
Por José Joacir dos Santos
Em 1989 fui iniciado na pesquisa sobre a musicoterapia. Nos seis anos que morei na China tive a oportunidade de viajar pelo interior do país e também pelos países vizinhos, sempre em busca daqueles mestres anônimos, sem cartão de visitas, sem site na internet (que nem se falava ainda), sem cursos com certificado, sem diplomas de universidades, mas ricos em conhecimentos orais das tradições populares daquela região.
Esse conhecimento, vindo dos mosteiros budistas e por sua vez de ancestrais xamãs das mais diferentes etnias asiáticas, é passado oralmente. A música era, e ainda é em lugares remotos da Ásia, parte integrante de um conjunto de conhecimentos que o monge deveria ter, inclusive artes marciais e medicina, leia-se oriental. Por exemplo, o monge era obrigado a saber sobre fitoterapia, arte marcial, dança, música, vidência, rituais espirituais etc. Portanto, o conhecimento é oral e holístico. É preciso salientar que em tudo isso há uma forte conotação espiritual. Sem ela, nada seria possível porque a fonte de conhecimento foi sempre trazida pela ancestralidade através da manifestação mediúnica. Comigo não foi diferente. Não tive tempo nem oportunidade para exercitar as artes marciais paralelamente mas adquiri o conhecimento sonoro que elas transmitem. Nada do que aprendi seria possível no Ocidente.
A musicoterapia é integrada a todos os elementos da natureza e suas expressões. Não há uma fórmula matemática, química ou física que se possa ser repassada de um cliente para outro porque cada ser humano tem um processo genético-celular especial. O sentir é único e individual. A percepção também, e assim tudo que advém. Certa vez uma pessoa me escreveu de Portugal pedindo que lhe passasse experiência no trabalho com crianças.
Esse raciocínio lógico não funciona com musicoterapia. Tenho testado em vários clientes formas semelhantes de lidar com os sons e jamais houve uma coincidência de percepção. O gongo tibetano, por exemplo, pode causar sensação de alegria, riso solto, gargalhada, pranto, desespero e vontade de correr de perto. Altera ou não a pulsação, a temperatura, os batimentos cardíacos, a respiração e pode produzir, ainda, suor e um brilho diferente na aura. As reações do cliente estão atreladas ao seu estado emocional – que varia de segundo em segundo dependendo de muitos fatores, inclusive externos. Se o cliente tem problema nos ouvidos, por exemplo, uma pequena inflamação que ele nem reconhece pode alterar completamente a sua percepção da sonoridade e da vibração do instrumento.
Dentes inflamados podem alterar a sensibilidade da audição. Portanto, há também fatores físicos a serem considerados. Diante disso, para poder ajudar a aquela pessoa de Portugal eu teria que saber detalhes da história de cada criança para poder vislumbrar uma aproximação do seu sistema de memória celular e a manifestação físico-mental-espiritual dele. Sem uma visão ampla do cliente nada funciona. Não há musicoterapia para curar uma dor na unha. Crianças não são simplesmente crianças. Tenho um cliente de três anos de idade que responde a meus pensamentos e uso dessa ferramenta para transmitir — diretamente para o seu mental — calma, serenidade e confiança na vida que segue, da mesma forma que expliquei a ele, silenciosamente, que estava na hora de largar o peito da mãe para se interessar em comida sólida.
Quando ele ouve um diapasão é capaz de dizer a cor da vibração sonora. Como ficaria um trabalho de cura da unha do dedo do pé dele se feito isoladamente? Fiquei profundamente emocionado ao ver, pela televisão, jogadores de futebol, brasileiros e argentinos, cegos, disputando medalhas nos jogos olímpicos de Atenas. Naquele momento tive, na minha frente, um exemplo concreto do que é trabalhar com musicoterapia e através dela integrar-se a todos os sentidos humanos para se chegar à dor, à angústia, ao sofrimento, a alegria e ao prazer sem a visão do que se apresenta, do que aparenta ser aos olhos físicos.
No ser humano a música desencadeia e afrouxa processos emocionais mas há a necessidade da expressão oral, da exteriorização e da compreensão da origem dos processos para que, com o auxílio da vontade, o som possa atuar e refinar a gravação celular daqueles acontecimentos. Jamais tive experiências com pessoas mudas, mas acredito que não seria diferente daquela dos jogadores cegos que jogam futebol e vão para uma olimpíada. A vibração sonora atravessa paredes, imagine células!
O que o terapeuta deve fazer? Desenvolver todos os seus sentidos, de forma a se libertar da ilusão da lógica e mergulhar na engenharia genética de si mesmo. Só depois desse mergulho é possível partir para a observação pura e simples do externo, considerando que nem tudo é o que aparenta ser. A bibliografia em português é fraca e/ou traduzida e alguns autores pecam pela falta de vivência — que só o mergulho acima referido dá.
Para os iniciantes recomendo “Sons que curam”, de Mitchell L. Gaynor; “Singing Bowls, a Pratical Handbook”, de Eva Rudy Jansen (muito fraco); “Singing Bowl Exercises for Personal Harmony”, de Anneke Huyser, também limitado; “Healing Sounds”, de Jonathan Goldman, que muito admiro e tenho seguido de perto as suas novas descobertas e desenvolvimentos; e, finalmente, “Shifting Frequencies”, também de Jonathan Goldman, que é autor também de vários “CD” interessantíssimos e revolucionários. Ainda não editei livros sobre o assunto, embora tenha material já em andamento e me sinta feliz em tornar público, na internet, parte dos meus conhecimentos.
08/11/2006 ·
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