Kuan Yin, Iemanjá ou Nossa Senhora da Conceição?

ky-002.JPGOs chineses tinham dificuldade de seguir a rigidez do budismo tibetano/indiano devido aos inúmeros rituais, à codificação das imagens (animais e humanos com várias cabeças e braços) e especialmente por causa da tradição masculina/machista das divindades. Outro ponto central nisso é que a grande maioria da população era analfabeta, com dificuldade de compreensão de textos mais elaborados e conhecimentos mais elevados — que indianos e tibetanos já tinham, embora a escrita no Tibete estivesse mais relacionada aos templos do que ao povão. A diferença é que a população tibetana era mais chegada aos tempos e com isso tinha mais acesso aos ensinamentos. A China lutava pela sobrevivência. Havia muitas guerras entre as tribos e a nobreza era azeda, mantinha-se fechada nos palácios — como hoje tende a ser alguns dirigentes daquela enorme país.

Já no século VIII os chineses taoístas cultuavam a Rainha-Mãe do Oeste, a Grande Mãe, que se materializa de acordo com a crença de quem a invocava – em forma de animal ou de humano, de homem ou de mulher.

No século XVI, Kuan Yin apareceu na China como Avalokitesvara (ou Avalokita) ou Chenresigs para os tibetanos, que teve 337 encarnações na Terra, segundo o mais antigo e sagrado documento budista chamado Lotus Sutra, que está neste site traduzido.

A mesma imagem era reverenciada como Tara pelos mongóis e tibetanos — Tara são emanações de Kuan Yin na forma tibetana. Já no século XVIII houve, na China, a fusão entre Avalokita, Tara, Rainha-Mãe do Oeste e Kuan Yin, seguindo uma tendência de simplificação da cultura chinesa por causa da ignorância do povo, embora cada entendidade tenha uma conotação diferente — e que o povão tinha dificuldade de separar. No Japão a energia desse ser de compaixão e perdão se apresenta na forma masculina de Kannon, embora haja templos onde ela se expressa com a forma feminina de Kuan Yin.

Para os brasileiros católicos, espíritas e umbandistas não há diferença entre essa fusão de Kuan Yin e as diversas manifestações de Nossa Senhora, que de Aparecida a Iemanjá não há limites — mas também cai naquela simplificação por dificuldade de entendimento. Isso também é comum do sudoeste asiático, parte da Indonésia, Malásia, etc.

Por que os nativos chineses confundiram a imagem de Maria com Kuan Yin? Historiadores orientais dizem que exploradores ocidentais, especialmente europeus católicos tentaram trazer o culto a Kuan Yin para Maria, como se fossem a mesma entidade e para expandir o catolicismo na região. Essa tentativa fracassou, porque o povo chinês sempre foi meio anti-estrangeirismos e também porque Kuan Yin, quando invocada por mulheres com dificuldade de engravidar, já aparecia com uma criança no braço para alimentar a fé e responder aos pedidos. Pude ver, em 1999, na ilha de Java, Indonésia, uma comunidade que cultua a Rainha do Mar, com as mesmas características de Kuan Yin mais próxima da Iemanjá brasileira. Vale acrescentar que essa ilha se encontra na rota marítima que os portugueses utilizaram na época dos descobrimentos e da expanção do império português. Nesses navios, a mão-de-obra era africana, escrava, que não esquecia os seus deuses. A história oficial não registra o que se passou entre encravos devotos da Rainha do Mar africana e locais asiáticos devotos de uma Deus da Mar chamada Kuan Yin Pu Sa. No mar ela aparece como sereia ou sob as ondas como Iemanjá. Em terra, o visual é de Nossa Senhora da Conceição.  Seja lá que forma tem, o ser humana sempre foi protegido pela Grande Mãe, que certamente se serviu de quem estava mais próximo para ajudar. Salve todas elas! Eu cultivo elas todas.

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