O amor é a chave da vida
Por: José Joacir dos Santos
E uma voz de mulher me disse: ele vivia com quatro mulheres e mandou todas embora para ficar com um dos empregados, seu amante. Por causa disso, o Rei retirou os seus títulos da família real e mandou prendê-lo em uma ilha com os seus pertences. Era uma ilha vulcânica, cheia de montanhas e naquela época não havia equipamento para subir nas montanhas. A casa-prisão ficava no meio da ilha, como se fosse o fundo de um copo rodeada de paredes rochosas. O homem se viu sozinho para tudo, até para fazer sua própria comida, coisa que nunca havia pensado antes. O Rei, que se considerava generoso e justo, mandou deixar suprimentos para três meses até o próximo carregamento. Andando pela casa, cheia de pacotes com seus pertences, o homem encontrou os apetrechos do seu altar e o ergueu na sala principal, de frente para a porta de entrada, que nunca fechou. Entre a casa e o mar havia um lago, atrás do lago uma montanha que dividia o lago e o mar. Depois de quarenta dias de angústria, depressão e arrependimento de tudo o que tinha feito na vida até aquele momento, o homem resolveu rezar em frente ao seu altar. Lá do fundo do coração veio o pedido de perdão, por ter desperdiçado a sua vida como membro da família real, usando as pessoas como se elas fossem animais de estimação, que você brinca quando quer e quando não quer amarra, põe na gaiola, prende no cercado ou faz qualquer coisa. Ele rezou profundamente e pediu perdão a cada uma das suas quatro mulheres, dos filhos que cada uma tinha e que ele sequer sabia os nomes e ao seu amante cujo destino era por ele ignorado. Ao encerrar suas preces e se preparar para ai mesmo dormir, o homem ouviu a minha voz: você se arrepende do fundo do coração pelo sofrimento causado a essas pessoas e as outras pessoas da sua família? O homem levantou, assustado. Quem está ai? Que é? E procurou pela casa, fora dela e não viu ninguém, até lembrar que estava sozinho na ilha. Sem sono, o homem começou a arrumar a casa inteira, colocando tudo no seu devido lugar. No outro dia, resolveu andar pela ilha e ver o que ela tinha a oferecer e até descobrir árvores com frutas e praias de água doce e salgada. Nos dias que se seguiram ele correu pela ilha como se fosse uma criança, brincando com as árvores, olhando os pássaros, as flores, a beleza das paisagens sem se dar conta de marcar na parede os dias que passavam. Numa manhã, acordou com um barulho vindo do porto improvisado e lá estava um barco a mando do Rei, com suprimentos. Ele correu até lá e sem perguntar nada agradeceu aos dois empregados pelo suprimento e voltou para casa curioso para ver o que existia nos pacotes. A cena se repete nos próximos três meses mas ele sequer toca no que vem de comida porque agora está mais interessado nas frutas da ilha, no peixe fresco que aprendeu a pescar, nos ovos dos pássaros, no mel das abelhas, nas flores comestíveis do lugar. Nos três meses seguintes, quando chegou o carregamento ele agradeceu, sorrindo, e pediu aos empregados que levassem tudo para eles mesmos e suas famílias. Agora o homem não comia mais os ovos dos pássaros. Cuidava deles e via nascer os novos pássaros, alguns deles com o tempo até pousavam em sua cabeça quando ele pescava. As orações não eram mais feitas de frente para o altar, embora o conservasse com flores nativas, mas sim quando pescava, quando nadava, quando caminhava pelas praias que eram só suas, cada uma com o nome de uma das pessoas que ele sentia ter causado sofrimento. Brincando com um pássaro que havia pousado em sua cabeça, balançando de um lado para o outro para ver até que ponto o pássaro se equilibraria, eu me projetei sobre as ondas, sorrindo. Sem se assustar, ele reconheceu minha voz: agora que você se ama e está preparado para enfrentar a vida, vá para o seu altar e pense na pessoa que você mais ama nesta vida. Ele não pensou duas vezes, mandou o pássaro voar, jogou a vara de pescar no mar e correu para o seu altar. De frente para o altar, ele pensou em todas as pessoas que passaram na sua vida, todas as que teve alguma relação, e a única pessoa que veio em sua cabeça, além dele mesmo, foi o pobre empregado que era seu amante. O drama do remorso misturado com culpa e vergonha, por todas as humilhações que passou por ter um amante homem voltaram a sua cabeça, embora reconheça que o amante foi a única pessoa que aparentemente lhe amou e foi amado sem os interesses materiais ou da sua posição na família real — assim como eram as quatro mulheres negociadas família a família –, e ele chorou profundamente. De repente, um forte barulho na porta da casa: havia um pano azul caído. Como? De onde? Quem? Como um pano causaria um barulho tão forte? Ele ajoelhou-se e pegou o pano.
Ao tocar no pano com as duas mãos, o homem foi levantado do chão e começou a voar, como hoje seria uma asa delta. A casa foi ficando mais longe, enquanto ele subia próximo ao paredão rochoso das montanhas. Agora podia ver o mar, as ilhas e o vento continuava a levá-lo na direção do continente. Agora já via as casas, os palácios que um dia foram seus, e o pano começa a perder forças na direção de uma pequena vila onde ele cai sobre um arrozal já maduro. No chão, ele solta o pano para trás, distraído e atônico com o que estava lhe acontecendo, quando ouviu uma voz masculina bem atrás. Ao virar a cabeça, o pano havia se transformado na figura do seu amante, sorrindo. Sem voz, o momento era de escutar, mais uma vez: eu fui morto pelos guardas do seu pai. Viva a sua vida! Sem mais, a imagem sumiu. O homem sentou-se ao chão, confuso, sem saber se aquilo era real ou um sonho. Formigas inundaram suas pernas e o trazeiro e ele se levantou para se livrar delas quando me viu, olhando para ele em silêncio: O senhor pode ajudar? Naquela palhoça tem uma mulher em trabalhos de parto e está sofrendo muito… O homem não pensou muito e correui para a cabana. Uma jovem mulher gemia e chorava, deitada numa esteira, sangrando, com o bebê já nascendo. Sem saber o que fazer, o homem pegou um pano limpo e esperou a criança sair da mãe e o acolheu enquanto a mãe dava o último suspiro nesta vida. Era um menino. Ouviu vozes lá fora e um casal adentrou a cabana. A senhora dizia, minha filha, minha filha, e se ofereceu para segurar o recém-nascido. O senhor, tirou o chapéu e disse: obrigado, se quizer trabalhar conosco no arrozal, a casa é sua! (*) José Joacir dos Santos é psicoterapeuta. Observação: Este texto foi ditado por uma entidade espiritual. jjoacir@yahoo.com

