“A criança inconfundível” - filme sobre o Tibete
Por: José Joacir dos Santos
Enquanto diretores de cinema ocidental cada vez mais penetram no mundo da violência, trazendo para as telas e traduzindo para os potenciais criminosos as técnicas sofisticadas do crime, das drogas e da degradação humana, alguns diretores de cinema oriental buscam a raiz da cultura do povo, especialmente do budismo tibetano, que sobrevive a mais de 40 anos de perseguição, mortes e “limpeza étnica” orquestrada pela China. O mais recente filme chama-se, em inglês, “Unmistaken Chid” (A Criança Inconfundível). Adquiri ainda no pré-lançamento, mas os grandes jornais dos EUA não mediram elogios a esse filme, que não tem atores profissionais. É uma espécie de documentário onde a equipe segue, com câmara aberta, um monge encarregado de procurar um menino que é a reencarnação de um importante Lama Tibetano falecido, Konchog. O monge foi aluno do mestre falecido e a história entre os dois vai muito além de uma reencarnação. Esse monge, aos seis anos de idade, encarou a família e insistiu que queria se encontrar com o Lama, que estava recluso no topo de uma montanha, perto da sua vila. A família fez de tudo para o menino desistir mas não conseguiu. Nas comunidades tibetanas, naquela idade, a família já começa a escolher parceiros para o futuro casamento dos filhos. Ao ser levado até o Lama, o menino implorou a ele para ser seu aluno. A familia acabou deixando o menino ser aluno do Lama, o que significava “perder” um filho. Com o Lama o menino viveu até se tornar adulto. O Lama falecer aos 82 anos, depois de viver a vida inteira dedicado ao ensino. Depois do falecimento, os Lamas encarregados do monastério passaram a missão para o aluno encontrar o seu mestre reencarnado. O monge entra em desespero, achando que não vai conseguir porque a vida inteira só obedeceu ordens. Mas os muitos anos de estudo e meditação lhe trazem ao equilíbrio e ele se dispõe a procurar o reencarnado. É feita uma consulta a um astrólogo (o Tibete usa sua própria astrologia, feita por monges, geralmente clarividentes). O astrólogo-monge dá o nome de uma região nas montanhas do Himalaia, dentro do Nepal, e a letra “A” como a inicial do nome recebido pela criança que é a reencarnação do Lama e as duas letras iniciais do nome do pai da criança. O filme mostra o caminho e a busca desse monge por quase dois anos, criança por criança, vila por vila, e nas cenas você se emociona profundamente porque tudo é real. É a vida real das pessoas na tela, a doçura dos camponeses tibetanos, a pureza dos monges, a inteligência das novas crianças, a devoção e a fé das pessoas, a profunda crença na reencarnação, os momentos de dúvida e solidão, na chuva ou no frio, do monge. Você vai rir e chorar, as vezes ao mesmo tempo. E vai ficar impressinado quando o encontro ocorre porque a criança começa a reconhecer os pertences do Lama falecido — diz que são seus. Tepois de muitos testes, até de consultas espirituais feitas pelo Dalai Lama, é provado que a criança é a reencarnação do Lama. Os monges pedem que a família deixe a criança seguir o seu caminho, que é muito longe deles e para sempre. A decisão final do pai é quando o monge pede à criança para mostrar a ele e ao pai onde fica, dentro da montanha, o local onde o Lama se refugiou por muitos anos. Você vai ficar muito emocionado com o que vai ver. A criança que nem pode andar na montanha mostrar o caminho, entrar sozinha no refúgio e ir direto para a sua cama na encarnação anterior, perguntar pelas plantas, checar os buracos na madeira do abrigo feitas pelo tempo e fazer reverência a sua vida anterior. Fora disso, você vai se deleitar com a vida real das comunidades budistas, os rituais, a fé, uma maneira de viver que o ocidente nem imagina. A criança tem menos de dois anos. Tomara que esse filme seja traduzido e vendido no Brasil. O momento difícil é quando o filme acaba e você tem que voltar para a sua vida, ligar a televisão e só ver crime e confusão.

