unidade era passível de desorganizar-se, propiciando o surgimento de doenças. Nessa mesma época, em Cnido, na Ásia Menor, desenvolvia-se uma prática médica distinta, seguida por Galeano. A abordagem da doença era focalizada nos sintomas e, a partir dos órgãos atingidos, estabelecia-se o diagnóstico e a sua nosografia. A doença tinha sua origem em uma lesão orgânica e a intervenção médica consistia em localizar o mal no corpo e, se possível, eliminá-lo (BARBOSA, 2007; CANOVA, 2008; RIBEIRO, 1996; TRINDADE, 2007).Nesse sentido, Deutsch colaborou para as pesquisas de Helen Dunbar e Alexander (1891-1964), os quais desenvolveram estudos pautados na relação entre doença e perfil de personalidade. Os trabalhos de Dunbar procuraram detectar traços comuns entre pacientes de diversas patologias, a partir de um protocolo complexo de dados e características individuais. Alexander tinha críticas a esta correlação, afirmando que o nexo deveria ser feito pautado em certos estados emocionais. Assim, por exemplo, a raiva seria acompanhada por um aumento da pressão sangüínea. Desse modo, os sintomas psiconeuróticos corresponderiam à construção de caminhos alternativos, individuais, para a expressão de emoções reprimidas (CASETTO, 2006). Interessante se faz mencionar que, em 1929, Cannon desenvolveu o conceito de homeostase, dando, assim, a base fisiológica para a concepção holística, pois, segundo tal definição, todo e qualquer estímulo, incluindo psicossocial, que perturba o funcionamento do organismo, o perturba como um todo (BARBOSA, 2007; CANOVA, 2008).

Nos anos de 1930, com o regime nazista da Alemanha se expandindo, muitos psicanalistas europeus radicaram-se nos Estados Unidos, entre eles Alexander, Felix Deutsch e Dunbar, fundando, posteriormente, a Escola de Psicossomática de Chicago – grupo que liderava estudos sobre sete patologias: asma brônquica, úlcera gástrica, atrite reumatóide, retocolite ulcerativa, dermatoses, tireotoxicose e hipertensão essencial. Para cada uma, procurou-se localizar um conflito específico (BARBOSA, 2007; CAPITÃO, 2006; CASETTO, 2006; CERCHIARI, 2000).

No caso na úlcera péptica, foram identificados pacientes com anseio pela condição de dependência, de cuidados maternos – desejos, via de regra, reprimidos e sobrepujados por uma atitude contrária: empreendedora, independente, ousada, com tendência à sobrecarga de responsabilidades. A aspiração por uma posição dependente, não realizada e, portanto, não extinta, levaria ao acionamento do sistema nervoso parassimpático, regente da atividade gastrointestinal. As conseqüências se deduzem: em consonância com os anseios infantis de dependência, o organismo preparar-se-ia para receber alimento, secretando suco gástrico, por exemplo, e criando as condições para gastrites e úlceras (BARBOSA, 2007; CAPITÃO, 2006; CASETTO, 2006; CERCHIARI, 2000).

Citando as observações de George Draper (apud CASETTO, 2006, p. 127), este afirma que a pressão sangüínea de alguns hipertensos normalizava-se quando do desenvolvimento de certos sintomas neuróticos: “aparentemente, os impulsos hostis reprimidos podiam ser liberados através dos sintomas neuróticos e, portanto, eles deixavam de ser a fonte de excitação crônica dos mecanismos vasomotores”. Ou seja, a psiconeurose seria uma forma alternativa de expressão do reprimido. O movimento psicossomático no Brasil, inicialmente influenciado por conceitos oriundos da psicanálise, passou por inúmeros avanços, sendo o seu braço clínico a disciplina de Psicologia Médica, atualmente ministrada na maioria das universidades Médicas (TAVARES, 2005). Moreira (2008) afirma que se denomina Patologia Psicossomática o ramo da medicina que estuda os fenômenos emocionais e instintivos, bem como sua participação na aparição e no desenvolvimento de afecções somáticas. Atualmente, o estudo da Psicossomática tem como finalidade integrar a doença à dimensão psicológica, social e cultural, propiciando um melhor entendimento do paciente e uma ação terapêutica mais abrangente e significativa (CANOVA, 2008; RIBEIRO, 1996).Em virtude de tais considerações, pode-se afirmar que a denominação de medicina psicossomática, de acordo com seu campo epistemológico, é um estudo das relações mente-corpo, com ênfase na explicação da patologia somática, uma proposta de assistência integral e uma transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais (EKSTERNAN, 1992 apud CERCHIARI, 2000).

Assim, para Mello Filho (1992, p. 19): “Psicossomática é uma ideologia sobre a saúde, o adoecer e sobre as práticas da saúde; é um campo de pesquisas sobre esses fatos e, ao mesmo tempo, uma prática, a prática de uma medicina integral”.

5 A PSICOSSOMATIZAÇÃO DAS DOENÇAS

O homem nunca se conformou com a fatalidade da doença; ao contrário, combativo, ele vem buscando meios para enfrentá-la e vencê-la desde o início da civilização – rituais religiosos, magias, ervas terapêuticas, sugestões, xamãs e muitos outros recursos foram e ainda são buscados numa tentativa de escapar de um desfecho às vezes inevitável. Nesse contexto, surge a Medicina que vem, desde Hipócrates, se aperfeiçoando em dar respostas e criar terapêuticas que promovam curas, aliviem dores e adiem a morte, mitigando o sofrimento humano. Contudo, há algo numa forma de adoecer que lhe escapa por extrapolar os limites do organismo, por estar além do discurso cientificista. E é aqui que entra a abordagem psicanalítica (FONSECA, 2007, p. 229-230).

A ciência médica, desde o seu início tribal até a apoteose tecnológica de hoje, tem se esforçado para explicar as origens das enfermidades. A medicina ocidental baseia-se, há muito tempo, em um axioma primitivo: “uma doença, uma causa”. Este instrumento simples, porém brilhante, levou (entre outras maravilhas) ao isolamento dos agentes de diversas patologias e, em alguns casos, aos seus remédios (BARASCH, 1997).

Segundo Barasch (1997), nem todas as pessoas geneticamente predispostas à determinada doença a contraem. Como se observa, cânceres do mesmo tipo celular podem progredir rapidamente em uma pessoa, lentamente em outra, e parar de crescer ou, ocasionalmente, regredir em uma terceira pessoa.

A noção de que as raízes de certas doenças humanas são irremediavelmente emaranhadas (em termos clínicos, ‘multifatoriais’) vem lentamente ganhando aceitação em muitos círculos médicos. […] ‘Na melhor das hipóteses… a presença do defeito bioquímico define uma condição necessária, mas não suficiente para a experiência humana da doença… Constitui apenas um fator entre muitos outros, cuja complexa interação pode culminar em doença ativa’. A medicina começa a perceber que não se pode falar da origem das doenças sem incluir estilo de vida, dieta, meio social, meio ambiente e, o que é talvez mais interessante, consciência e emoções (BARASCH, 1997, p. 82).

É o que afirma Silva (2005, p. 125-126):

Em que se pese a noção, já antiga, do papel dos estados emocionais na gênese das doenças, durante séculos, e mesmo até Freud, admitia-se que, com a exceção dos males congênitos e hereditários, as doenças eram causadas por agentes externos, isto é: vinham de fora para dentro. O advento da psicanálise, todavia, e sua progressiva aceitação revolucionaram esse conceito e introduziram um novo: o de que, em algumas doenças, os males do corpo constituíam uma mera expressão dos males do espírito, ou seja, provinham de dentro da pessoa.

Os transtornos psicossomáticos têm seu papel central exercido pelas emoções, tendo em vista a origem do termo “psicossomático”, o qual remete às palavras gregas psyche (“mente”) e soma (“corpo”). Os sintomas das doenças psicossomáticas refletem perturbações fisiológicas, associadas aos danos teciduais e à dor (ATKINSON et al., 1995).A concepção clássica de doença psicossomática, no entanto (entendida como a influência dos fatores psíquicos nos distúrbios físicos), deixa de levar em conta dois aspectos: a influência dos distúrbios físicos no estado psicológico da pessoa e o papel do meio externo, particularmente o meio social. Com relação ao primeiro desses aspectos, passou-se a falar em doença somatopsíquica, invertendo a direção do fluxo da influência. […] Não há como negar a influência que o estado de saúde tem sobre o psiquismo da pessoa. Alguém que nasce com um defeito qualquer (por exemplo, uma doença congênita do coração) certamente sofrerá os efeitos psicológicos dessa situação. Da mesma forma, alguém que sofra um infarto do miocárdio sofrerá, e muito, os reflexos emocionais e afetivos da doença. Nesse último caso, entretanto, houve uma influência recíproca, isto é, tanto houve influência do psiquismo na eclosão do infarto como da ocorrência do infarto sobre o psiquismo (SILVA, 2005, p. 128-129).

Dessa maneira, feitas as ressalvas às doenças congênitas e hereditárias, torna-se possível afirmar que o fator psíquico prepondera, constituindo a gênese de quase todas, senão todas, as doenças adquiridas ao longo da vida. No entanto, a aceitação da psicogênese das doenças orgânicas não exclui a influência recíproca do corpo sobre o psiquismo, embora subordinado a este (SILVA, 2005). Ilustrando a assertiva, tem-se a seguinte representação gráfica (Fig. 1):

Figura 1 – Fluxo Bidirecional de Influências Fonte: Silva (2005, p. 129).          

Roborando o assunto, Osório (1993 apud BARROS, 1995, p. 77) acentua:

Soma e psique são dois canais de expressão de um mesmo fenômeno vital, carece de qualquer sentido tomar manifestações somáticas como tendo uma causa psíquica e, vice-versa, perturbações psíquicas como de etiologia orgânica. O vetor etiológico, independentemente de sua natureza, sempre afetará um indivíduo como um todo e terá expressão somática e psíquica simultâneas, ainda que se exteriorize predominantemente por um ou outro dos canais referido.

Chaves (1976), citado por Trindade (2007, p. 05), diz que:

O estudo das correlações psicofisiológicas entre as nossas emoções e as reações bioquímicas e funcionais do nosso organismo total veio a tornar mais compreensíveis a patologia e a terapêutica, explicando-se hoje uma infinidade de problemas inacessíveis ao organicismo da medicina ortodoxa.

Assim, as manifestações fisiológicas e psíquicas do indivíduo provêm de uma homeostasia que o empenha em suas relações como meio e com sua história pessoal. É por isso que o soma e a psique devem ser considerados interdependentes e inseparáveis (TRINDADE, 2007).Segundo Trindade (2007), toda doença é um episódio coerente na biografia do indivíduo, apresentando um sentido na história pessoal ou evoluindo conforme as determinantes históricas da vida emocional do paciente.Mas a doença não tem um só sentido, o de provocar desarmonia psíquica. Há também o efeito inverso: a doença sendo uma conseqüência, um reflexo da vida do sujeito, de como ele vê a vida, se relaciona com o mundo e consigo mesmo, como se insere em sua realidade. São os efeitos inversos, a mente como desencadeadora da doença no corpo (TRINDADE, 2007).

De acordo com Silva (2005), diante de uma situação percebida como perigo, os mamíferos (entre eles, o homem) reagem de duas únicas maneiras possíveis: agressão ou fuga – o que resulta da atividade do ramo simpático do SNA.

Como se observa, no início da década de 1950, Franz Alexander, um dos pioneiros da medicina psicossomática, com sua famosa Escola de Psicossomática de Chicago, propôs que, se essas duas tendências básicas (ataque ou fuga) são, por alguma razão, bloqueadas, o resultado será um desequilíbrio do sistema neurovegetativo. Segundo sua concepção, há indivíduos que vivem em permanente estado de tensão, rivalidade e competição. Tais pessoas, na maioria das vezes, bloqueiam a expressão física desses estados, a despeito de o Sistema Nervoso Simpático (SNS) ter sido ativado. A repetição dos bloqueios com o conseqüente e repetido desequilíbrio neurovegetativo levaria, ou predisporia, à ocorrência de doenças, como hipertensão arterial, enxaqueca, hipertireoidismo, artrite, síncopes, diabetes, doenças cardiovasculares, etc. (BARBOSA, 2007; SILVA, 2005).

Por outro lado, há pessoas que, em vez de agressivas e competitivas, se sentem desamparadas e fracas diante do mundo. Sentem-se dependentes dos outros, numa relação quase infantil. Esse estado, ainda segundo Alexander, levaria à ativação do Sistema Nervoso Parassimpático (SNP). Também neste caso, o contingenciamento sociocultural inibe a exteriorização dessa “fraqueza”, dessa necessidade de ser objeto de cuidados. Em conseqüência, o parassimpático, embora ativado, é bloqueado. Tal como no caso anterior, a repetição desses bloqueios cria o desequilíbrio neurovegetativo, levando a quadros como asma, colite, diarréia, constipação e úlcera (SILVA, 2005).

Uma outra situação que vale a pena destacar o componente psicogênico é a que concerne às doenças infecciosas. A este respeito, Silva (2005, p. 137-138) afirma:

Como são resultado da ação de um organismo estranho e externo ao próprio indivíduo, a tendência é vê-las como exemplos definitivos de doenças cuja causa é externa e claramente identificada. Ledo engano, porém. Estudos que se vêm desenvolvendo, tanto em animais quanto em pessoas, têm propiciado o reconhecimento de um novo campo na área das ciências da saúde: a psicoimunologia. Coube a Adler, pela primeira vez e há várias décadas, afirmar que ‘uma doença infecciosa não é o produto apenas de uma bactéria ou de um vírus, mas decorrência da participação do indivíduo em sua totalidade, do corpo e da mente, na ‘aceitação’ ou ‘rejeição’ ao vírus ou a bactéria’. A influência da tensão ou do estresse na suscetibilidade a infecção fica clara, até mesmo, entre os animais, onde se poderia supor menor ou nulo o papel dos fatores emocionais.

Os pesquisadores do sistema imunológico e estresse, Esther M. Sternberg e Philip W. Gold, do Instituto Nacional de Doenças Mentais dos EUA, afirmam que:

O cérebro e o sistema imunológico enviam sinais de um ao outro continuamente, em geral pelas mesmas vias, o que pode explicar como o estado mental influencia a saúde. […] A resposta imune é uma seqüência elegante e finamente ajustada de eventos celulares para eliminar substâncias estranhas. […] O estresse psicológico pode afetar a suscetibilidade do indivíduo a doenças infecciosas (SANTOS, 2005, p. 21).

Segundo Silva (2005), é tão grande o número de fatos que comprovam a relação entre a depressão psicológica – mesmo uma simples tristeza ou preocupação – e a depressão imunológica, que tal vinculação é hoje indubitável. As explicações para tal vinculação baseiam-se nas alterações orgânicas que as situações de estresse provocam, as quais se dão pela maior produção de cortisona, levando à destruição de alguns tipos de linfócitos, como os tipos T e B.rea das cido o reconhecimento de um novo campo na s____________________________________________________________________________

Dessa maneira, pode-se afirmar que, por ser o homem um todo psicossomático, todas as doenças são psicossomáticas (BARROS, 1995; PERESTELLO, 1996; SILVA, 2005).

De acordo com McDougall (1996, p. 03), “todos os seres humanos têm tendência à somatização, quando circunstâncias externas ou internas ultrapassam os ‘nossos modos psicológicos de resistências habituais’”.Assim, as doenças psicossomáticas, em seu mais amplo sentido, têm sua expressão somática justamente nesses períodos de turbulência orgânica, quando as reservas do organismo vivo são mobilizadas para impedir a desordem entrópica que as materializa em síndromes disfuncionais ou lesionais (MOREIRA, 2008).Para alguns autores, as origens dos fenômenos psicossomáticos podem ser encontradas na primeira infância, na relação com os pais, principalmente com a mãe. Zimermam (1999 apud BANDEIRA, 2007) afirma ser consenso que a gênese da predisposição psicossomática reside nas vivências emocionais, narcísicas e sensuais que caracterizaram os primitivos vínculos do bebê com a sua mãe. Tenha-se ainda que a vulnerabilidade do ego à frustração (causada pela perda) pode ser condição para a predisposição psíquica ao adoecer.

Conforme cita Silva (2005, p. 102), “a doença, seja ela qual for, pode ser entendida como uma perturbação não-resolvida no equilíbrio interior do ser vivo em sua interação com o ambiente que o cerca”.

Zimermam (1999 apud BANDEIRA, 2007) faz menção ao pensamento operatório como característica presente nos pacientes somatizadores, que é caracterizado por um estado mental em que tais pacientes superinvestem, libidinalmente, tudo aquilo que existe de concreto como e, principalmente, seus sintomas corporais. Incapaz de lidar psiquicamente com uma carga excessiva de sentimentos e pensamentos, o indivíduo responde com o agir, ao invés do pensar, devido à falta de condições do inconsciente expressar-se por meio das representações. Desse modo, comparando o adulto psicossomático a um bebê, McDougall (1996 apud BANDEIRA, 2007) diz que ambos possuem o mesmo funcionamento psíquico diante de dolorosas emoções, reagindo apenas psicossomaticamente, articulando-se por meio de significantes não-verbais, sendo o sintoma a sua linguagem.

Canova (2008) observa que a integração no meio social e as razões que se consegue manter com outras pessoas são de fundamental importância para o bem-estar físico e mental do ser humano. Desse modo, a concepção mais recente e abrangente não fala mais em “doença psicossomática” ou “doença somatopsíquica”, mas sim em “doença sócio-somática”, isto é, a saúde ou a doença seria resultado da conjugação de fatores originados do corpo, da mente e da interação de ambos entre si, com o ambiente e com o meio social.

Oliveira et al. (1996) observa que a saúde seria definida apenas como algo estático, ou ainda, como a simples ausência de sintomas, se o homem fosse uma máquina, e se todas as suas engrenagens funcionassem perfeitamente, independentemente de fatores externos ou internos.É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor de cabeça, do que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando. Para Oliveira et al. (1996), o ser humano é muito imediatista, trata apenas das aparências, e não busca a origem ou as causas de suas doenças.Entretanto, o corpo humano vai sinalizando, com muita antecedência, o desequilíbrio através de pequenas alterações funcionais, sem substrato físico. Isto é, não há nada, a nível orgânico, que justifique tais sinais ou sintomas. Assim, com a não valorização destes sinais e a manutenção do mesmo padrão de vida, as alterações físico-químicas vão se cronificando e se solidificando, até atingirem o segmento físico: a doença passa a se expressar em algum órgão, acompanhada de padrões mentais e emocionais bem determinados (OLIVEIRA et al., 1996).Conforme aponta Oliveira et al. (1996), saúde e doença são aspectos de um mesmo movimento. Através do desequilíbrio, atinge-se novo equilíbrio, uma nova freqüência. No período de transição para esse novo padrão, vivencia-se a doença, ou seja, ela não é considerada como algo estranho, mas sim, como a conseqüência de um conjunto de fatores que culminam em desarmonia e desequilíbrio. Em outras palavras, é através da doença que se alcança a saúde. Verifica-se, com certa freqüência, em pacientes com doenças graves ou terminais, relatos acerca de estarem vivendo melhor ou mais saudavelmente, a partir do momento em que se conscientizaram de sua doença. A doença é uma oportunidade para a introspecção, de modo que o problema original e as razões para a escolha de certa via de fuga possam ser levadas a um nível consciente, onde o problema possa ser resolvido. O ser humano pode-se instalar na doença, pode obter com ela benefícios, mas pode, principalmente, pela doença, exprimir tendências profundas (OLIVEIRA et al., 1996).Outro ponto de importância é o chamado “benefício secundário da doença”. Estar cronicamente enfermo pode significar, para alguns, abandonar responsabilidades, ficar entregue aos cuidados de outros, numa condição que acentua os traços regressivos que existem potencialmente em cada pessoa. Este conflito entre as forças que impelem para a recuperação, e aquelas que convidam o indivíduo para a fuga das responsabilidades, ocorre em todos os doentes, principalmente quando se trata de um enfermo crônico (QUEIROZ, 2008).Todavia, é importante acentuar que tais forças atuam basicamente sob a égide do inconsciente, pois ninguém, em plena saúde mental, desejaria permanecer doente. É preciso que o profissional de saúde saiba disso para que, ao invés de simplesmente reprimir ou condenar esta utilização, possa compreender as razões profundas que levam a determinada condição patológica (QUEIROZ, 2008).

O transtorno de somatização é caracterizado pela presença de sintomas físicos, sugerindo doenças somáticas sem achados orgânicos que os explique, buscando seguidos reasseguramentos com fortes evidências de que os sintomas estejam ligados a fatores ou conflitos psíquicos, na maioria das vezes não aceito pelo paciente somatizante (BARROS, 1995, p. 73).

Com relação à gênese do transtorno da somatização, Barros (1995) e Petersen (2000) acentuam que não existe uma especificidade causal, porém, podem-se inferir fatores predisponentes e/ou agravantes, como determinados grupos étnicos e culturais, e pela pobreza lingüística, referente à expressão verbal de sentimentos e emoções, o que representaria um significativo incentivo à utilização da linguagem corporal para expressar a subjetividade. Assim, segundo o autor, o transtorno de somatização ocorre inversamente proporcional à posição social, ocorrendo, freqüentemente, entre pessoas com baixa escolaridade, pobres e com situação profissional insatisfatória.

Tenham-se presente que:

Pacientes deprimidos dessas populações normalmente não se queixam de sentimentos de depressão. Predominantemente, apresentam queixas difusas e mutantes, tais como: dor de cabeça, fadiga, dores inespecíficas, tontura entre outras. Assim, os sintomas são comunicados por uma linguagem corporal e não psicológica. Pesquisa realizada

em Hong Kong, com 213 casos de depressão (142 mulheres e 71 homens) mostrou que os sintomas somáticos perfizeram 96% das queixas que levaram o paciente a consultar um especialista (HELMAN, 1994 apud PETERSEN, 2000, p. 102).Na atualidade, a maioria das escolas filosóficas considera que a saúde integral está diretamente relacionada à maneira de viver do indivíduo, indo de encontro aos interesses da sociedade moderna ocidental, que não prioriza uma maneira de viver harmoniosa, onde haja integração equivalente, imediata e constante entre corpo, mente e emoção. Preso ao tempo, desvinculado de qualquer raiz cultural sólida, invadido pela mídia, desiludido, vilipendiado pelas ideologias e pela política, e ainda sem ter como se dedicar a si mesmo, o ser humano ocidental vê, sem surpresa, que seu melhor espelho parece ser as lindas vitrines das inúmeras farmácias espalhadas pelos quatro cantos, onde ele pode fazer compras em um carrinho de supermercado (SANTOS, 2005).A doença é um modo do indivíduo transbordar o que se passa com ele, pois é uma forma de manifestar o seu modo de existir, de coexistir. Parafraseando Trindade (2007, p. 4), a doença “seria a expressão máxima da crise existencial do indivíduo, espelhando o seu modo de ser, de agir numa concretização de suas atitudes”.Conforme afirma Mandsley, citado por Trindade (2007, p. 4), “a mente não se limita a afetar o corpo, mas também participa de sua constituição… Por outro lado, não há uma só função orgânica no corpo que não participe da constituição da mente”.  6 DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS - “Se existem múltiplas enfermidades para as desarmonias do corpo, outras inúmeras há para os desvios da alma” (OLIVEIRA et al., 1996, p. 11).A civilização de consumo conseguiu modificar a experiência da dor, esvaziando do indivíduo suas reações pessoais e transformando essa sensação num problema de ordem puramente técnica (OLIVEIRA et al., 1996).É irrefutável que o limiar de tolerância da dor venha sofrendo profundas alterações e que a medicina moderna se torna cada vez mais cúmplice de uma assustadora dependência farmacológica e de uma industrialização pela empresa farmacêutica. Assim, a medicina industrial, para atuar mais prontamente, retira da dor qualquer contexto subjetivo (OLIVEIRA et al., 1996). Um desequilíbrio fisiológico, antigamente considerado como natural, é hoje coletivamente medicalizado pela oferta fácil dos que podem dispor de um remédio moderno e ativo. Michel Foucault afirma que, atualmente, a dor foi transformada em problema de economia política, em que o homem se coloca como “consumidor de anestesia”, à procura de tratamento, que o faz artificialmente insensível, abúlico e apático (OLIVEIRA et al., 1996).O próprio progresso social passou a ser sinônimo de ausência de sofrimento, em que a “comunidade-empresa” teria como alvo não o sentido de alcançar a felicidade, mas o de minimizar o sofrimento. A tendência será essa empresa fabricar um remédio para cada mal: para o tédio, para a tristeza e para a insatisfação, assim como criou medicamentos para a dor (OLIVEIRA et al., 1996).

Não se pode condenar a sociedade de agora, por estar dominada pela analgesia, mesmo que ela comece a perder sua fantasia, sua liberdade e sua consciência. Mas é desta maneira que ela foge da angústia e da solidão – dois monstros que ameaçam a existência humana. Assim, quando se descobre o padrão mental que está por detrás de cada doença, tem-se a oportunidade de modificá-lo e alcançar a cura (OLIVEIRA et al., 1996).

A Medicina moderna adquiriu uma enorme competência em eliminar a maioria dos sintomas das doenças e, neste sentido, dá uma falsa noção de cura. O grande problema é que o corpo não fica doente por si só. À luz do que foi dito, os procedimentos médicos convencionais são de enorme eficiência e baixíssima eficácia. Nesse sentido, as chamadas “Terapias Alternativas”, tais como: yôga, acupuntura, terapia floral, fitoterapia, musicoterapia, etc., seriam de grande valia, uma vez que consideram o ser humano como um todo, além de levarem em consideração a origem emocional de suas patologias (OLIVEIRA et al, 1996; SANTOS, 2005).

A esse respeito, Santos (2005) pondera que hospitais norte-americanos admitem que terapias energéticas, aliadas à psicoterapia, facilitam a cicatrização, diminuem o efeito emocional da dor e ajudam a restabelecer a auto-estima. Hospitais de Taiwan usam a musicoterapia do tempo do imperador Amarelo. A acupuntura é utilizada em larga escala, dentro e fora do Brasil, em substituição à anestesia, na redução do consumo de medicamentos alopáticos sintéticos. Os medicamentos para AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome) e doenças auto-imunes apontam para a fitoterapia com sucesso. Massoterapia facilita o fluxo sanguíneo, relaxa tensões e solta cargas emocionais. Terapia Floral, uma das muitas sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), afrouxa a memória celular, traz insights através dos sonhos, assim como a homeopatia, e pode ser utilizada, paralelamente, a tratamentos medicamentosos alopáticos.Quando se descobre novos métodos de curar sintomas e doenças antigas, novos tipos de microrganismos, bactérias e vírus surgem: a capacidade da natureza em criar novos males é infinitamente maior do que a capacidade da Medicina em lidar e suprimir os que já existem. Cura-se a sífilis e surge a AIDS. Elimina-se um microrganismo e surge uma super bactéria. Para Oliveira et al. (1996) e Santos (2005), tal fato de dá em função da doença ser, antes de mais nada, uma chamada de consciência, um grito da alma, um meio necessário, ao organismo, para se manter sadio.

De acordo com Silva (2005), as primeiras doenças rotuladas de psicossomáticas, e ainda hoje citadas como “doenças clássicas ou maiores”, incluem: a úlcera, a asma brônquica, a hipertensão arterial, a enxaqueca e a artrite reumatóide. Este universo logo se ampliou de tal forma que, já em 1976, Rees listava uma vasta relação do que chamou de “distúrbios psicossomáticos mais comuns” (Quadro 1). Por sua vez, Jhoor apud Haynal (1983) relacionou vários sintomas físicos resultantes da angústia, relatando as percentagens encontradas e estabelecendo as diferenças entre os sexos (Quadro 2).

Quadro 1 – Distúrbios Psicossomáticos Mais Comuns

1. Distúrbios respiratórios: asma, rinite, febre do feno.

2. Distúrbios do aparelho digestivo: úlceras, doenças do cólon. 3. Doenças da pele (praticamente todas).4. Doenças das articulações e musculares: artrite reumatóide, “fibrosite”.5. Distúrbios endócrinos: hipertireoidismo, diabetes.6. Doenças cardiovasculares: hipertensão arterial, doenças das artérias coronárias (angina, infarto), acidentes vasculares cerebrais e enxaquecas.7. Distúrbios do aparelho reprodutor feminino: ausência de menstruação ou menstruação escassa, cólicas menstruais, tensão pré-menstrual, perturbações da menopausa.

Fonte: Silva (2005, p. 126).

Quadro 2 – Seqüência de Sintomas Físicos que Acompanham a Angústia

SINTOMA

PERCENTAGEM
Sensação de mal-estar geral 61 71
Ansiedade 54 69
Dores de cabeça 68 66
Insônia 51 69
Atordoamento 53 61
Desmaios 55 48
Ondas de calor 48 55
Calafrios 30 49
Transpiração 71 73
Palpitações 62 65
Dores no peito 43 55
Tremores internos 20 35
Respiração curta, dificuldade de respirar 44 62
Excesso de saliva 13 16
Boca seca 24 23
Dores no estômago 51 53
Náuseas 21 46
Vômitos 23 43
Diarréia 24 33
Constipação 23 41
Lombalgia 33 46
Distúrbios urinários 42 61

Fonte: Silva (2005, p. 127).

A observação dos dois quadros deixa claro que a amplitude do universo dos distúrbios psicossomáticos passou a abranger doenças em todos os órgãos, ratificando a idéia de que, por ser o homem um todo psicossomático, todas as doenças são psicossomáticas (BARROS, 1995; SILVA, 2005; PERESTELLO, 1996).

Tradicionalmente, as pesquisas na medicina psicossomática têm-se localizado sobre doenças como asma, hipertensão (alta pressão sangüínea), úlcera, colite e artrite reumatóide […]. Os pesquisadores observaram os relacionamentos entre doenças específicas e atitudes características ou modos de lidar com eventos estressantes da vida. Por exemplo, indivíduos com hipertensão sentiam, conforme relatos, que a vida era ameaçadora e, conseqüentemente, deviam acautelar-se em todos os momentos. Aqueles que sofriam de colite supostamente estavam irritados, mas não podiam expressar sua raiva (ATKINSON et al., 1995, p. 468).

As relações entre a teoria psicanalítica e as manifestações da patologia somática, especificamente aquelas comprometidas com o rótulo de sintoma, doença ou distúrbio psicossomático, tornaram-se, nos dias atuais, amplas e polêmicas (EKSTERMAN, 1994), conforme cita Atkinson et al. (1995, p. 468):

Hoje, o foco das pesquisas psicossomáticas é muito mais amplo, e o termo ‘medicina psicossomática’ está sendo substituído por medicina comportamental. A medicina comportamental é uma área interdisciplinar que atrai especialistas da psicologia e medicina. Ela tenta aprender como as variáveis sociais, psicológicas e biológicas combinam-se para causar a doença, e como o comportamento e o ambiente podem ser mudados para a promoção da saúde.

Campos et al. (2003, p. 105) citam que: As doenças psicossomáticas são consideradas como um continente obscuro tanto na clínica médica quanto na psicanalítica. Com etiologias deveras incertas, invadem o corpo do indivíduo e dilaceram-lhe os órgãos, acrescentando um prognóstico muitas vezes sombrio. Diferem-se das conversões, entre outros aspectos, por sua menor probabilidade de remissão espontânea. Os sintomas conversivos, diante de um processo interpretativo apropriado, tendem a reverter rapidamente a alteração corporal, enquanto que o fenômeno psicossomático não desaparece com tamanha agilidade, sendo comum que alternem aparecimento e desaparecimento.

Decorridas tais assertivas, faz-se necessário apontar para algumas doenças psicossomáticas de extrema relevância, uma vez que assolam, gravemente, grande parte da população mundial, quais sejam estas: o estresse, a depressão e o câncer.

6.1 ESTRESSE

Na luta entre o estresse e os mecanismos de adaptação é que se desenvolve toda a saga do sofrimento humano (MOREIRA, 2008).A noção de estresse desfruta de considerável difusão em variados contextos: no chamado “senso comum”, aparece, com freqüência, nos meios de comunicação de massa; no jargão de diversas práticas terapêuticas médicas, psicológicas, fisioterápicas (tanto “convencionais” como “alternativas”); no campo das pesquisas fisiológicas (biomédicas ou não) e epidemiológicas. Nesse nível, a teoria do estresse se constitui em um dos referenciais explicativos para abordar o processo saúde–doença (ALMEIDA FILHO, 1989 apud CASTIEL, 1993).

Chrousos e Gold (1993) definem estresse como um estado de desarmonia ou de homeostase ameaçada.

Ao observar a significação original no idioma inglês, percebe–se que o substantivo stress (proveniente da física e da mecânica) já encerra ambigüidades (que permanecem na conceituação biológica). Segundo o verbete citado no dicionário por Aurélio Ferreira (1986, p. 728), tem-se: “conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase; estricção”. Verifica-se, deste modo, uma dubiedade que cria uma possibilidade inicial de confusão: o mesmo termo se refere tanto à causa como ao efeito (CASTIEL, 1993).

Derivada da palavra inglesa estresse, o termo era originalmente empregado em física, no sentido de traduzir o grau de deformidade sofrida por um material quando submetido por um esforço, ou tensão. Em 1936, Hans Selye introduziu a expressão no jargão médico e biológico, expressando o esforço de adaptação dos mamíferos para enfrentar situações que o organismo perceba como ameaçadoras à sua vida e ao seu equilíbrio interior (SILVA, 2005, p. 43).

Segundo Castiel (1993), foi Selye (1936) quem construiu o arcabouço da teoria do estresse em sua postulação da “síndrome geral de adaptação”, concebida a partir de experimentos com animais. Sucintamente, compõem–se de três fases, quais sejam estas: 1)     Alarme – com dois estágios; choque, que corresponde às reações descritas por Cannon (resposta adrenérgica); e contrachoque, com aumento da atividade do córtex da supra–renal; 2)     Resistência – fase de compensação, durante a qual pode haver regressão dos fenômenos descritos, mas permanecendo a hiperatividade córtico–supra–renal, resultante de estimulação hipofisária; 3)     Esgotamento – resultado da falha desses mecanismos adaptativos a estímulos recorrentes e excessivos. As alterações características da fase de alarme retornam, mas com diminuição da amplitude e antecipação das respostas, com possibilidade de levar até à morte. Seguidores de Selye ampliaram a idéia do estresse físico original, para o domínio psicológico, ao estudar os efeitos da expectativa de situações nas quais haveria exigências de desempenho ou ameaça à integridade física (reais ou imaginárias).Mais recentemente, passou–se a empregar a noção de “estresse social”, relacionada às vicissitudes próprias das grandes metrópoles modernas: exposição a ruído, aglomerações, isolamento, trabalho entediante e/ou insatisfatório, e medo de agressões e assaltos, que se constituiriam em fatores responsáveis pelo adoecimento, especialmente na esfera cardiovascular (MOREIRA; MELLO FILHO, 1992 apud CASTIEL, 1993).

Segundo a Psicofisiologia, a emoção estaria vinculada ao domínio das manifestações viscerais, endócrinas e metabólicas. Eventualmente, podem ser inclusos comportamentos motores (luta ou fuga). O terreno da emoção está relacionado à musculatura lisa. A emotividade aponta para um modo singular de reação que certos indivíduos manifestam diante de determinados estímulos. Para a teoria do estresse, importa o efeito global (DEJOURS, 1988 apud CASTIEL, 1993). A emoção está, principalmente, relacionada aos campos das normatividades orgânico–funcional (fisiológica) e social, na medida em que a expressão corporal das emoções está ligada aos modelos de aprendizagem inerentes a cada cultura (JEAMMET; REYNAUD; CONSOLIS, 1989 apud CASTIEL, 1993). Mas a emotividade se refere, primordialmente, ao terreno da normatividade íntima, própria a cada indivíduo, que desenvolve um modo particular de apreender o real no mundo das representações simbólicas (BENOIT, 1989 apud CASTIEL, 1993).

As tentativas para a adaptação à presença contínua de um fator de estresse podem esgotar os recursos do corpo e torná-lo mais vulnerável à doença. O estresse crônico pode levar a transtornos físicos tais como úlceras, alta pressão sangüínea e doença cardíaca. Ele também pode prejudicar o sistema imunológico, diminuindo a capacidade do organismo para combater as bactérias e vírus invasores. Na verdade, os médicos estimam que o estresse emocional exerce um importante papel em mais da metade de todos os problemas médicos (ATKINSON et al., 1995, p. 467).

Como se observa, o quadro a seguir apresenta as principais conseqüências fisiológicas do estresse:Quadro 3 – Conseqüências Fisiológicas do Estresse

  Efeitos imediatos Efeitos em longo prazo
 Liberação de adrenalina e noradrenalina das supra-renais na corrente sangüínea   Acelera os reflexos aumentando o ritmo de batimentos cardíacos, e a pressão sangüínea elevando os níveis de açúcar no sangue e o metabolismo corporal Distúrbios cardiovasculares como moléstias do coração e derrames; problemas renais devido à hipertensão arterial; oscilações nos níveis de açúcar no sangue, agravando assim o diabetes e a hipoglicemia
Liberação de hormônios tireoidianos da glândula tireóide na corrente sangüínea  Acelera ainda mais o metabolismo corporal Exaustão, a perda de peso e, por fim, ao esgotamento físico
Liberação de colesterol do fígado na corrente sangüínea Aumenta ainda mais os níveis de energia Elevação do risco de arteriosclerose
 Obstrução do sistema digestivo O sangue é desviado do estômago para os pulmões e músculos; a boca fica seca, para que o estômago não tenha nem mesmo que digerir a saliva  Problemas estomacais e perturbações digestivas
 Reação cutânea O sangue e desviado da superfície da pele para outras partes: palidez, suor Perturba a temperatura natural do corpo
Dilatação das passagens de ar nos pulmões Promove um ritmo mais rápido de respiração Cegueiras temporárias e alterar os batimentos cardíacos
Liberam endorfinas do hipotálamo na corrente sangüínea Anestésicos naturais; reduzem sensibilidade a ferimentos e contusões Mais sensíveis a dores rotineiras
Liberam cortisona das supra-renais na corrente sangüínea Interrompe as reações alérgicas que poderiam interferir com a respiração Reduz as reações imunológicas; aumentar o risco de úlceras pépticas
Os sentidos ficam mais aguçados e melhora o desempenho mental Melhor funcionamento das atividades mentais Diminuição ativa das respostas sensoriais e mentais
É reduzida a produção de hormônios sexuais Evita o desvio de energia ou da atenção para o estímulo sexual Impotência, frigidez, esterilidade e outros problemas sexuais.
Os vasos sangüíneos contraem-se e o sangue fica mais espesso  Flui mais devagar e se coagula mais depressa em caso de ferimentos Formação de coágulos, elevando assim o risco de moléstias cardíacas e derrames

Fonte: Psicopatologia (2008, p. 01).

O excesso de excitação, causado pelos fatores de estresse crônico, pode contribuir para a doença cardíaca coronariana (DCC) e prejudicar o sistema imunológico, afetando a suscetibilidade a doenças infecciosas, alergias, cânceres e transtornos auto-imunes, como a artrite reumatóide (ATKINSON et al., 1995). É o que aponta Reis (2005), ao mencionar que, na base do conhecimento das relações entre o estresse e as doenças cardiovasculares, hoje já é possível falar em competência emocional.

Barasch (1997, p. 103) observa que mecanismos semelhantes parecem produzir tanto o câncer quanto as doenças cardíacas: “estresse crônico, um tipo de personalidade predisposta e hiperativação do sistema nervoso, endócrino, imunológico, coagulante e fibrinolítico”.  Segundo o autor, o estresse prolongado cria coagulação excessiva do sangue, que pode levar a ataques cardíacos e derrames. Esta mesma coagulação pode também criar “casulos de fibrina”, capazes de isolar a metástase do câncer contra as células T e outros defensores do organismo.

O cortisol, hormônio do estresse, que figura tanto no câncer (debilitando o sistema imunológico) quanto nas doenças cardíacas (aumentando a produção de adrenalina), foi também associado à depressão e sentimentos de desespero e desamparo (BARASH, 1997).

“À percepção dessa ameaça, o cérebro emitiria ordens para a mobilização de defesas e o sistema simpático seria ativado, com conseqüente descarga de catecolaminas no sangue” (SILVA, 2005, p. 44). Com a repetição desse mecanismo ao longo da vida, Silva (2005) aponta que a pessoa acaba por adquirir gastrite, úlcera, mau funcionamento do intestino, hipertensão e infarto do miocárdio. Conforme cita Atkinson el al. (1995), uma úlcera péptica, causada pelo estresse, é indiferenciável de uma úlcera causada por um fator não ligado ao estresse, tal como uso maciço de aspirina em longo prazo.

“Ao contrário do que ocorre com os animais, portanto, o que hoje nos ameaça a vida e a saúde não são, como regra, os perigos que vêm de fora, e sim aqueles que trazemos dentro de nós mesmos” (SILVA, 2005, p. 49).

6.2 DEPRESSÃO

“A depressão é a mais caracteristicamente humana das doenças” (SILVA, 2005, p. 158).

A palavra depressão, no seu uso habitual, pode significar tanto um estado afetivo normal, quanto um sintoma, uma síndrome e uma (ou várias) doença(s). Freqüentemente, é associada a reações normais diante de determinados sofrimentos e sentimentos de perda. Como síndrome ou doença, a depressão inclui alterações de humor, cognitivas, psicomotoras e vegetativas. Em face de sua alta prevalência e custos sociais, nos dias atuais, trata-se de um importante problema para a saúde pública (CRUZ et al., 2005).De acordo com a Organização Mundial da Saúde, diversos fatores podem implicar transtornos mentais, sendo alguns dos principais: pobreza, sexo, idade, conflitos e desastres, a maioria das doenças físicas e o ambiente familiar e social (SANTOS, M.; KASSOUF, 2007).

A parcela da população que, em todo mundo, é vitimada pela depressão em alguma época da vida é quase tão grande quanto a que é atingida pela ansiedade: pode chegar a 20%, na dependência do maior ou menor grau de rigor que se empregue no diagnóstico. Dados recentes estimam que um em cada dez adultos no mundo sofre de depressão, em um dado momento (SILVA, 2005, p. 159).

A depressão é uma doença muito prevalente e incapacitante, com grande impacto a nível individual e social. A prevalência para um episódio depressivo, ao longo da vida, é de 15%, e de 23% para sintomas depressivos menores, na população em geral (CARDOSO et al., 2008).

Instalada a depressão, sua menor ou maior duração, e até sua gravidade e conseqüências nocivas para a pessoa, dependerão de três fatores, quais sejam estes: o biológico (de origem genética), a coesão do eu, e a capacidade de elaboração (ambos no sentido de ‘trabalhar’ o sofrimento). ‘A dor tem que ser ‘sentida’ e esgotada, além de assumida, pois só assim será vencida e amadurecerá a pessoa’. Assim, a depressão não resolvida pode resultar em doença orgânica, em suicídio, ou persistir, implicando graus variáveis de incapacitação do indivíduo, mas acarretando sempre um comprometimento de sua alegria de viver (SILVA, 2005, p. 164).

Um estudo realizado por Santos M. e Kassouf (2007), a respeito dos determinantes socioeconômicos da depressão no Brasil, revelou os seguintes aspectos:a)     Sua incidência é maior entre as mulheres, confirmando que o efeito das variáveis consideradas depende fortemente do sexo do indivíduo;b)     Quanto aos aspectos familiares, a solidão é supostamente um fator de risco, dado que o porcentual de homens e mulheres que moram sozinhos é significativamente maior entre indivíduos que têm depressão;c)      O casamento se mostra como fator de proteção à depressão para os homens, mas não para as mulheres. Ser chefe de família também reduz o risco de ter depressão entre os homens, mas aumenta no caso das mulheres;d)     A renda familiar mensal per capita mostra-se como um fator de proteção à depressão, tanto para os homens quanto para as mulheres. Entretanto, ela é maior entre os homens com depressão, se comparados aos não-depressivos;e)     Há uma forte relação positiva entre doenças físicas crônicas e depressão, fornecendo evidências empíricas que corroboram a conclusão do estudo da OMS, de que, em boa parte, doenças mentais decorrem de algum tipo de doença física crônica;f)        Efeitos regionais e de raça influenciam a probabilidade de um indivíduo, de ambos os sexos, apresentar sintomas de depressão;g)     O efeito da educação sobre a depressão depende do nível de escolaridade alcançado pelo indivíduo, de modo que níveis mais elevados de educação reduzem o risco do indivíduo desenvolver a depressão.“O crescente aumento da prevalência da depressão – particularmente no mundo ocidental – faz dela, ao lado da AIDS, a ‘doença do fim do século’”, porém faz-se necessário não confundir estados passageiros de melancolia com a verdadeira depressão (SILVA, 2005, p. 129).

A dor de cabeça, pescoço e costas são apontadas, por Petersen (2000), como sendo as queixas mais comuns em um indivíduo depressivo, possuindo um significado simbólico especial para o paciente, que também apresenta o masoquismo, como traço central.

Conforme mostra o quadro a seguir (Quadro 4), os principais sintomas psíquicos da depressão podem ser agrupados em três grupos, de acordo com Silva (2005), quais sejam estes: as alterações do humor, a lentificação das ações/reações psíquicas e de movimentação, e os sintomas físicos propriamente ditos.

No primeiro grupo, do humor, sobressai a tristeza, com profundos sentimentos de desvalorização de si mesmo, acompanhados ou não de sentimentos de culpa, e tendo o suicídio como risco.

O segundo grupo, o da lentificação psicomotora, se caracteriza por um amortecimento generalizado das atitudes, na incapacidade de raciocínio, na inibição afetiva, no andar, na gesticulação, etc.

Quadro 4 – Principais Sintomas Psíquicos da Depressão

Distúrbios do humor

    - sentimento de infelicidade e tristeza    - desesperança, impotênciaDistúrbios do pensamento    - pessimismo, falta de entusiasmo    - idéias de culpa    - difamação de si mesmo    - perda de interesse e motivação    - baixa da eficácia intelectual e da capacidade de concentração e entendimentoDistúrbios do comportamento    - aspecto neglicenciado    - lentidão dos gestos e movimentos    - agitação    - mímica exprimindo tristeza    - aspecto fixo na face    - irritabilidade fácilAnsiedadeComportamento suicida (idéia e tentativas)

Fonte: Silva (2005, p. 167).

Finalmente, com relação às alterações físicas ou somáticas, o quadro 5 relaciona os principais distúrbios orgânicos referidos pelos pacientes deprimidos. Três, no entanto, sãos os mais significativos: distúrbios do sono, falta de apetite e mau funcionamento do intestino, particularmente a constipação intestinal.

Quadro 5 – Principais Sintomas Orgânicos da Depressão

Insônia

Dor de cabeçaPerda de apetiteConstipação intestinal ou diarréiaNáuseasSensação de opressão no peitoSensação de “bolo” na gargantaDificuldade de respirar; sensação de falta de arDor no peitoSensação de “falhas” no coraçãoDores nas costasPerda/redução do apetite sexual

Fonte: Silva (2005, p. 168).Cardoso et al. (2008) verifica a presença da depressão em cerca de um quinto dos doentes com insuficiência cardíaca (IC), bem como a presença de sintomas depressivos com expressão clínica, em até cerca de metade do total dos pacientes com IC. Tal fato parece estar ligado aos aspectos psicológicos de uma doença cardíaca grave e incapacitante, e a mecanismos fisiopatológicos e psicossociais.

Para classificar a depressão, é importante, observar a intensidade dos sintomas. A caracterização desse distúrbio psíquico se dá pela ocorrência de, pelo menos, cinco deles num prazo mínimo de duas semanas: ansiedade, diminuição da libido, dificuldade de concentração, fadiga constante, sensação de desânimo, inquietação e irritabilidade, perda ou excesso de apetite, insônia ou sonolência excessiva, tristeza persistente, perda de interesse por atividades prazerosas, sentimentos de culpa, auto-desvalorização e pessimismo, idéias de morte ou de suicídio, e ainda dores de cabeça ou distúrbios digestivos que não respondem a tratamento. Sintomas isolados, ou mesmo conjuntos de sintomas devem ser examinados cuidadosamente para se evitar a realização de diagnósticos imprecisos ou questionáveis. Existem casos de dores crônicas, em que o paciente, após inúmeros exames que se mostram normais, melhora com tratamento antidepressivo adequado (CORDÁS, 2008).

6.2.1 Depressão Pós-Parto

Estudos epidemiológicos, nos Estados Unidos, estimam a prevalência de depressão, para o tempo de vida, em 17,1% da população geral, sendo que o problema atinge, principalmente, as mulheres. Isto posto, estima-se que o risco de desenvolver depressão, ao longo da vida, seja de 10% para os homens e de 20% para as mulheres (CRUZ et al., 2005).Dentre os transtornos depressivos sofridos por mulheres está a depressão puerperal (DP), ou depressão pós-parto (DPP).O puerpério se caracteriza por se apresentar como uma fase de profundas alterações no âmbito social, psicológico e físico da mulher. De acordo com Maldonado (1997 apud SILVA, E.; BOTTI, 2005), este é um período que se inicia após o parto, com duração de, aproximadamente, três meses. No caso de mulheres primíparas, esta fase pode estender-se, uma vez que a inexperiência, associada aos sentimentos de ansiedade, medo, esperança, entre outros, se somatizam e produzem um quadro de instabilidade ainda maior do que o natural. O desenvolvimento deste processo transitório está interligado diretamente às reações apresentadas diante dos fatos, ou seja, a compreensão e a passagem não só da mulher, mas da família como um todo, pelo puerpério, será o limiar entre a saúde e a doença.A DPP é um importante problema de saúde pública, afetando tanto a saúde da mãe quanto o desenvolvimento de seu filho. A manifestação desse quadro acontece, na maioria dos casos, a partir das primeiras quatro semanas após o parto, alcançando, habitualmente, sua intensidade máxima nos seis primeiros meses. Os sintomas mais comuns são: desânimo persistente, sentimentos de culpa, mudança significativa de peso ou do apetite, insônia ou sono excessivo, fadiga, agitação ou retardo psicomotor, sentimentos de desvalia ou culpa, perda de concentração, idéias de morte ou suicídio, temor de machucar o filho, diminuição da libido, redução do nível de funcionamento mental e presença de idéias obsessivas ou supervalorizadas (CRUZ et al., 2005; MORAES et al., 2006).No período pós-parto, a sintomatologia depressiva não difere qualitativamente da que ocorre em outras fases da vida, podendo ser diagnosticada e tratada adequadamente em nível primário de atenção à saúde. Contudo, menos de 25% das puérperas acometidas têm acesso ao tratamento, e somente 50% dos casos de depressão pós-parto são diagnosticados na clínica diária (RUSCHI et al., 2007).Trabalhos nacionais relatam a prevalência de depressão pós-parto, variando entre 12 e 19%, sendo compatíveis aos dados da literatura internacional, que a referem como 10 a 20% (MORAES et al., 2006; RUSCHI et al., 2007).O estudo de Moraes et al. (2006), realizado nas cinco maternidades do município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, relacionou os maiores índices de prevalência de DPP a um leque de fatores, quais sejam estes: menor escolaridade e baixo nível sócio-econômico; baixo suporte social; história de doença psiquiátrica; depressão pré-natal; baixa auto-estima; ansiedade pré-natal; estresse; gravidez não desejada; tentativa de aborto; transtorno disfórico pré-menstrual; e sentimentos negativos em relação à criança.Todos os transtornos psiquiátricos puerperais são também alterações de humor e, assim, podem refletir, no quadro clínico, uma amplitude de sintomas que, em sua maioria, não são tão específicos daquela fase. A chave para um diagnóstico seguro é o reconhecimento da instalação dos sintomas e de seu desenvolvimento, considerando o início no primeiro ano após o parto (KAPLAN et al. 1999 apud SILVA, E.; BOTTI, 2005). Perlustrando as boas idéias, o Quadro 6 traz um diferencial sinóptico dos distúrbios psiquiátricos puerperais.As taxas de prevalência das síndromes psiquiátricas puerperais corroboram a importância de se conhecer e diagnosticar, precocemente, tais transtornos na assistência à saúde da mulher. A tristeza materna é um transtorno autolimitado, com início nas duas primeiras semanas pós-parto, com incidência de 50 a 80%, sendo considerada fator de risco para depressão no primeiro ano após o parto. Ao contrário, a psicose pós-parto é relativamente rara, com incidência de 0,1 a 0,2%, e ocorre, tipicamente, dentro das quatro primeiras semanas após o parto, constituindo-se em emergência médica (RUSCHI et al., 2007; ZANOTTI et al., 2003 apud SILVA, E.; BOTTI, 2005).Quadro 6 – Diferencial Sinóptico dos Distúrbios Psiquiátricos Puerperais

TRISTEZA PUERPERAL DEPRESSÃO PUERPERAL PSICOSE PUERPERAL
CONCEITO Distúrbio psíquico leve e transitório Transtorno psíquico de moderado a severo com início insidioso Distúrbio de humor psicótico, apresentando perturbações mentais graves
PREVALÊNCIA 50% a 80% 10% a 15% 0,1% a 0,2%
MANIFESTAÇÃO Inicia-se no 3º até o 4º dia do puerpério Início insidioso na 2ª a 3ª semana do puerpério Início abrupto nas duas ou três semanas após o parto
SINTOMAS Choro, flutuação de humor, irritabilidade, fadiga, tristeza, insônia, dificuldade de concentração, ansiedade relacionada ao bebê Tristeza, choro fácil, desalento, abatimento, labilidade, anorexia, náuseas, distúrbios de sono, insônia inicial e pesadelo, idéias suicidas, perda do interesse sexual Confusão mental, agitação psicomotora, angústia, insônia, evoluindo para formas maníacas, melancólicas ou até mesmo catatônicas
CURSO E PROGNÓSTICO Remissão espontânea de uma semana a dez dias Desenvolve-se lentamente em semanas ou meses, atingindo, assim, um limiar; o prognóstico está intimamente ligado ao diagnóstico precoce e intervenções adequadas Pode evoluir mais tarde para uma depressão. O prognóstico depende da identificação precoce e intervenções no quadro
TRATAMENTO Psicoterapia enfatizando a educação e o equilíbrio emocional da puérpera Psicoterapia, farmacologia, e eletroconvulsoterapia (casos especiais) Psicoterapia, farmacologia, eletroconvulsoterapia e internação (casos especiais)

Fonte: Zanotti et al. (2003); Rocha (1999); Kaplan et al. ( 1999) apud Silva E.; Botti (2005, p. 234). 

6.2.2 Câncer e Depressão

“Há mais de cinqüenta anos, os médicos já comentavam a importância do estado psíquico das pessoas na eclosão das neoplasias, tornando-as susceptíveis às transformações malignas” (MELO FILHO, 1988 apud SILVA, 2005, p. 172).

O neuropsiquiatra David Servan-Schreiber acredita que o estresse emocional pode contribuir para o surgimento de um câncer, mas não causá-lo

em si. Um quadro depressivo, muitas vezes, mina o batalhão de defesa do corpo (OLIVEIRA, 2008).

Como se sabe, o câncer nada mais é do que a reprodução, desordenada e anormal, de um dado tipo de célula no organismo. De acordo com Silva (2005), a opinião corrente é a de que, em estados de depressão, o organismo perderia a capacidade de reconhecer e combater as células malignas, as quais se reproduziriam livremente. Além disso, a contração da musculatura lisa, em situações de estresse, contribuiria para a disseminação das células cancerosas.

A relação entre a eclosão do câncer e situações de perdas, que levam à depressão, pode ser verificada, por exemplo, no trabalho de Schmale e Iker (apud SILVA, 2005). Neste estudo, avaliou-se um grupo de quarenta mulheres, sem sintomas, mas com teste de Papanicolau denotando predisposição para o câncer. Através de entrevistas e testes de personalidade, tentaram prever que o câncer de útero iria se desenvolver naquelas em que detectaram fortes sentimentos de desesperança ao longo da vida e/ou como reação a perdas recentes e significativas. Acertaram em cerca de 75% dos casos.

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