Um anjo chamado Jacinta
Por: José Joacir dos Santos

Dos três personagens das aparições em Fátima, Portugal, a que mais me chama a atenção é Jacinta, embora cada um deles tivesse uma missão nessa história toda. Os três eram videntes. A Senhora de Fátima se dirigia a cada um de acordo com a missão. Por exemplo, as vezes todos viam as imagens mas só Lúcia ouvia o que era dito. Francisco servia de companhia, acalmava as duas meninas e contemplava os visitantes estelares. Os três foram avisados desde o início que só Lúcia sobreviveria porque a missão dela era revelar o segredo pelos três compartilhados, relativos à história da humanidade – hoje comprovados – mas só no momento certo, com a pessoa certa. O que você pensaria se hoje três crianças camponesas, analfabetas, dissessem que estavam tendo encontros com a mãe de Jesus? A história só se repete, Chico Xavier e outros videntes sabem o que é isso.
Desde o início, quando o Anjo Miguel apareceu para preparar as crianças foi gerado um pacto de silêncio e segredo. Jacinta não aguentou as pressões da família e, inocente, abriu a boca, sem contar muito, mas o suficiente para a história sair da casa dela e ganhar os povoados ao redor. Quando ela percebeu que tinha confirmado as aparições se arrependeu profundamente e chegou a ficar de joelhos diante de Lúcia e Francisco e pedir perdão. Para uma menina sem educação escolar alguma e de certa maneira sem cuidados diretos dos pais, era muito.
Quando foi presa, junto com Lúcia e Francisco, os pais deixaram eles por eles mesmos na cadeia, junto com criminosos comuns – a mais velha era Lúcia com cerca de 12 anos. Temendo a morte, Jacinta se ajoelhou perto da janela e começou a rezar. Lúcia diz que não sabe como, de repente os presos se ajoelharam e rezaram com ela o terço. Um deles até colocou Jacinta no colo e a chamou de anjo. Ela deixava de comer, de beber água e de brincar para oferecer como “sacrifícios pelas almas penadas”. Doava a comida que recebia dos pais para outras crianças pobres e comia frutas amargas como “sacrifício”; se martirizava com cordas para oferecer a dor física como sacrifício; rezava por pessoas que nem conhecia; gravemente enferma com tuberculose, não reclamava das dores para não afligir sua mãe; tomava leite que a mãe lhe dava embora não gostasse de leite, somente para “oferecer este sofrimento pelos pecadores”; passava o dia no campo pastoreando as ovelhas que eram maiores e mais altas do que ela mesma porque a família obrigava. Mas adorava fazer isso para poder ficar perto do irmão e da prima Lúcia.
Sofrimento era o que não faltava àquelas crianças – e a Senhora havia avisado sobre tudo o que lhes aconteceria daquele momento em diante. Sabendo do que lhes aconteceria, confiante na palavra da Senhora, Jacinta nada temia, embora chorasse e se escondesse do povo como o irmão e a prima Lúcia também faziam. Tanto em casa como na rua, havia perseguição. A Igreja e o administrador, uma espécie de governador da região, mandavam emissários interrogar os três, alguns em tom de ameaça, por horas, tentando pegar os três na mentira. O padre da região obrigava que os três comungassem e atendessem ao catecismo, embora não soubessem ler. Lúcia diz que Jacinta cobria o rosto e não dizia uma palavra, de medo e para manter o segredo. Corriam boatos de que os três seriam assassinados mas mesmo com as intimidações físicas eles não confessaram o segredo da Senhora de Fátima. A família de Lúcia pressionava para que ela confessasse de público que tudo era mentira mas ela, Jacinta e Francisco haviam feito o pacto de não mentir. Com o vazamento da notícia sobre as aparições, começa a chegar gente de toda parte querendo ver as crianças, tocar, pedir que rezem por elas, etc. As pessoas começam a pisar nas plantações, invadir o sítio e a trazer prejuízos para a família que vivia da agricultura e da criação de ovelhas. Os pais ficavam nervosos e culpavam Lúcia por toda a “desgraça da família”. Quando foram libertos da cadeia e a Senhora de Fátima apareceu mais uma vez, cerca de setenta mil pessoas testemunharam o que descreveram como uma bola de fogo dourada que desceu do Sol, tudo isso sobre as plantações das famílias. Além de rezar, chorar e se esconder das pessoas, Lúcia e as demais crianças não tinham para quem apelar, só para a Senhora, que lhes dizia para “não ter medo de nada”. Fiquei muito emocionado quando li essa frase porque foi a mesma que ouvi na visão que tive com Nossa Senhora da Abadia, que nem sabia quem era.
Sobre as previsões do futuro, feitas pela Senhora de Fátima no contexto dos segredos a serem revelados anos depois, Lúcia conta que a que mais teve impacto sobre os três, especialmente sobre Jacinta, foi a imagem do inferno. A pequena Jacinta, com menos de dez anos de idade, decidiu, a partir dai, fazer sacrifícios físicos para oferecê-los e salvar as pessoas que estavam no inferno. Se nos dias de hoje a gente de rodeia de mil e uma forma para falar sobre morte, céu e inferno para as crianças menos de 10 anos de idade, imagine elas sozinhas verem as imagens em 1917 e permanecerem caladas! E rezar por um papa que nem existia (João Paulo II), sem sequer saber o que era papa? E rezar pelo fim da guerra sem saber o que era guerra? Após as aparições as crianças ficavam tão fracas que tremiam. Isso é natural ocorrer por causa da força eletromagnética provocada pela materialização de entidades espirituais de elevado padrão energético.
Há momentos engraçados e cheios de ternura. Quando os três se reuniam para esperar a Senhora de Fátima e ninguém aparecia, Jacinta brincava dizendo que talvez tivesse faltado azeite na lamparina de Nossa Senhora, numa alusão às luzes que circundavam as aparições (os anjos). Naquela região não existia energia elétrica. Quando ameaçavam eles de morte, Jacinta dizia: que bom, só assim a gente vai mais rápido para o céu. Lúcia diz que Jacinta era a primeira a se prostrar no chão ao ver a Senhora, uma reverência que não era comum do povo daquela região. Mas a própria Lúcia diz que Jacinta a surpreendia com atos e palavras que não tinha como ela saber. Até Lúcia teve que ser escondida depois da morte de Jacinta porque também a culpavam pela morte dos dois pequeninos pastorinhos.
Quando Jacinta já estava prestes a falecer, o que ela já sabia, porque a Senhora de Fátima tinha deixado bem claro que levaria Francisco, depois Jacinta e Lúcia ficaria para a revelação futura do segredo, decidiram levá-la para um hospital na cidade. Ela e Lúcia tinham também sido avisadas que nada do hospital funcionaria mas que ela, Jacinta, precisava se deixar levar para o hospital. Lúcia conta que Jacinta disse: ofereço isso em sacrifício. Ela morreu aos dez anos de idade, simples, em suas roupas camponesas…
Hoje lamento muito ter demorado tanto a ir até Fátima, compartilhar da graça de conhecer de perto a história de seres tão especiais, na fente do seu tempo, os quais doaram suas vidas pela bem da humanidade. Também lamento ter alimentado falsas idéias e crenças sobre os portugueses, que me trataram com carinho e apreço. Espero voltar àquele país muitas vezes, e rever os lugares onde um dia teve o privilégio, sem saber, de abrigar anjos como Jacinta, Francisco e Lúcia e de receber uma visita tão ilustre, a Senhora de Fátima.

Lúcia, Francisco e Jacinta. 
