É a beleza fundamental?
Por: José Joacir dos Santos
Até bem pouco tempo não era politicamente incorreto dizer que “a beleza é fundamental”. Com o aumento da população, o desenvolvimento da sociedade e com a solidez da democracia já é possível desmascarar preconceitos embutidos em conceitos que viraram normas, tabus, regras e crenças populares. No que se refere à beleza física, essa frase provavelmente foi refeita e saiu dos bares burgueses de Copacabana, na época da Bossa Nova, e já foi dita até em conceituados programas de televisão sem culpas aparentes. Embora a Bossa Nova seja cultivada hoje mais fora do Brasil do que dentro, o brasileiro já assimilou inconscientemente essa história e colocou a beleza física como o pré-requisito para tudo, inclusive para ignorar que a vida humana tem um caminho que a leva naturalmente à velhice.
Antigamente o foco da beleza era a mulher, mas hoje o homem já disputa quase que meio a meio esse mercado, especialmente nos países democráticos. Talvez o país não tenha chegado ao nível de neurose sobre a beleza que hoje vive a Coréia do Sul, um país pouco maior que Sergipe e onde se executam o maior número de cirurgias plásticas por pessoa no mundo, cujo modelo de beleza se baseia na fantasia dos filmes de Hollywood – completamente oposto à cultura oriental coreana, uma das mais antigas e ricas do continente asiático.
Antes de trazer o assunto à tona, a professora perguntou aos quase cem alunos estrangeiros na sala de aula do Citi College de San Francisco, EUA: levante a mão quem acha que as empresas escolhem os empregados pela beleza física e não pela capacidade? Noventa e cinco por cento levantou a mão. Observando atentamente essa reação, logo compreendi: Entre esses alunos estão pessoas de diferentes raças e nacionalidades, obviamente todos já foram vítimas de preconceito de raça, cor e aparência física no cada vez mais difícil e humilhante mercado de trabalho norte-americano para estrangeiros ou imigrantes. E a história anterior dessas pessoas? Por que largaram seus países de nascimento? Uma senhora húrgara, imigrante, disse que sentiu na pele quando as duas filhas deram entrada no processo de visto para os Estados Unidos, em dias diferentes. A primeira teve o visto negado e o agente consular nem abriu o passaporte dela muito menos leu os documentos. A segunda, nervosa, resolveu pintar o cabelo de loiro um dia antes da entrevista. Advinha o que aconteceu? Ela recebeu o visto. Há quem diga que brasileiros brancos não tem muitos problemas com visto para os EUA e quando têm são tratados diferencialmente em relação a outros de outras “cores”. Seja verdade ou não, há o sentimento de que a beleza física, especialmente a aparência, faz diferença na hora da entrevista para um trabalho e que está diretamente relacionada ao sucesso na vida, isto é, os mais bonitinhos não suam muito e conseguem tudo o que querem se expressarem um sorrizo para os selecionadores ou encarregos de seleção de pessoal para emprego e outras atividades, especialmente se esses selecionadores forem pessoas frustradas e inseguras. Há quem diga que os norte-americanos escolhem o presidente entre os de melhor aparência e o ex-presidente Clinton fez o que fez dentro da Casa Branca porque era branco, bonito, de olhos azuis e homem. A América Latina talvez não tenha chegado a esse estágio, mas por que será que candidatos barbudos têm mais change entre as mulheres do que aqueles sem barba? Há quem ache Fidel Castro lindo! Estaria por tras disso outra coisa chamada opção pelo machismo por parte das mulheres?
Tive um cliente que não queria assumir a sua homossexualidade porque era médico militar e antes de largar a terapia deixou a barba crescer, para “parecer mais macho cho cho”. Seria essa a causa da preferência dos homens nordestinos por bigode?Uma outra colega levantou um aspecto mais polêmico: minha mãe prefere a minha irmã mais bonita. Chinesa, Lin se queixa de dois preconceitos dentro de casa: de não ser homem e de ser “feia”. Na China, até hoje, as famílias preferem meninos a meninas e a aparência física é determinante no sucesso ou no fracasso de uma pessoa, mesmo que seja homem. As lojas de cosméticos são as mais prósperas em Pequim e faz muito tempo que as empresas estrangeiras descobriram esse filão no mercado. A obsessão pela beleza na China não é coisa da Bossa Nova, tem milênios, só que em outros tempos essa beleza era fundamentada na interior e não na exterior, desenvolvida, por ironia do destino, com o advento do comunismo em 1948 – o comunismo pregava que o cuidado com a beleza era coisa de burguesia inútil. Não se sabe como Lin chegou aos Estados Unidos mas uma coisa é certa: ela não quer voltar para a China, nem para a família que ficou lá. Disse, de público, que junta dinheiro para fazer cirurgia plástica para tirar as abundantes bochechas que sua mãe lhe deu, aquela mesma que prefere a outra filha “mais bonita”. Ao dizer isso, suas bochechas ficam vermelhinhas! Uma profissão próspera em San Francisco são os salões de beleza, que aqui aplicam até injeções de butox – nos salões de beleza para ricos, trabalham também profissionais de saúde nas diversas especialidades ligadas à beleza externa e até terapeutas holísticos direcionados para a beleza interior. Apesar das mulheres levarem a fama de se preocupar mais com a beleza externa, homens heteros e até executivos vão aos salões para pintar as sobrancelhas e passar um risquinho preto ao redor dos olhos sem drama porque não têm paciência de arrancar aqueles cabelinhos brancos nas sobrancelhas e pouco resistem a receber um risquinho preto para salientar a “beleza” dos olhos. O Estado da California foi taxado por um jornalista brasileiro de “Mega Gay”, em um artigo para guia de viajantes de uma revista gay brasileira. O que ele não sabe, porque aqui passou duas ou três semanas como turista, é que este é um dos estados norte-americanos onde há uma antiga tradição de liberdades individuais, em todos os aspectos, garantidas pelo sistema jurídico. Mesmo assim, parece ser unanimidade a afirmação de que para ser famoso e próspero nos Estados Unidos, inclusive em estados liberais como a California, a beleza física e a aparência externa contam. Negros e latinos, mesmo na terceira geração nascida aqui, mas são feiosos, só ganham fama quando ninguém pode fazer o que eles fazem. Até que ponto no Brasil essa história é igual e ninguém sabe ou não estuda? Quem pode ignorar que no Brasil de hoje quem não aparenta ser jovem, mesmo que seja plástica, não tem muita chance? Isso sem falar no mercado de trabalho porque o brasileiro é taxativo: acima de quarenta, não! Essa filosofia de vida distorcida é realimentada todos os dias pelas telenovelas, revistas, rádios, música popular etc. Clientes dizem que no mundo gay isso é mais taxativo. Os de rostinhos bonitos podem tudo, os que não têm essa “sorte” se contentariam com o amparo inseguro do escuro da noite. Não se sabe como se comportam as mulheres gays porque elas se escondem de todas as formas, chegando até a casar. O homem é mais radical: ou assume ou casa para pular a cerca. Se é tido ou se acha feio vai para a marginalidade. Se é bonito e todo mundo acha, escolhe com quem dorme, mesmo com os heteros que desejam dar uma experimentada. Segundo as estatísticas oficiais norte-americanas, a grande maioria dos estupros masculinos nas prisões são cometidos por homens heteros.
Há pressões sociais de todos os lados para que você “melhore” a sua “beleza”. Todos os comerciais de televisão dizem isso subliminarmente a todo instante e há um poderoso mercado de cosméticos, sustentado por laboratórios farmacênticos, empenhado em provar que você é feio e precisa melhorar com tais e tais fórmulas milagrosos que eles inventaram. Ninguém abre a boca para falar mas há quem diga que até homens brancos tatuados ou com piercings só são admitidos para empregos que “não envolvem a imagem da empresa”, isto é, funções internas ou em horário noturno, longe do público. Apesar dos defensores de uma história digna e antiga sobre tatuagens, a verdade é que para a sociedade norte-americana, que divulgou esse costume no mundo todo através dos filmes, a taguagem lembra prisioneiros e quem está na prisão não é flor que se cheire. A mesma coisa é para piercings. Apesar de ferrenhos defensores no Brasil tentarem passar uma imagem chique, aqui essa imagem está ligada aos drogados e depravados que vivem do dinheiro do seguro social pago por honestos trabalhadores. Apesar dos mais novos serem aparentemente mais tolerantes, os acima de trinta anos ainda se levantam quando um passageiro cheio de piercings e tatuagens senta ao lado no metrô ou no ônibus, como o fazem naturalmente com negros mal vestidos e sujos – a California está cheia de pedintes negros e a maioria vive suja pelas ruas, envolvida nas drogas e no crime e se faz de vítima da escravidão – sim, aquela nossa da Lei Áurea.
A beleza externa deve ser cultivada sem exageros porque os exageros levam a neuroses e a falsos conceitos de felicidade e profundidade. As pessoas muito ligadas na aparência externa geralmente ignoram o que se passa dentro delas. Atrelam-se ao externo para fugir daquilo que não conseguem processar no seu mundo emocional e com o exagero se tornam superficiais até em uma simples conversa. Certa vez ouvi de uma senhora de até certo nível social que preferia “morrer numa mesa de cirurgia plástica” do que “ficar velha e com rugas”. Olhando para ela, a gente não sabe quando ela está rindo ou chorando porque o rosto, de tanta plástica, já não consegue expressar emoções. Aqueles que nasceram privilegiadamente com um rostinho bonito também sofrem e são cobrados e até usados por isso, inclusive pela família – há nos Estados Unidos concurso de beleza para meninas abaixo de cinco anos de idade! Não se sabe ainda o que acontece com o lado emocional daquelas que passam da idade e são substituídas pelas mais novas na passarela. Na Venezuela há clínicas especializadas em cirurgias plásticas para meninas que pretendem se candidatar ao concursos de Miss – nacional e internacional -, tido como fonte be renda e prestígio fácil. Há rumores em Jakarta, Indonésia, de que os árabes recrutam meninos asiáticos bonitos para trabalhar na Arábia Saudita e em outros países do Golfo Pérsico, mas quando lá chegam passam a servir sexualmente a seus patrões. História parecida aconteceria com rapazes brasileiros recrutados com promessa de emprego em grandes cidades da Espanha e que quando chegam lá são trancados em motéis e casas do ramo de prostituição masculina, da mesma forma que aconteceria com meninas, especialmente as loirinhas – a Espanha é o país da Europa onde se registra o maior número de gangues do sexo fácil. Então, a beleza é fundamental? Onde está a beleza? Um velho ditado afirma que a beleza está nos olhos de quem vê e isso é muito correto porque são os olhos o espelho da alma. A gente vê o mundo de acordo com o nosso estado de espírito, ou seja, com o nosso banco de dados emocional. Quando você fica zangado, a vista fica turva. Fiz cirurgia para corrigir o “vício de refração em que os raios luminosos que entram em cada olho, paralelamente ao eixo óptico, são levados a um foco aquém da retina, dado o alongamento ântero-posterior que existe nesse olho”, mais conhecido como miopia, segundo o Novo Dicionário Aurélio. Quem não usa lentes fundo-de-garrafa não sabe o que é acordar um belo dia, abrir os olhos e ver as linhas da palma da mão. Essa emoção eu tive quando operei dos olhos! Quando usava óculos, tirava algumas vezes do rosto porque tem hora que você quer jogá-los no lixo. Incomoda o nariz e freia você até de beijar. Então, voltando a ver tudo sem óculos descobri uma infinidade de coisas que nunca tinha visto por pura incapacidade visual e naturalmente taxado de feio ou bonito. Posso achar uma rosa feia e você, do meu lado, achar a mesma rosa linda. Essa codificação está dentro de cada um porque tudo foi criado para ter a sua própria e única beleza, embora a gente não consiga viver sem os padrões criados por nós mesmos e repassados de geração em geração, sejam falsos ou não. O uso disfarçado do preconceito em nome da beleza é condenável e intolerável. Especialmente com relação ao ser humano, quem pode ver feiura, por exemplo, na imagem de Madre Tereza de Calcutá? (*) José Joacir dos Santos é psicanalista - jjoacir@yahoo.com


