Experimentam vacina contra o vício da cocaína
22/05/2007 at 01:34 (Psicanálise e Psicologia)
Sem identificar o hospital espanhol, a agência de notícias EFE publicou dia 08 de maio passado notícia segundo a qual o serviço de psiquiatria do hospital estaria iniciando um projeto de vacinação de 50 pacientes viciados em cocaína com a “vacina contra o vício de cocaína”. Os pacientes, que seriam de Barcelona, Madri e Valência, teriam entre 18 e 50 anos e entre os selecionados não poderia existir pacientes com “outras enfermidades físicas ou transtornos mentais” – porque a cocaína os potencializa. A notícia não deu detalhes técnicos da vacina e nem mencionou se estaria sendo posto em prática o princípio homeopático. Se por acaso existe noticiário eletrônico no além, quem deve ter estremecido com essa notícia foi o pai da psicanálise, o Dr. Sigmund Freud, introdutor da pesquisa com a cocaína para tratamentos psiquiátricos na Europa por volta de 1884. Ele pensava estar no caminho certo para altas descobertas com o que na época era chamado de “pouco conhecido alcalóide cocaína”, extraído de folhas cultivadas por índios latino-americanos, especialmente do Peru (na época). O carro-chefe da propaganda da coca, já no século 19, era que os índios peruanos mascavam a folha contra a fome e o cansaço.
Freud era ambicioso e queria estar no time de frente da Europa de sua época, segundo Ernest Jones, autor de The Life and Work of Sigmund Freud, página 52. Assim que começou a recomendar a cocaína aos pacientes, a qual comprava a peso de ouro já naquela época a distribuidores europeus (que não eram chamados de traficantes), e chegou a pensar que o pó lhe daria fama, dinheiro e prestígio porque imaginava estar no caminho para substituir a morfina no tratamento da dor fisiológica. Nas cartas que escreveu a amigos, chegou a mencionar que tinha “um novo e esperançoso projeto terapeutico”. Confessa que indicou o pó para vários clientes, mas em doses muito pequenas e no estilo médico porque ele não vislumbrava a possibilidade da droga ser utilizada para outros fins, nem também achava que ela poderia viciar alguém – o que hoje sabemos ser esse um dos sintomas dos viciados: perdem a capacidade de raciocionar com clareza; confiam na eurofia que a droga produz no início; não percebem que o corpo vai precisar de maior quantidade na medida que o tempo passa; acham que não viciam; e que podem parar de usar a qualquer momento – os danos só são percebidos muito depois da primeira dose e as vezes nunca serão. A pessoa pode começar a adoecer, ir ao médico, tomar remédios ocultando o vício, e os problemas fisiológicos despencam um atrás de outro.
Apesar da recomendação contrária de amigos mais próximos, médicos, inclusive advertindo sobre as implicações públicas que suas teses poderiam gerar, Freud publicou alguns artigos defendendo o uso terapeutico da cocaína em prestigiados jornais da época, entre eles Heitler’s Centralblatt fur die gesammte Therapie – da Bélgica. Agora já atraía colegas curiosos e dispostos a participar da pesquisa, com os quais viria a romper amizades pela disputa da liderança das pesquisas, que Freud queria só para ele. Há um episódio citado no livro acima, segundo o qual Freud e amigos teriam combinado de publicar simultaneamente alguns resultados dos estudos da droga mas os amigos “se esqueceram” do combinado, publicaram sozinhos e juraram de pés juntos que não haviam combinado nada. Freud foi incapaz de perceber que esse “esquecimento” já fazia parte dos efeitos colaterais da droga nos colegas viciados. Ele também foi incapaz de perceber que “a droga mágica”, como a chamava, o havia pego pelo pé. Reclamava que a sua namorada estava gerando despesas com o uso da droga mas não admitia que ela já estava viciada. Nesse período, a bibliografia não é clara e as cartas são mais confusas ainda sobre a possível paixão de Freud por um ou outro amigo que parecia mais interessante que a namorada viciada.
“Tomo doses muito pequenas regularmente contra depressão e indigestão, com brilhante sucesso. Espero que ache um jeito de acabar com os vômitos”, registrou Freud em cartas. Nos circulos sociais da classe médica rondava um zum-zum sobre as pesquisas do Dr. Freud e já as apelidavam de “delírios de Freud”. O pai da psicanálise reagia com muita raiva a comentários e fofocas até que um paciente morreu de overdose e um amigo, Keller, também médico, imigrou para os Estados Unidos já viciado e aqui foi reconhecido como portador de distúrbios da personalidade, outro efeito colateral da droga que o Dr. Freud não chegou a imaginar que ocorreria aos viciados – uma das suas fotos mais famosas ele exibe um enorme charuto, que também naquela época ninguém achava, nem ele, que o fumo era nocivo à saúde mas, sim, símbolo de status e de masculinidade.
Acuado por todos os lados e depois de observar que alguns pacientes entravam em convulsão, tinham severas insônias, perdiam o controle sobre os próprios distúrbios emocionais depois de intoxicados (viciados), viam cobras nas paredes sob o efeito da droga, Freud tentou baixar um pouco a bandeira do pau mas era tarde: a sua reputação de médico já estava abalada seriamente. Ele já suspeitava, mas como viciado era incapaz de ir mais à frente, que a cocaína injetada parava a dor mas não funcionava como um substituto para a morfina, o corpo pedia sempre uma dose maior, tinha efeitos colaterais que ele ainda não compreendia, que a superdose matava e, acima de tudo, viciava. O que mais lhe intrigava era o fato de que alguns usuários da droga não demonstravam claramente os efeitos colaterais, inclusive ele, enquanto que outros era logo visível o efeito mórbido. Tecnicamente Freud cometeu o grave erro de pensar que a cocaína só viciaria aqueles que a injetam pela veia. Também estava longe dele perceber os danos que a droga causa às funções cerebrais como um todo. Naquela época ainda não se sabia que cada um tem uma genética diferente e reage diferentemente a estímulos iguais. As questões do DNA e da memória celular ainda não apareciam nem psicografadas. Ele pensava que se administrasse nos pacientes apenas 0.03 a 0.05 gramas por dose funcionaria como medicamento mas não sabia que o corpo absorve essa dose rapidamente e passa a exigir doses maiores a cada dia, ao ponto do usuário perder o controle e caminhar para as superdoses capazes de impedir o funcionamento normal dos órgãos internos como fígado, baço, pâncreas, coração, sistema linfático como um todo e até do sistema digestivo. Quando o viciado atinge essa etapa começa a ter tremura nas mãos, necessita de outras drogas adicionais, quer misturar cocaíca com outras coisas mais excitantes, tem dores pelo corpo, tem cansaço, começa o processo de perder ereção e toda a bagagem emocional não-trabalhada sadiamente despenca. Tem ataques estéricos com pequenas coisas e todas as fraquezas do seu sistema físico vêm à tona, embora a grande maioria dos usuários seja incapaz de perceber qualquer desses efeitos colaterais da droga — perdem a noção da realidade.
O pai da psicanálise morreu sem saber que as doenças mentais podem ser tratadas sem medicamentos de laboratórios e que a psicoterapia pode necessitar de complementos de vitaminas, sais minerais, ervas medicinais, florais, yoga, atividade física, reeducação alimentar, envolvimento familiar, terapias energéticas como Reiki e que o paciente precisa rebuscar os seus valores espiritualistas, isto é, estímulos cerebrais positivos, sadios e não-anestesiantes. Ele jamais vai saber que a cocaína hoje é responsável por uma rede internacional de crime organizado responsável pelo fim de inúmeras vidas e pela hospedagem forçada de milhares de pessoas em hospitais (privilégio daqueles que têm dinheiro), muitas vezes sem recuperação, sem mencionar o número de famílias destruídas. (*) José Joacir dos Santos é pos-graduado em Fitoterapia, Mestre em Medicina Oriental e Psicanalista. jjoacir@yahoo.com

