De adeus aos velhos hábitos neste natal
19/12/2006 at 18:54 (Artigos)
Entrei no elevador junto com um casal. A porta abriu-se em um andar e a música natalina entrou. Imediatamente a mulher vira para o marido e diz: “odeio essas músicas, só me lembram orfanatos…”. O marido responde: “mas os orfanatos são importantes…”.
A porta se abre no andar que devo sair, viro para a mulher e digo: melhor em orfanatos do que na rua! A porta quer fechar, ela segura com o braço e diz pra mim em voz alta, com raiva: “só gente rica pensa assim!”.
Não olhei para trás nem tentei juntar aquela resposta porque estava visível naquela mulher as lembranças da infância pobre e dos natais tristes. Evidente que os shoppings preparam uma linda decoração de Natal e por trás dela há um único pensamento: vender!
Mas, afinal de contas, para que são feitos os shoppings? Deveremos então transferir para as músicas de Natal, para os votos de “feliz ano novo” ou para qualquer outra coisa as angústias e sofrimentos que estão bem dentro de nós? Não há nada errado com a felicidade cíclica da vida e o Natal é uma delas.
Lembro da vez que fugi de casa e passei o Natal na rua. Cada riso, cada música, cada ruído de alegria que vinha das janelas dos prédios doía fundo no meu coração. Era como se eu desejasse que o mundo todo tivesse brigado com a família, fugido de casa e estivesse no meio da rua, triste. É muito comum a gente ver pessoas se arrastando pelos shoppings, no final do ano, cheias de pacotes de presentes e a cara amarrada. O ritual parece uma obrigação. O desespero de equilibrar o salário e os muitos presentes que quer dá para cumprir o ritual estressa. Tem muito a ver com a exteriorização da culpa de ter passado o ano inteiro sem se preocupar com a vida. Ir ao shopping no final de ano é uma tentativa de refazer essa história, embora a forma seja inadequada. Mas, ela acaba virando um ciclo, ou repedindo outros já vividos. Os pacotes acabam no chão da casa, com as pessoas ao redor de uma mesa silenciosa e sem alegria. Muitas brigas familiares são materializadas exatamente na época de Natal, quando o astral do universo fica mais suave e a pressão sobe ao coração das pessoas duras, secas e difíceis. Inúmeras famílias que não trocam sequer um telefonema porque de um lado ou do outro da linha há muito rancor, ódio, amargura, egoísmo, raiva do mundo e de si mesmo. Muitos não cumprem o ritual nem obrigados ou pressionados pelo astral universal. Felizmente há também pessoas felizes que conseguem viver seu tempo.
O Natal antecede a uma onda de esperanças que culminam com o Ano Novo. Muitos não-cristãos também se incluem nessa avalanche de corações esperançosos porque a celebração do final de ano passou a ser cultural. A esperança é um elemento importante na vida, independente dos fatores econômicos e sociais das populações. Muitos dos votos de esperança morrem nos primeiros dias do ano, quando passa o cheio do peru e o sabor da rabanada. Simplesmente porque os corações não estão confiantes em si mesmos. São poucas pessoas que largam para trás, com o ano que se vai, os pacotes de tristeza, angústia, sofrimento e desequilíbrios. A maioria cai no comodismo, adiando para um dia, que nunca vai acontecer, a abertura desses pacotes que estão presentes há tempos em suas vidas. Outras brigam para mantê-los e assim irradiam a miséria na vida dos outros. Falta vontade de desatar esses nós, quebrar as barreiras, soltar as âncoras e deixar o barco da vida correr solto na dança dos ventos do tempo. A vida não é um castigo para ninguém. Sem deixar para trás os pacotes não acontece nada em nossas vidas. Muitos desses pacotes estão cheios de conteúdos que não são nossos. Sei que não é fácil admitir o uso de máscaras em casa, no trabalho, na rua ou em um solitário banheiro. São memórias daquilo que disseram a nosso respeito e que a gente acreditou e passou a utilizar essa gravação como sendo genuinamente nossa.
Pessoas fazem plástica, lipoaspiração, malham de dia e de noite para mostrar músculos, pintam suas casas, compram carros novos e em pouco tempo estão no mesmo ciclo vicioso de amargura, sofrimento, rancor, desesperança, solidão, baixa estima, desequilíbrios físicos, mentais e espirituais. As atividades cosméticas não têm sentido se não são seguidas de mudanças mentais e se não jogamos fora o lodo dos nossos corações. Se a esperança, a alegria, a prosperidade, a abundância e a saúde são passageiras na nossa vida então é preciso usar do desconfiômetro, da inteligência, e reagir. Milagres não caem do céu mas existem. Somos nós que ajustamos as energias para que os milagres se materializem. Faz sentido dar dinheiro e comida para os pobres e desamparados no Natal? Sim, desde que você não queira que a imprensa registre o seu ato para a coluna social. Os natais não são iguais e tampouco os anos novos. Nenhum segundo da vida é igual a outro. Nós é que temos dificuldade de mudar, de largar para trás aquilo que não nos ajuda, não nos faz crescer como seres espirituais. Perdemos horas preciosas da nossa vida remoendo coisas, pensamentos antigos e acima de tudo presos a memórias do passado. Não temos compaixão nem conosco mesmo. Aquela história de voltar ao passado para revivê-lo é falsa.
Quem joga sua preciosa energia vital em memórias do passado simplesmente está perdendo ela para sempre porque o passado é como um copo vazio. Por mais que você queira reviver o sabor, o cheio e o prazer do vinho que um dia esteve naquele copo é pura perda de tempo, de energia vital, a mesma energia vital que pode lhe fazer falta mais na frente, quando a vida trouxer um desequilíbrio qualquer como aprendizado. Os relacionamentos passados são iguais ao copo de vinho. Portanto, este é o momento de dar um basta na repetição viciosa dos ciclos destrutivos. Só o presente é real. Ninguém está nesta vida a passeio assim como ninguém nasceu para pastar. Tudo depende de como a gente se administra. É preciso que a gente se permita ser feliz. A vida exige permissões, declarações. Para abrir um consultório, por exemplo, a gente precisa se declarar para o governo e assim conseguir as licenças de funcionamento. Essa declaração também serve para a clientela, que passa registrar aquela declaração. Há muitos outros momentos na nossa vida que a gente faz declarações e com relação a nossos sentimentos não poderia ser diferente. Declare para você mesmo que a partir deste momento você vai mudar a sua vida, vai quebrar as barreiras que lhe impedem de ser feliz, vai desatar os nós das convivências, vivências e heranças, e vai abrir as portas da felicidade, da prosperidade, da alegria, do amor, da abundância. Isto requer persistência, disciplina, vontade, perseverança, e um mínimo de energia vital dedicada a pelos menos cinco minutinhos por dia. Nesses cinco minutos você pára, fecha os olhos e se declara ao universo com toda força do seu coração. A energia gerada nessa declaração promoverá uma quebradeira geral em todo o ranço petrificado, cristalizado, de suas memórias celulares e do seu espírito. Não demorará muito e os sinais da espiritualidade universal começarão a aparecer na sua vida.
O universo só faz aquilo que a gente firmemente deseja e declara desejar. É preciso agir. Quebre todos os padrões familiares e promova uma festa, uma reunião, um almoço, um café ou qualquer outra coisa que possa reunir as pessoas. Dê ouvidos a sua intuição, a qual talvez esteja enferrujada. Jogue fora todas as máscaras daquilo que você pensa que é, daquilo que as pessoas pensam que você é e deixe algo novo e inusitado brotar do seu coração do jeito que você quer que seja. Quebre os seus próprios padrões e ao invés de se encher de pacotes para demonstrar que pode comprar, ou por qualquer outra razão que não seja em atendimento à voz do coração, e faça uma visita, dê bom dia à vizinha mau-humorada, dê um telefonema inesperado à irmã rancorosa e invejosa, ao irmão que se converteu a uma religião catadora de níqueis, a sua mãe que lhe esqueceu, faça uma oração diferente para o pai ou outro ente querido que já se foi. Olhe-se no espelho e se cubra de palavras suaves e bonitas, diferentes das que ouviu a vida inteira, de quem quer que seja ou mesmo de você. Quantas vezes a gente se olha com o olhar crítico? Essas coisas funcionam porque eu já provei. Por causa disso não mais gasto horrores com cartões de Natal falsos, sem vontade e por obrigação. Também me libertei da obrigação de comer peru, das cordinhas rabanadas, e daquela árvore cheia de bolas sem sentido. As tradições devem ser seguidas, mas sem ligação com a repetição do sofrimento.
É encantador reunir parentes e amigos e comer coisas gostosos, cheirosas e cheios de amor, especialmente se o nosso coração está irradiante e feliz, celebrando cada minuto da vida. A solidariedade que as festas de fim de ano despertam deve primeiro suprir o nosso coração. Os outros são os outros e nós somos nós. Sem os pacotes indesejados o nosso espírito respira leve e abre espaço nas nossas células para a alegria de viver. Um fio de cabelo reproduz o código do DNA integral de uma pessoa. Isto significa que todos as nossas células são nossa imagem e semelhança. Pesados rancores contaminam nossas células de tristeza. Motivado pela vontade de ser feliz se traduz em derretimento da gordura da amargura. O processo é simples e todos somos capazes de entrar nele. Assim, as antigas músicas de Natal, o brilho dos shoppings, o cheio do peru assado, a sabor da rabanada podem adquirir novas matizes se você jogar na corrente dos ventos todos os pacotes indesejáveis que carrega nas costas há tempos. Largue tudo, solte tudo. Se for necessário, tire umas horas e escreva uma longa carta para você mesmo. Depois faça uma oração e queime ela, dizendo para o seu cérebro que você apaga todas aquelas memórias das suas células para sempre. O processo mental só depende da vontade de pensar diferente e de não deixar que os antigos pensamentos voltem a rodar a fita. Assim, o vento novo do novo dia do ano novo poderá ser uma nova história, escrita por você! Eu fiz isso!

