Reencontrei um torturador

demonio-do-tibet.jpg Tive um susto  grande.  Estava na fila de cumprimentos e reconheci um antigo torturador entre as pessoas que deveria cumprimentar. Minhas orelhas ferveram. Puxei discretamente a lista de pessoas e confirmei o nome daquele homem. Sim, era quem eu pensava que era. Imagine você estar de frente ao seu torturador e ter que apertar a mão dele sorridente… Ali, em pé, enquanto a fila andava, minha memória viajou para mais de 20 anos atrás, quando eu era um homem jovem sendo chefiado por aquele senhor. Ele era também jovem, quase da minha idade, mas nas circunstâncias do momento ele era meu superior hierárquico. Ele era também tido como arrasador das mulheres desavisadas e andava pelas dependências do trabalho como se houvesse um tapete suspenso só para ele. Pisava, humilhava e perseguia, com muito deboche, todos aqueles sob sua chefia. Parecia haver prazer em olhar para cada um e achar uma coisa para diminuir ou colocar defeito. Ninguém fazia nada que lhe agradasse. Debochava até daqueles que ficassem doentes. Ele pertencia à categoria de novos ricos de Brasilia, aqueles que cresceram com a construção da cidade, isto é, sem berço. Há empregos que adoram esse tipo de pessoa e era exatamente essa a situação: rapidamente ele promovido e colocado nos melhores postos da sua careira. Alguns órgãos do Governo Federal são craques em promover pessoas com esse perfil.

Fui transferido e segui o meu caminho, carregando, ainda, as marcas dos estragos emocionais que uma chefia autoritária, injusta e abusiva pode proporcionar a qualquer pessoa. Naquela época não existiam leis que punissem chefes abusivos. Hoje o destino nos recolocou frente-a-frente. Ao apertar a sua mão, ele me olhou e perguntou: já nos conhecemos? Respondi: não, senhor. A fila andou e acredito que a memória daquele homem passou exatamente pelo crivo do tempo, com um acréscimo: só quem é pisado lembra exatamente da dor. Por que eu disse não? Porque naquele momento toda a carga de ódio e raiva daquele homem, que nem lembrava que guardava comigo, foi embora pelo ar, em duas palavras - não, senhor! Para agora e para sempre os nossos espíritos estão separados pela falta de reconhecimento da parte dele — perdeu a memória da própria maldade. A minha imagem não está firme no seu pensamento, na sua memória celular e o que eu guardava soltei de uma vez só naquele aperto de mão.  Basta um lado soltar para que o vínculo seja desfeito.

O perdão nem sempre “perdoa” ou limpa completamente a memória celular porque há partes de nós mesmos que não temos controle absoluto. Naquele momento também tive a comprovação do que afirma Réne de Nebesky, em seu livro “Oráculos e Demônios do Tibet”: o ódio  (reflexo da maldade) chega a um ponto em que enche os espaços do portador e se reflete na forma fisica dele, deformando a pele, o rosto, as expressões e até a fala. Tanto o ódio que a pessoa carrega consigo dela mesma como as maldades que faz com as pessoas e por isso as pessoas devolvem em forma de raiva e ódio, conscientes ou não. Toda energia volta para a origem. Aquele homem, há mais de 20 anos atrás, era também bonitão e certamente pensava que a juventude era para sempre. Quem não tinha o seu modelo físico também era vítima dos seus deboches e achados.  Hoje ele é fisicamente deformado. O seu rosto é exatamente como as máscaras dos demônios tibetanos. Se não fosse o nome na lista que tinha no meu bolso, eu não teria certeza de que se tratava da mesma pessoa que meu sexto sentido denunciou imediatamente ao encontrar, ao estar no mesmo ambiente físico. Sim, os nossos sentidos falam claramente e as antenas trabalham quando estamos no mesmo ambiente físico de pessoas do bem ou do mal. Tive até pena do ser desfigurado que ele é hoje.

A lição de hoje foi grande e felizmente aprendemos todos os dias. A maldade realmente modifica as expressões faciais, a pele, o brilho dos olhos, a cor da pele, assim como a bondade ilumina a aura. O escritor-pesquisador Walter Semkiw diz, em seu livro “A Origem da Alma”, de cunho científico, que carregamos para sempre esses impressões físicas (psicossomatizadas) para as futuras vidas. Dai porque as vezes as pessoa vêm almas horripilantes e deformadas, como as almas daqueles que morrem viciados em maconha, cocaína ou qualquer outra droga. Hoje eu tenho cabelos brancos e o universo conseguiu privilegiar o meu ser mantendo apenas as marcas do envelhecimento — tem sido um trabalho duro, constante e consciente. Se eu tivesse asas já teria voado por ai há muito tempo, mas posso dizer que tenho disciplina e isso parece ser um trunfo nesta vida. Ninguém agrada a todo mundo nem tem a obrigação de amar e ser amado por todos. A melhor posição, como diz Chico Xavier, é: “ainda bem que não fui eu quem fez tudo aquilo”.

 

Shang, a deusa taoísta que perdeu o trono

taoist-temple.jpgA revolução comunista na China em 1948 destruiu templos, escolas, sociedades esotéricas e matou milhares de monges, professores, sábios. Muitos registros milenares foram quimados, mas alguma coisa foi salva e levada para Taiwan e Hong Kong, assim como muita coisa pode ter sido salva e escondida pelo governo comunista como móveis e objetos dos templos, alguns deles colocados à venda na clandestinidade por oficiais corruptos. Bibliotecas tibetanas inteiras foram queimadas. Muita livros milenares do Taoísmo e do Budismo foram salvos e o acesso a eles ainda é muito restrito nos dias de hoje. A pesquisadora Suzanne E. Cahil publicou vários livros sobre o taoísmo pela Standford University Press dos Estados Unidos. Não se sabe como ela teve acesso a tão rico material. No livro “The Queen Mother of the West in Medieval China (Rainha Mãe do Oeste na China Medieval)”, uma das histórias que me chamam à atenção é sobre a entidade que serve nas cerimônias de aparição da Rainha Mãe do Oeste, chamada Shang Yuan Fu Jen. A função dela é de simples arrumadeira e é contada pelo sábio taoista Tu Kuang-Ting, que morreu no ano 933 Antes de Cristo. Shang Yuan Fu Jen, também conhecida por “A Senhora do Supremo Primordial”, uma das categorias mais elevadas para as entidades no taoísmo – no catolicismo seria o mesmo que Santa. Shang atingiu, em uma de suas vidas, a perfeição e por isso atraiu para si os ensinamentos dos seres mais elevados do universo, recebendo deles o que no budismo chamamos de “transmissão”, isto é, sabedoria sagrada direto da fonte — como Moisés, o Patriarca Judeu, recebeu do Senhor. Ela teria seguido o caminho que levou Kuan Yin ao título de Deusa da Compaixão e do Perdão se não fossem os pequenos erros que cometeu, mas grandes demais para a eternidade superior: o primeiro erro foi usar dos seus poderes paranormais em benefício próprio, por exemplo, quando ela encontrava um homem muito sábio, fiel e dedicado às práticas taoistas, chantageava ele para que ele passasse a pertencer a sua “linhagem”. Outro pequeno erro foi “revelar mistérios sagrados para as pessoas erradas”, isto é, iniciantes ou simplesmente pessoas curiosas como aquelas que frequentam um mês as lições de Yoga na India e voltam ao Brasil dizendo-se professores. De posse do conhecimento dos mistérios sagrados, como mantas, simbolos, práticas e meditações, e medicina da longevidade, ela barganhava para adquirir favores pessoais e até para demonstrar seus poderes paranormais. Quando Shang desencarnou e, no período em que aguardava a sua re-inserção no mundo espiritual, apareceu a muita gente, especialmente homens, fazendo promessas e tentando conquistar seguidores, na inocência de que o universo havia tirado os olhos dela. Aquele comportamento depôs contra ela mesma. Ao se confrontar consigo mesma, espiritualmente, antes da ascenção, percebeu os pequenos erros que cometera, passando conhecimento sagrado para as mãos de pessoas despreparadas e pouco comprometidas com os mistérios sagrados. Equiparemos isso a um Mestre Reiki que não tem escrúpulo nem respeito pelos mistérios sagrados do Reiki e promete iniciações à distância para pegar dinheiro das pessoas, já que iniciações não podem ser feitas à distância. Ao se confrontar, ela ficou sabendo que tinha perdido a imortalidade da alma, conquistada com tanto sacrifício em inúmeras reencarnações sofridas na Terra, assim como o direito de reencarnar. Dessa forma ela vive como um ser comum no mundo espiritual, cuja função é a mesma que arrumadeira na corte na Rainha Mãe do Oeste. É tão forte a autopunição que ela sequer é lembrada nos templos e as imagens dela não são fáceis de serem encontradas ou talvez tenha sido queimadas pelos comunistas. Contra ela testemunharam inúmeros transcendentes, inclusive Feng Pu, que viveu até o ano 826 Antes de Cristo. Segundo os escritos deixador por Pu, Shang havia prometido a ele que “se você me seguir, você aumentará a sua longevidade”. Pu não se tornou um seguidor dela mas sim um delator. Naqueles tempos, a proximidade entre o céu e a terra, em termos espiritualistas, era muito grande e os taoístas registravam todos os acontecimentos em livros. Shang havia aprendido os segredos sagrados da imortalidade da alma antes de desencarnar, pela última vez, para poder utilizá-los a seu favor no momento certo, mas a fraqueza de sua alma não conseguiu superar as tentações do mundo e passou muito conhecimento para aqueles que prometiam lhe seguir, sem checar as intenções deles, fazendo, com isso, que conhecimentos sagrados fossem vulgarizados por pessoas despreparadas e descompromissadas com a luz. A função de arrumadeira é tida como um gesto de compaixão da Rainha Mãe do Oeste por aquela que foi completamente banida das esferas elevadas do conhecimento. 

A simbologia dos pássaros e a Rainha Mãe do Oeste

dou-mu.jpgblue-bird.jpgNuma linda tarde de primavera, em Brasília, fui chamado a atenção por Isis e Quasar, meus dois gatos. Eles me olharam e correram para a janela da sala. Ao chegar até a janela, havia sete pássaros azuis voando em ciclo, bem próximo à janela. Nós três ficamos parados olhando aquele belo espetáculo, cuja mensagem só fui entender dias depois: algo muito forte e transformativo iria acontecer em minha vida. Os pássaros assinalavam que era forte, mas que deveria ser mais forte ainda para superar os acontecimentos. Outra vez estava tendo meu tarô sendo traçado por uma taróloga paulista e um pássaro se jogou pela janela quase quebrando o vidro. A mensagem era simples: saia correndo dai, não escute mais nada. E eu sai. Muitas e muitas vezes os pássaros interferiram em momentos da minha vida sem que eu soubesse ser a mando da Rainha Mãe do Oeste. Eles devem fazer isso com muita gente, que sequer presta atenção. Meus gatos foram educados a conviver com pássaros que apareciam na janela, inclusive beija-flores que vinham tomar água com mel, e a pensar que eram seres iguais a eles. Não se deve prender pássaros, de espécie alguma, porque eles fazem parte da transcedência. A Rainha Mãe do Oeste também manda avisos através de animais, terrestres e marítimos, como recentemente aconteceu em San Francisco, estado norte-americano da California: um antigo ponto turístico da cidade era marcado pela presença de centenas de leões-marinhos há décadas. Dia 29 de dezembro de 2009, os animais sumiram e não voltaram ainda. Isso nunca havia acontecido antes. O que será? Para os budistas, se você quer comprar Karma positivo e salvar almas, solte todos os pássaros presos em gaiolas.

Textos antigos, escritos por taoistas em séculos antes de Cristo, descrevem essa relação dos pássaros como mensageiros da Rainha Mãe do Oeste. Em imagens de Kuan Yin pintadas em cavernas na Ásia há sempre três pássaros azuis perto dela. Em imagens portugueses de Nossa Senhora de Fátima aparecem três pássaros.  Todas as histórias de aparição e interferência na Terra por parte da Rainha Mãe do Oeste, também conhecida por Dou Mu ou Mynah, “aquela que é anterior a formação da terra”, há sempre o registro de três pássaros azuis. Eles simbolizam a comunicação além das barreiras do tempo, do espaço e do entendimento humano, como xamãs que transcendem e fazem viagens astrais. A pesquisadora Suzanne Kalil diz que eles seriam a ligação “entre humanos e os mundos divinos, entre a vida e a morte, entre a nobreza e o resto da humanidade, entre amantes separados” sem a vontade própria, entre devotos e santos. O monge taoísta Chuan Tang Shih, escreveu, no ano 3246 Antes de Cristo:

“Vermos um ao outro é difícil; partir também é difícil. O vento do Leste não tem força; mesmo cem flores secam. Casulos de seda da privamera estão prestes a morrer, assim como a vela de cera desmancha-se como cinzas e as nuvens formam templos que o vento também leva. Canto poemas à noite em resposta a meus sentimentos, mas a Lua se mostra distante e fria pela janela. Não há muitos caminhos daqui para o Monte Peng-lai… Oh, pássaros azuis, por favor, olhem ela por mim”.

A vassoura só voa na cabeça do bruxo

vassoura1.jpgPassei um dia com uma xamã norte-americana, filha de índios nativos. Ela chegou a fazer mestrado em antropologia, dá aula em uma universidade e celebra casamentos com ritual indigena. Mesmo assim, mantém suas práticas ancestrais numa reserva indígena, onde planta, vende e ensina como cultivar plantas medicinais nativas – e eu me mantive como se nada soubesse sobre fitoterapia. Ela conta a história dos seus parentes e diz das dificuldades deles em manter as tradições do seu povo, tão vilipendiado pela população branca ao longo dos séculos. Dois grandes cães permanecem no curso até o final, observando tudo como se estivessem supervisionando. Um deles colocou as patas nos meus ombros e ali ficou até ela mandar sair. Grande parte dos indios atuais nos EUA está envolvida com alcoolismo, entre outras. Ela conhece as plantas como ninguém, conta detalhes delas desde o plantio até o fruto. O curso incluiu a feitura da famosa vassoura de bruxo. Quando ela começou a desmontar uma de suas antigas vassouras, um beija-flor apareceu e sobrevoou a sua cabeça. Este era o sinal que eu esperava. Das muitas coisas que ela falou sobre a vassoura, o que de mais interessante achei foi: elas não voam como nos filmes norte-americanos e ingleses dizem. Alguns bruxos tomavam ervas alucinógenas e tinham a ilusão de que voavam nas vassouras. Mas era apenas ilusão. Por causa das ervas alucinógenas eles acabavam perdendo as habilidades mediúnicas. As vassouras são utilizadas para a cura do mesmo jeito que a minha avó fazia com os galhos de ervas. Ela rezava a pessoa batendo gentilmente com galhos de ervas. O rabo da vassoura é feito com ervas medicinais para o uso espiritual. O xamã “varre”, literalmente, a aura do cliente com o rabo cheio de ervas especiais e nessa conexão (espírito-ervas) a cura acontece. Ela também disse que não se deve mudar de casa e levar as vassouras usadas (as de varrer a casa). A vassoura usada guarda consigo a energia dos ambientes onde é utilizada para varrer e se conecta com o passado (sujo, sofrido). Entre as plantas utilizadas no rabo da vassoura estão artemisia e sálvia. O cabo da vassoura de xamã é decorado com seus símbolos esotéricos, atado com pele de animais “sagrados” e penas de pássaros selvagens. Dos animais domésticos, só pavão e peru podem ser utilizados (eles não conheciam a guiné ou galinha de Angola).

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