O estereótipo de macho ficou velho e inútil

cat-and-dog.jpgPAIS E FILHOS 

Por José Joacir dos Santos

 O apresentador do prêmio norte-americano de cinema chamado Oscar, o ator australiano Hugh Jackman, atualmente com o “título” de homem mais sexy do mundo, onde toca faz fortuna, confunde a cabeça de muita gente mal-resolvida e é um ser humano exemplar. Em entrevista à televisão norte-americana, o ator contagia a audiência com sua alegria de viver, seu charme pessoal, sua felicidade por fazer tudo o que gosta e, especialmente, o respeito pelo ser humano independetemente do gênero. Um dos papéis no teatro que mais lhe deram a fama e prestígio foi encenando a vida de um famoso ator gay. Fez o personagem tão profissionalmente que causou furor no teatro. A mulher de Hugh conta que ficava nos bastidores do teatro esperando o marido e ouvia a todo instante, dos colegas dele: ele é ou não é? Isso é muito comum na vida real quando alguém se sobressai em alguma coisa e não incorpora o estereótipo – que as pessoas tanto precisam! Hugh interpretou um ator gay, daqueles que não sabem onde colocar as mãos, e isso incomodou muita gente porque o ator mostou que aquele personagem era apenas um ser humano. Na verdade, é o que incomoda é que ele é um profissional dedicado, que dança, canta, faz qualquer papel, no teatro ou em filmes, e é um apresentador de mão cheia. Quem disse que não faz parte da masculinidade o canto, a dança, a alegria de viver, chorar quando é pra chorar? Esse estereótipo de homem que é homem é aquele imbatível, sem sentimento e sem desfrutar da alegria de viver está ultrapassado. Só segura aquela imagem atrasada quem tem medo da vida ou de si mesmo.

 O que faria um ator estrangeiro tão equilibrado no meio de tanto desequilibrio que existe no mundo do teatro e nos bastidores do cinema norte-americano? Hugh disse na entrevista que sua mãe largou seu pai com cinco filhos homens quando ele tinha pouco mais de 8 anos de idade. A receita parece simples: o pai dele! Abandonado pela mulher, o pai assumiu os dois papéis. Fez isso tão bem e com tanto amor pelos filhos que todos são equilibrados e de sucesso naquilo que fazem. Essa é a receita para a felicidade: amor de pai, responsabilidade para com os filhos, sentimento profundo do que é a essência do ser humano e, acima de tudo, não despejar nos filhos os seus problemas conjugais. O ator também prova que os estereótipos são apenas pobres estereótipos. Algumas pessoas se seguram neles porque não têm algo mais interessante em suas vidas. Qual é o problema de um homem hetero fazer bem o papel de um homem gay no cinema ou no teatro e vice-versa? Qual é o problema de alguém ser gay, hétero, tartaruga, cabra, vaca ou elefante? Quando entramos nessa discussão sobre gays, há um fator de desequilíbrio muito grande na opinião das pessoas que se manifestam contra, como se a vida das pessoas fossem o “cordão vermelho” ou o “cordão azul”.

Essas pessoas esquecem que o homem ou mulher gay é um ser humano normal, com todas as faculdades naturais da vida, com habilidades para desempenhar qualquer função e que a diferença entre seres humanos está apenas na inteligência, na capacidade de administrar a vida, de amar e ser amado, nada mais. “Somos todos iguais nesta noite”, diz a canção! Claro que há os que não se erguem por medo, trauma ou baixa-estima. Esses são infelizes porque menosprezam a inteligência e não lutam pelos seus direitos civis, que na Constituição Brasileira está escrito que é para todos, independente de cor, raça, credo. O ser humano equilibrado é aquele que tem boas e respeitosas relações sociais com seres humanos de gêneros diferenciados, sem confusão mental do que ele realmente é. Na era em que estamos, é comum pais solteiros, homens separados que ficam com os filhos e homens gays adotarem crianças. As mulheres já fazem isso há muito tempo e muita gente que se diz inteligente pensava que essa era uma função só de mulher. O que existem em comum entre eles é amor, respeito pelo ser humano e acima de tudo responsabilidade civil – ao contrário das gerações anteriores onde pais achavam que filhos homens tinham que ser machos matadores, irresponsáveis, mulherengos e negligentes com sua prole. Estatísticas feitas nos países escandinavos e nos Estados Unidos mostram que filhos de pais solteiros ou separados, héteros ou gays, são equilibrados e obtém sucesso na vida porque isso não depende do gênero, mas de educação, amor, atenção, respeito, cuidados especiais. É a presença física do pai na vida do filho ou da filha, seja ele pai solteiro, separado, gay ou equilibrista que dá segurança emocional, confiança, maturidade, equilíbrio, que são a chave para o sucesso na vida. 

O desequilíbrio humano, que faz com que o ser mergulhe no curto caminho das drogas, da criminalidade e das irresponsabilidades sociais e civis não tem a ver com gênero, preferência sexual ou aparência. Tem a ver com desequilíbrio emocionai oriundo da falta de uma pessoa que incorpore em suas vidas a essência amorosa, respeitosa e responsável do um pai ou da mãe – e isso não faz diferença entre filhos de sangue ou adotivos. Recentemente foi notícia nos EUA uma cadela que já adotou 88 animais, entre eles cachorros, gatos e filhotes diversos e amamentou, lambeu e acariciou todos eles até o momento que em eles se ergueram e assumiram suas vidas – aí ela se prepara para a próxima adoção, com o sentimento que ninguém esperava ver nos cachorros! Essa cadela também dá outra lição: gato criado por cadela não vira cachorro nem aprende a latir. Continua a ser gato. A diferença é que não mais compra a falsa idéia de que gato e cachorro são inimigos, assim como héteros e gays. Hugh conta que, no início da carreira em New York, ligou para o pai para dizer que ia cantar em um lugar muito famoso da cidade, tipo Teatro Nacional, e o pai dele pegou um avião na Austrália, no dia seguinte, e foi aos EUA assistir a apresentação do filho, vestido em seu melhor paletó. Alguém tem dúvida, ainda, porque o rapaz é um sucesso? José Joacir dos Santos é doutor em Psicologia e faz curso especial em Sexologia na Universidade de San Francisco, EUA jjoacir@yahoo.com

Escavações egípcias falam de consciência

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Por José Joacir dos Santos

As escavações regulares nos sites históricos do antigo Egito sempre trazem revelações que surpreendem e abalam as estruturas da cultura ocidental ainda presa na surperfície do que restou da cultura grego-romana, incluindo aí a brasileira herdada dos irmãos portugueses e fortalecida pelos imigrantes europeus. Uma dessas é o fato de que alguns textos das antigas religiões do Egito já teciam profundos comentários a respeito do que se chama hoje psicologia, com a diferença que o conteúdo não foi censurado como foi tudo o que influenciou os “pais” da psicologia ocidental. Três coisas básicas tremem as bases do conhecimento estabelecido: Emoção é energia; Self faz parte do corpo espiritual; e espírito está definido como corpo físico (que os Kardecistas chamam de Perespírito, isto é, o corpo emocional que é sutil mas pesado, quase físico). Sim, você está chocado e eu entendo porque tudo o que você aprendeu na faculdade de psicologia está equivocado! Emoção seria o carro andando e consumindo gasolina. Self tem endereço e CEP, ao contrário do que se ensina nas escolas onde ninguém sabe onde mora o Self. O espírito é o cimento entre um tijolo e outro das paredes de carne, músculo, sangue, tutanos e foi assim instalado para poder alojar e conduzir a presença de Deus no mundo material.Carl Jung, no auge de sua carreira, e sofrendo com o pensamento que Freud queria que ele perpetuasse, teve que fazer uma viagem ao Oriente para clarear sua confusa mente. Dessa viagem resultaram muitos escritos, também confusos (porque ele não tinha conhecimento espiritualista até então) mas pelo menos ele teve a coragem de admitir certas coisas, publicadas, inclusive, no livro “Religião e Filosofia Oriental”. Ele mergulhou fundo no estudo do Self e publicou, cheio de dúvidas, o livro  “The Undiscovered Self” (O Self ainda não descoberto). Evidentemente que ele não iria “descobrir” o Self com clareza na época e na Europa em que viveu, impregnada das amarras católico-protestantes-judias conservadoras, moradia da censura, porque tudo tem seu tempo para acontecer. Muitos anos ainda passariam para que o mundo ocidental, isto é, a Europa e posteriormente o Brasil, enveredasse por conhecimentos espiritualistas trazidos pelo Kardercismo e já existente em países ainda não abertos à pesquisa como Índia, China, Tibete e o próprio Egito (administrado hoje por muçulmanos, fechados a todo tipo de conhecimento). O cuidado com os escritos achados no Egito hoje é porque não fragmentados. Muitos escritores norte-americanos, loucos por dinheiro, copiam coisas fragmentadas do Egito e até dizem inventar sistemas de curas. Sim, o chamado Self é hoje conhecido como uma abertura espiritual invisível chamado de Oitavo Chácra, o qual depende da vontade para existir, mas tem endereço e pode ser trabalhado por técnicos que não precisam ir à faculdade. Já o espírito é material, é formado de uma camada fina e também invisivel chamada pelos kardercistas de “perespírito” e que os budistas sabem muito bem do que se trata porque é a esse corpo que é dirigido todo o preparativo para a saída definitiva da energia do corpo físico no momento da morte corporal – aconteceu a morte, a energia se torna cristalina e invisível para quem está do lado de cá mas não para quem está no lado de lá, onde tudo é tão nítido que confunde o recém-chegado. O trabalho de integração corpo-mente-emoção-espírito precisa mais da conexão individual com a espiritualidade, seja ela qual for, do que do conhecimento intelectual-acadêmico. Naturalmente que a medicina oficial tem alergia a tudo o que é invisível, embora os pesquisadores tenham que usar óculos e lentes especiais para ver, nos laboratórios, os vírus e sistemas inteiros de moléculas invisíveis ao olho comum – e isso só atrapalha o desenvolvimento da humanidade. Lembre que as alergias são processos emocionais não-trabalhados, talvez o sentimento de culpa impregnado na medicina pelas sangrias e dissecações não-autorizadas como as que aconteciam na Biblioteca de Alexandria. Já a psicologia vai demorar a assimilar que todas as técnicas de sublimação do sofrimento emocional estão equivocadas porque o conteúdo emocional precisa tomar consciência dele mesmo para se autocurar, isto é, precisa se materializar – sem remédios. Sim, a palavra de ordem no momento é consciência, que na gíria quer dizer “cair na real”, encarar, ver, analisar, compreender para depois desmaterializar, descongelar, derreter a energia emocional doentia da raiva, inveja, angústia, ciúmes, frustração, abusos sexuais, físicos, opressão, violência doméstica, que gruda nos tecidos e provoca nódulos psicossomáticos mais conhecidos como reumatismo, doenças auto-imunes, cardíacas, dermatológicas, gastrointestinais, pulmonares, cardiovasculares, neurológicas, obesidade, vícios, manias, entre outras. A emoção prende o tecido e gera o adoecimento, como os antigos discos de vinil arranhados ficavam repetindo as músicas no mesmo ponto do arranhado. Tem coisa mais antiquada e ridícula do que os chamados exames psicotécnicos para carreira, profissão e carteira de motorista?O processo de tomada de consciência não combina com remédios controlados – mas as terapias ocupacionais e energéticas têm surpreendido. Como é possível uma pessoa clarear a mente para dar consciência ao conteúdo emocional tomando remédios que dopam?  Já sabemos que as pessoas que se dopam com cocaína e ervas alucinógenas tendem a diminuir a capacidade de raciocinar com clareza, estudar, se concentrar, isto é, perdem as capacidades cerebrais naturais. Aquelas ervas utilizadas em rituais religiosos adoecem o fígado e o baço e sem esses órgãos funcionando regularmente o ser humano não pensa com clareza – o fogo sobe e a água desce.  Todas as doenças do fígado e do baço afetam, por exemplo, a visão – o fogo que queima. Imagine uma pessoa com problemas emocionais e mentais tomando drogas que dopam! Que poderíamos fazer para que a psiquiatria e a psicologia tomassem consciência da natureza espiritual do ser humano como depositário do corpo de Deus, ou seja, da consciência cósmica segundo a qual somos todos um com a natureza? Um exemplo da consciência cósmica é a ecologia, onde pensamentos negativos coletivos promocam desastres ecológicos. O próprio Egito foi vítima do mau uso do conhecimento e da consciência onde a ecologia reagiu ao contrário e os desastres ecológicos vieram em forma de inundações. Tudo ficou debaixo dágua por décadas! Quando o pensamento não é elevado, a energia sobe e a parte sutil vira emoção (fogo); já a parte densa vira água e desce secando vaso, músculo e canais vitais e provocando inundações nos órgãos vitais e digestivos. No livro “Maat, as 10 Leis de Deus”, ditado pelo espírito egípcio Ra Un Nefer Amen, que é um verdadeiro tratado de psicologia em 148 páginas, o ser diz que o que causou a destruição do Egito foi o mau uso da energia pelos sacerdotes e religiosos, que introduziram a magia negra (o fogo que queima, não o fogo sagrado da cura) como resultado da ignorância e da má interpretação dos textos sagrados. De acordo com as escrituras judias, quando o faraó perseguia Moisés, a ligação com Deus foi cortada e a peste matava quem não tivesse a porta marcada com o sangue de ovelha… Por exemplo, vamos usar o fogo: o mesmo carvão que aquece, cozinha e queima é o mesmo que cura envenenamento. Agora leia ao contrário: o carvão que cura envenenamento é o mesmo que aquece, cozinha e queima. Todo o conteúdo do livro é comprovado pelos textos extraídos das escavações dos antigos templos, escolas e palácios, mas revisados por psicografia. Então, qual é a abordagem correta para lidar com as emoções descontroladas que viram água e fogo? Seria encurtar o caminho que leva à consciência de que só a paz interior é quem produz a força de viver bem? Ainda há muito chão para ser escavado no Egito, quem dirá na psicologia. Que faces novas o conhecimento terá? José Joacir dos Santos é doutor em psicologia jjoacir@yahoo.com

Salvando Lili


bird2.jpgPor José Joacir dos Santos

Lili é o nome que escolhi para o personagem, cujos demais dados aqui estão modificados. Desde criança tem cabelos ondulados e quando toma sol ficam aloirados. Tem olhos esverdeados, um corpo no lugar certo, uma mulher que qualquer homem quebra o pescoço. Apesar disso, ela nunca descobriu o quanto é linda! Chegou no consultório com duas muletas e o pé engessado. Quando levanta a cabeça o olhar é perdido. Passa a maior parte do tempo olhando para o chão. Tive que ver o boletim da faculdade porque quando ela fala você acha que tudo é mentira – e ela confessa que nunca teve muita credibilidade, nem dentro de casa. É só você olhar para ela e a palavra mentira vem na cabeça. Claro que é a casa dela que esconde as sombras de tanta tristeza em um rosto tão angelical. Ela é a terceira filha e perdeu o trono para o irmão, queridinho do pai.

Os pais da menina são daqueles que delegam a educação dos filhos a professores e escolas. Isto é, não assumem nada. Embora tenha fama na família de boa cozinheira, a mãe de Lili jamais ensinou aos filhos a fazer bolo de caixinha. Não se sabe a história emocional do pai, mas o certo é que ele ignorou as três filhas e só assumiu a parternidade a partir do nascimento do menino e a ele dedicou tudo o que é – famoso advogado. Ele sufoca tanto o menino que o garoto, aos 18 anos, já andava como ele, pensava como ele, comportava-se como ele e já acredita que suas irmãs eram “idiotas”. No dia da minha formatura, diz Lili, meu pai foi pescar e minha mãe fazia auditoria no Sul. Ela tenta compiar, e as vezes faz sucesso, o comportamento mal-resolvido e machista do marido. Não tem vontade própria e aparentemente não compreende o seu próprio papel, de mãe, na família. Só as irmãs compareceram à formatura. “Éramos como três pintinhos órfãos molhados na chuva…”. Muito desta história não pode ser aqui contada, mas Lili disse-me que queria ver o texto publicado para se distanciar cada vez mais do passado que tanto suor lhe deu para construir o presente.

Lili conta que no dia em que menstruou pela primeira vez estava sozinha em casa com a mãe. Ao chamar a mãe para mostrar o ocorrido, a mãe mandou ela ir ao banheiro do casal porque “lá tem absorvente”. Assim foi sempre: com os boletins escolares, a formatura em economia, os desapontamentos com namorados. Ninguém para dividir suas emoções porque as irmãs tinham o mesmo comportamento individual – são sozinhas. Lili já quebrou um dedo, machucou os dois pés, teve um corte profundo na testa, desmaiou na escola, caiu de bicicleta, queimou as pontas dos cabelos no fogão de casa, perdeu a bolsa com tudo dentro, bateu o carro um dia depois de tirar a carteira e mesmo assim não conseguiu chamar a atenção da família positivamente. Ao contrário, sempre levou sermões, cartigos e até um tapa do pai. Os pais acham que a rigidez exagerada e fria em educação serve para alguma coisa. Lili chora, em cada sessão, como se fosse derreter completamente.

Não precisa ir muito fundo para saber que Lili se apaixona facilmente por qualquer homem, se decepciona da mesma forma quando cai a máscara das suas fantasias e na maioria dos casos não sabe como acabar e sair da relação – ela diz que sempre espera que o rapaz acabe. Isso já lhe custou caro! Apaixonou-se perdidamente por um rapaz viciado que obrigava ela a comprar a maconha dele, botar gasolina no carro  e até a comprar “presentes” que ele escolhia. Aquele tapa que levou do pai quando bateu o carro? Quem estava no volante era o namorado, cheio de maconha! Até pensei em ir para outro país procurar um namorado porque nesta cidade estava e parece que ainda está havendo uma crise entre os rapazes. Eles parecem gostar mais dos vícios… Numa das sessões pedi a minha cliente que listasse o nome de dez amigos, puramente amigos, sem interesse algum, até da faculdade, e ela confessou ter dificuldade de fazer amizades com homens porque “qualquer gesto brusco parece com meu pai”. O que há de errado com o pai? Nada! Ele é completamente dedicado a sua carreira de advogado. “Traumatizado” com o fato de só ter filhas, parece que ele estava apenas reproduzindo uma programação emocional errada herdada dos pais com relação a homem e mulher, herdeiros, etc. Até a separação, “fracassou com pai em todos os momentos da nossa vida”. A mãe? É funcionária pública de um importante órgão federal e até viaja pelo serviço, de tão boa que é no que faz profissionalmente. Mas, apesar de ter tido quatro filhos, até hoje não lembra do seu papel principal na história deles. Estaria ela reproduzindo o comportamento reprimido das mulheres da família dela?

 Para os olhos alheios, a família da Lili é perfeita, assim como a sua vida. Dá pra fazer uma lista de coisas boas dos seus pais? Ah, sim, nunca faltou nada em casa; quando peço dinheiro eles dão… Que mais? Lili chora. Numa das sessões a cliente trouxe uma folha de papel amarelado, com um poema que escreveu quando tinha 14 anos, após ouvir o pai contar para um amigo, enquanto fazia um churrasco, o quanto lhe entristecia o fato de ter três filhas mulheres. Na verdade ele substituiu a palavra “mulheres” por um palavrão comum na linguagem de homens naqueles bares de esquina… Lili estava dentro do banheiro, atrás da churrasqueira, e o pai não sabia. Ela acredita que todo o seu sofrimento começou ali. “Queria morrer”. As  irmãs de Lili não percebem nada disso: elas acham que a vida é assim! Na psicologia é fácil definir esse comportamento: negação! Todas tinham problemas estomacais de origem emocional. Isto é, você sabe que tem um problema e finge não tê-lo. Todos os dedos apontam para ele e você diz: não existe! O mundo inteiro diz que vê e você diz que é pura mentira. As vezes basta uma palavra para quase destruir uma vida, especialmente se é pronunciada por um ente querido na hora errada, com raiva, por ignorância ou por não ter nascido com a vocação de ser pai ou  mãe. Quem faz isso repete a cena sem perceber e a ferida vira chaga em quem escuta. Aí, o amor se transforma em ódio, carinho em rebeldia e quando algo trágico acontece os pais dizem: onde foi que erramos?

Além de bonita, a minha cliente é muito inteligente. Na hora de puxar pra fora as emoções ela reagia racionalmente, imitando o comportamento reprimido dos pais intelectuais. É como se falasse de alguém que não era ela. Um dia peguei ela pelo pé: marquei a consulta na hora do jantar da casa dela. Levei para o consultório comida, pratos, talheres, toalha vermelha para a mesa, flores e taças para água. Lili ficou surpresa, mas reagiu positivamente. Pedi que minha cliente arrumasse a mesa para o jantar como se ele estivesse esperando uma pessoa muito importante. Acanhada, ela arrumou a mesa mas não colocou a toalha e nem as flores – não sei o que se passou na cabeça dela naquele momento. Quando ela olhou pra mim e disse que estava pronta, incorporei o pai dela e comecei a reclamar da mesa, do jantar, da comida, como se ela tivesse feito a comida – esse era a pessoa importante. Usei as mesmas palavras que ela disse serem usadas pelo pai, inclusive aquela frase de bar de esquina com relação às três filhas. Minha cliente disparou a chorar copiosamente, escondendo o rosto com as mãos. Cheguei bem perto dela (que era mais alta que eu) e gritei: sua vadia, você merece um tapa na cara! (a mesma frase que o pai dela disse quando o namorado bateu o carro e ela mentiu). Neste momento, minha cliente me empurrou para trás e vomitou tudo o que ela sempre quiz dizer ao pai e jamais teve força ou coragem. Os olhos dela faiscavam e eu estava certo de que ela estava vendo o pai dela em mim. Cinco anos depois, Lili é mãe de um casal de filhos e conheceu o marido em um curso de Reiki, que fez logo depois dessa técnica de psicodrama e muito floral.

 A mãe de Lili luta hoje contra câncer na garganta, o qual lhe afastou do trabalho. O pai de Lili foi preso fazendo sexo com um travesti no estacionamento de um tribunal importante e o caso foi abafado por amigos na polícia. Expulso de casa, foi embora para o Sul. Das duas irmãs, uma virou sindicalista profissional, desses que só sabem convocar greves, nunca negociações. É solteira e nunca apresenta os namorados. Mora com a mãe, com quem “discute todos os dias” e não quer saber de terapia. A outra é professora e a cada semestre namora com um aluno da classe, sempre mais novo que ela – e todos tiram proveito dela. Apesar de ter um bom emprego, não tem coragem para sair de casa porque diz cuidar da mãe. O irmão casou com uma moça evangélica, grávida. Lili voltou a estudar e vai ser pediatra, a mesma profissão do marido.

Relacionamentos sobrevivem só de amor?

pomegran.jpg ”Eterno amor, do meu coração.

                                 Alguém te reconheceu lá no salão.

                                 Você pode andar abaixo e acima,

                                  com essa luz que te ilumina…”.

Por José Joacir dos Santos

É incontestável que o amor é a base da vida humana, animal, mineral, vegetal, espiritual. Por exemplo, mais do que nunca o amor pelo meio-ambiente e a natureza é pré-requisito para a saúde da vida no Planeta inteiro. O mesmo se aplica ao reino mineral e o mundo animal que cada vez mais são protegidos pelas leis com a mesma finalidade: o bem-estar do Planeta. Em termos de seres humanos, já sabemos que o relacionamento é a parte mais difícil de todas e sem amor não há sustentação emocional, física, mental e espiritual. Até nos seriados de televisão a gente ver pessoas declararem que amam profundamente o companheiro, mas… Na vida diária de um consultório as queixas familiares convergem sempre para um ponto: fulano ou fulana me ama muito mas é um pai terrível ou uma mãe insuportável. Fulana me ama muito mas não ajuda em nada em casa; ou não paga a pensão dos filhos que tanto ama. Fulano me ama mas usa drogas; chega bêbado em casa; bate. E o amor? Nos anos da ditatura os militares diziam, em relação ao Brasil: ou ame-o ou deixe-o. Só que ninguém podia abrir a boca e falar de democracia. Será que eles sabiam o que é amar? Seria o amor suficiente para sustentar equilibradamente um relacionamento afetivo de qualquer espécie?  

A mulher liga para o marido e diz: beim, estou morrendo de dor-de-cabeça, passe na farmácia e compre um remédio pra mim…! O marido responde: eu tou muito ocupado, se der eu passo, tá, beim? E ele diz que ama a mulher o tempo inteiro. Ë só a mulher começar a reclamar da falta de compromisso no casamento e ele diz: mais eu te amo, beim! Outra vez ouvi a seguinte história: pedi a meu companheiro para passar na igreja e rezar por mim porque estava me sentindo mal. O companheiro responde: amor, isso não é importante… A pessoa estava impossibilitada de ir a igreja porque estava no hospital… O que não é importante para mim também não deve ser importante para a pessoa que eu amo, e vice-versa? Desde quando? Como eu posso julgar o que é importante para minha companheira quando ela afirma que aquele aspecto da sua vida é importante? Tive um cliente que era separado e tinha um filho sob a guarda da ex-mulher. Ele chorava no consultório dizendo ter muita saudade do filho. Um dia lhe perguntei: quanto custa a escola do seu filho? Ele respondeu: não sei, a minha ex-mulher paga a escola dele… Ai perguntei: e quantas vezes você levou ele no campo de futebol que você vai todo final-de-semana? Ele respondeu cheio de desculpas, culpando sempre a ex por isso e aquilo e por nunca ter levado o filho no jogo de futebol. E você ama muito o seu filho, não é? Ele respondeu: sim, amo muito…

Sim, os relacionamentos são complicados e difíceis, tanto entre pais e filhos como entre casais, colegas de trabalho, na rua, especialmente quando as pessoas não têm uma definição clara do que é respeitar o outro, do que é companheirismo, do que é amar. Há quinhentas definições do que é amar e eu diria que são todas elas juntas, não há como separar o coração da mente, da emoção, do espírito e do dia-a-dia da vida real, bem no chão. Amar de verdade requer, também, a materialização do sentimento. Isto é, você tem que executar ações claras e definidas que expressem o seu amor. Não dá para você colocar comida em casa e ser ausente no compartilhamento, nas conversas, no abraço, no afeto, nas palavras amorosas. Não dá para você dizer que ama e só se importa com o seu trabalho, a sua vida, a sua conta, o seu carro, o seu horário, a sua vontade. Dá para se viver de brisa? Mas a brisa não é uma delícia? Não dá para dizer que ama e você expressa em atitudes, atos e palavras todo um conjunto de comportamentos egocêntricos, egoístas, como se o mundo tivesse que girar só e unicamente em função da sua pessoa. É demais a pessoa que está em um hospital pedir ao companheiro que passe na igreja preferida dela e reze? Arrancaria algum pedaço o fato de você ir a  uma igreja que você não gosta?

É comum nos relacionamentos acontecer que a pessoa amada reclame dessa ou daquela atitude, contrária ao que ela espera do companheiro e também é muito comum o companheiro reagir com chantagem, se fazer de vítima, de incompreendido quando na verdade é ele que não quer compreender nem se comprometer. Uma relação só funciona se houver mútuo interesse e jogo de cintura para equilibrar os altos e baixos naturais de tudo ser humano porque somos vulneráveis até à metereologia. Ai você diz “te amo”, “eu te amo”, muitas vezes para tentar parar a outra pessoa de se expressar e mostrar a você como a sua noção de amor é limitada. É como se a relação tivesse que viver em função das suas vontades. As vezes você não pára de dizer que ama, talvez porque tenha dificuldades de assumir a parcela do seu eu que não entrou na relação, seja por trauma familiar ou outro qualquer, e você não enfrenta. Em uma vida a dois, amar não é tudo, embora o amor seja a base incontestável da vida. Nenhum relacionamento vive só de amor. Há todo um universo de atos, palavras e ações que envolvem e fortalecem a essência desse lindo sentimento chamado amor, que precisa estar bem juntinho, porque a vida é um conjunto de ações diárias que requer o amor em tudo, com o pé no chão – não se pode ignorar o lado prático da vida. Recentemente um casal famoso da televisão se separou e o repórter perguntou ao homem: mas vocês não se amavam tanto? Ele disse: claro, eu ainda a amo muito… Posso perguntar porque se separaram? O homem gaguejou e disse “incompatibilidade”. Para a sorte desse homem, o repórter não perguntou mais nada diante das câmaras porque por trás delas o mundo inteiro sabe que o homem ama muito a mulher, mas, na vida real, só a mulher trabalhava e pagava as contas. Ele vivia de beleza, na piscina, tomando conta do Sol.

Naturalmente que esse assunto não tem um final porque cada cabeça pensa de um jeito. Mas, veja, vamos fazer uma comparação com as leis de trânsito. Elas são as mesmas para todas as pessoas, embora cada motorista seja uma pessoa diferente, pense diferente sobre todos os aspectos da vida. Mas, quando você entra no carro para dirigir, todo o universo se resume nas limitadas leis do trânsito e você tem que se enquadrar nelas. Assim como você pode adorar seus colegas de futebol mas a sua família está acima de qualquer campeonato, pelo menos é o que se espera. Você pode amar muito aquela pessoinha, mas se você não der flores no aniversário vai faltar um pedaço. Um caso de falta de amor à ecologia aconteceu recentemente na China. Pegaram um rio rasinho e criaram um atalhe para que a água desse rio fosse toda despejada em outro, maior e mais profundo. Um mês depois começou a aparecer peixe morto nas praias do rio. Ecologistas estudaram e descobriram que os peixes daquele rio que cortaram o curso não se adaptavam às águas profundas do novo rio e morriam. De início tudo era só água e o desvio era a salvação elétrica do governo. Um pequeno detalhe não observado e todos os peixes morreram. O amor não é tudo quando é expresso só com o coração. Nós, como os peixes mortos, somos constituídos de corpo, mente, emoção e espírito. O amor tem que estar em compatibilidade com esses quatro aspectos que formam a nossa vida – ou não é amor.

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