De adeus aos velhos hábitos neste natal

Entrei no elevador junto com um casal. A porta abriu-se em um andar e a música natalina entrou. Imediatamente a mulher vira para o marido e diz: “odeio essas músicas, só me lembram orfanatos…”. O marido responde: “mas os orfanatos são importantes…”.

A porta se abre no andar que devo sair, viro para a mulher e digo: melhor em orfanatos do que na rua! A porta quer fechar, ela segura com o braço e diz pra mim em voz alta, com raiva: “só gente rica pensa assim!”.

Não olhei para trás nem tentei juntar aquela resposta porque estava visível naquela mulher as lembranças da infância pobre e dos natais tristes. Evidente que os shoppings preparam uma linda decoração de Natal e por trás dela há um único pensamento: vender!

Mas, afinal de contas, para que são feitos os shoppings? Deveremos então transferir para as músicas de Natal, para os votos de “feliz ano novo” ou para qualquer outra coisa as angústias e sofrimentos que estão bem dentro de nós? Não há nada errado com a felicidade cíclica da vida e o Natal é uma delas.

Lembro da vez que fugi de casa e passei o Natal na rua. Cada riso, cada música, cada ruído de alegria que vinha das janelas dos prédios doía fundo no meu coração. Era como se eu desejasse que o mundo todo tivesse brigado com a família, fugido de casa e estivesse no meio da rua, triste. É muito comum a gente ver pessoas se arrastando pelos shoppings, no final do ano, cheias de pacotes de presentes e a cara amarrada. O ritual parece uma obrigação. O desespero de equilibrar o salário e os muitos presentes que quer dá para cumprir o ritual estressa. Tem muito a ver com a exteriorização da culpa de ter passado o ano inteiro sem se preocupar com a vida. Ir ao shopping no final de ano é uma tentativa de refazer essa história, embora a forma seja inadequada. Mas, ela acaba virando um ciclo, ou repedindo outros já vividos. Os pacotes acabam no chão da casa, com as pessoas ao redor de uma mesa silenciosa e sem alegria. Muitas brigas familiares são materializadas exatamente na época de Natal, quando o astral do universo fica mais suave e a pressão sobe ao coração das pessoas duras, secas e difíceis. Inúmeras famílias que não trocam sequer um telefonema porque de um lado ou do outro da linha há muito rancor, ódio, amargura, egoísmo, raiva do mundo e de si mesmo. Muitos não cumprem o ritual nem obrigados ou pressionados pelo astral universal. Felizmente há também pessoas felizes que conseguem viver seu tempo.

O Natal antecede a uma onda de esperanças que culminam com o Ano Novo. Muitos não-cristãos também se incluem nessa avalanche de corações esperançosos porque a celebração do final de ano passou a ser cultural. A esperança é um elemento importante na vida, independente dos fatores econômicos e sociais das populações. Muitos dos votos de esperança morrem nos primeiros dias do ano, quando passa o cheio do peru e o sabor da rabanada. Simplesmente porque os corações não estão confiantes em si mesmos. São poucas pessoas que largam para trás, com o ano que se vai, os pacotes de tristeza, angústia, sofrimento e desequilíbrios. A maioria cai no comodismo, adiando para um dia, que nunca vai acontecer, a abertura desses pacotes que estão presentes há tempos em suas vidas. Outras brigam para mantê-los e assim irradiam a miséria na vida dos outros. Falta vontade de desatar esses nós, quebrar as barreiras, soltar as âncoras e deixar o barco da vida correr solto na dança dos ventos do tempo. A vida não é um castigo para ninguém. Sem deixar para trás os pacotes não acontece nada em nossas vidas. Muitos desses pacotes estão cheios de conteúdos que não são nossos. Sei que não é fácil admitir o uso de máscaras em casa, no trabalho, na rua ou em um solitário banheiro. São memórias daquilo que disseram a nosso respeito e que a gente acreditou e passou a utilizar essa gravação como sendo genuinamente nossa.

Pessoas fazem plástica, lipoaspiração, malham de dia e de noite para mostrar músculos, pintam suas casas, compram carros novos e em pouco tempo estão no mesmo ciclo vicioso de amargura, sofrimento, rancor, desesperança, solidão, baixa estima, desequilíbrios físicos, mentais e espirituais. As atividades cosméticas não têm sentido se não são seguidas de mudanças mentais e se não jogamos fora o lodo dos nossos corações. Se a esperança, a alegria, a prosperidade, a abundância e a saúde são passageiras na nossa vida então é preciso usar do desconfiômetro, da inteligência, e reagir. Milagres não caem do céu mas existem. Somos nós que ajustamos as energias para que os milagres se materializem. Faz sentido dar dinheiro e comida para os pobres e desamparados no Natal? Sim, desde que você não queira que a imprensa registre o seu ato para a coluna social. Os natais não são iguais e tampouco os anos novos. Nenhum segundo da vida é igual a outro. Nós é que temos dificuldade de mudar, de largar para trás aquilo que não nos ajuda, não nos faz crescer como seres espirituais. Perdemos horas preciosas da nossa vida remoendo coisas, pensamentos antigos e acima de tudo presos a memórias do passado. Não temos compaixão nem conosco mesmo. Aquela história de voltar ao passado para revivê-lo é falsa.

Quem joga sua preciosa energia vital em memórias do passado simplesmente está perdendo ela para sempre porque o passado é como um copo vazio. Por mais que você queira reviver o sabor, o cheio e o prazer do vinho que um dia esteve naquele copo é pura perda de tempo, de energia vital, a mesma energia vital que pode lhe fazer falta mais na frente, quando a vida trouxer um desequilíbrio qualquer como aprendizado. Os relacionamentos passados são iguais ao copo de vinho. Portanto, este é o momento de dar um basta na repetição viciosa dos ciclos destrutivos. Só o presente é real. Ninguém está nesta vida a passeio assim como ninguém nasceu para pastar. Tudo depende de como a gente se administra. É preciso que a gente se permita ser feliz. A vida exige permissões, declarações. Para abrir um consultório, por exemplo, a gente precisa se declarar para o governo e assim conseguir as licenças de funcionamento. Essa declaração também serve para a clientela, que passa registrar aquela declaração. Há muitos outros momentos na nossa vida que a gente faz declarações e com relação a nossos sentimentos não poderia ser diferente. Declare para você mesmo que a partir deste momento você vai mudar a sua vida, vai quebrar as barreiras que lhe impedem de ser feliz, vai desatar os nós das convivências, vivências e heranças, e vai abrir as portas da felicidade, da prosperidade, da alegria, do amor, da abundância. Isto requer persistência, disciplina, vontade, perseverança, e um mínimo de energia vital dedicada a pelos menos cinco minutinhos por dia. Nesses cinco minutos você pára, fecha os olhos e se declara ao universo com toda força do seu coração. A energia gerada nessa declaração promoverá uma quebradeira geral em todo o ranço petrificado, cristalizado, de suas memórias celulares e do seu espírito. Não demorará muito e os sinais da espiritualidade universal começarão a aparecer na sua vida.

O universo só faz aquilo que a gente firmemente deseja e declara desejar. É preciso agir. Quebre todos os padrões familiares e promova uma festa, uma reunião, um almoço, um café ou qualquer outra coisa que possa reunir as pessoas. Dê ouvidos a sua intuição, a qual talvez esteja enferrujada. Jogue fora todas as máscaras daquilo que você pensa que é, daquilo que as pessoas pensam que você é e deixe algo novo e inusitado brotar do seu coração do jeito que você quer que seja. Quebre os seus próprios padrões e ao invés de se encher de pacotes para demonstrar que pode comprar, ou por qualquer outra razão que não seja em atendimento à voz do coração, e faça uma visita, dê bom dia à vizinha mau-humorada, dê um telefonema inesperado à irmã rancorosa e invejosa, ao irmão que se converteu a uma religião catadora de níqueis, a sua mãe que lhe esqueceu, faça uma oração diferente para o pai ou outro ente querido que já se foi. Olhe-se no espelho e se cubra de palavras suaves e bonitas, diferentes das que ouviu a vida inteira, de quem quer que seja ou mesmo de você. Quantas vezes a gente se olha com o olhar crítico? Essas coisas funcionam porque eu já provei. Por causa disso não mais gasto horrores com cartões de Natal falsos, sem vontade e por obrigação. Também me libertei da obrigação de comer peru, das cordinhas rabanadas, e daquela árvore cheia de bolas sem sentido. As tradições devem ser seguidas, mas sem ligação com a repetição do sofrimento.

É encantador reunir parentes e amigos e comer coisas gostosos, cheirosas e cheios de amor, especialmente se o nosso coração está irradiante e feliz, celebrando cada minuto da vida. A solidariedade que as festas de fim de ano despertam deve primeiro suprir o nosso coração. Os outros são os outros e nós somos nós. Sem os pacotes indesejados o nosso espírito respira leve e abre espaço nas nossas células para a alegria de viver. Um fio de cabelo reproduz o código do DNA integral de uma pessoa. Isto significa que todos as nossas células são nossa imagem e semelhança. Pesados rancores contaminam nossas células de tristeza. Motivado pela vontade de ser feliz se traduz em derretimento da gordura da amargura. O processo é simples e todos somos capazes de entrar nele. Assim, as antigas músicas de Natal, o brilho dos shoppings, o cheio do peru assado, a sabor da rabanada podem adquirir novas matizes se você jogar na corrente dos ventos todos os pacotes indesejáveis que carrega nas costas há tempos. Largue tudo, solte tudo. Se for necessário, tire umas horas e escreva uma longa carta para você mesmo. Depois faça uma oração e queime ela, dizendo para o seu cérebro que você apaga todas aquelas memórias das suas células para sempre. O processo mental só depende da vontade de pensar diferente e de não deixar que os antigos pensamentos voltem a rodar a fita. Assim, o vento novo do novo dia do ano novo poderá ser uma nova história, escrita por você! Eu fiz isso!

Para ser feliz é preciso ter vontade

Pessoas pouco espiritualizadas, aquelas que recitam versos da Bíblia como papagaios, têm dificuldade de entender e aceitar mudanças de comportamento da mesma forma que tiveram os que viveram na época física de Jesus.

Ouviam e não compreendiam porque estavam presos às velhas e rígidas regras tribais. Muitos eram analfabetos e ignorantes. Daí surgiram as versões truncadas e de difícil entendimento da Bíblia, o que gera uma gama enorme de interpretações atreladas ao nível escolar e de desenvolvimento espiritual-emocional de quem interpreta seus textos hoje.

Nem precisamos falar no alto nível de censura a que foram submetidos os textos sagrados por parte dos “controladores” de plantão, em todas as épocas. O resultado disso é catastrófico e desemboca na perversão dos padrões, na distorção da mensagem original. O famoso Elias mandou matar a população de uma vila inteira porque não acreditavam no deus dele. Hoje é comum você encontrar pessoas querendo que você “aceite Jesus”, o Jesus delas, mesmo que você acredite em Jesus e já tenha sido batizado algum dia. Cristãos brigam por causa da virgindade ou não-virgindade de Maria, como se cada um de nós não precisasse do desvirginamento de alguma Maria para nascer.

Essa hipocrisia dos púlpitos lembra os juízes envolvidos com a criminalidade, os políticos com o contrabando e o nosso vizinho de porta com a pirataria de produtos chineses desqualificados comprados no Paraguai. Uma cliente conta-me a história de um famoso profissional da saúde que chega em casa e bate na mulher. Cobre ela de socos e abusos verbais na frente dos três filhos menores. Aos domingos todos vão à igreja, almoçam na churrascaria familiar e depois voltam para casa em silêncio. Dona-de-casa, na segunda-feira ela vai à padaria e não pára de falar do marido famoso que tem. Omite os socos e deixa a dona da padaria triste pelo marido barrigudo que trabalha todos os dias da semana “na escravidão que é lidar com padaria”, e que não bate nela nunca.

Uma ex-vizinha minha repete que “é difícil soltar” a memória das surras que o pai orquestrava na infância dela, embora o pai já tenha falecido há vinte anos e ela seja quase avó. Ela adora contar aqueles terríveis abusos físicos e emocionais aos netos, que guardarão pelo resto da vida essa referência como padrão. Temo que baterão em seus filhos para manter as tradições do avô infeliz e encarem tudo como coisas de família que temos que guardar. Imagino o quanto minha cliente desperdiçou de energia mental para manter tais mórbidas memórias e tento entender porque tanta obstinação a favor de padrões de sofrimento que com certeza continuarão com ela em outras vidas! Quando olho para os seus quase cem quilos percebo o preço que paga para não mudar, para se boicotar. Tenho um amigo gaúcho, vindo de uma família descendente de imigrantes, que guarda todas as roupas de inverno para serem usadas pelos filhos e depois pelos netos como se faz na Europa ainda hoje e em muitos países desenvolvidos, cheios de neuroses de guerra. Ele diz que é um desperdício essa coisa brasileira de consumismo, o que concordo em parte. No dia em que ouvi esse depoimento, ativei a parte que discordo dele e doei meus pares de sapatos extras e fiz uma limpeza no guarda-roupa. Também mudei meu culto aos antepassados. Ao agradecer a todos, peço sempre que alterem seus padrões mentais para que reencarnem aptos a mudar e a contribuir para um mundo mais sadio espiritual, mental, emocional, físico e que não se deixem aprisionar com as ilusões do mundo material e a choradeira das pessoas, mesmo que elas sejam seus protegidos por algum motivo. Precisamos desemperrar o mundo sem sairmos em passeata pelas ruas porque isso se fazia nos anos 60/70, mas depois todo mundo ia pra casa encher a cabeça de drogas e maconha. Se não questionarmos, se não quebrarmos os padrões, se não corrigirmos o curso da vida estaremos mantendo o estabelecido e isso poderá afetar as nossas futuras encarnações. Demoramos tanto a soltar a escravidão negra! Temos ainda dificuldades de soltar padrões vindos da Europa pelos portugueses e da África pelos escravos e ainda olhamos nossos índios como selvagens.

Não querer mudar é não querer exercer a vontade e essa falta de exercício de vontade pode atrofiar filamentos de energia que necessitaremos até para desencaixar o nosso corpo espiritual do corpo frio e morto, no dia da nossa hora. Esse é um dos maiores problemas que enfrenta quem morre sem fé e sem vontade. O corpo espiritual fica preso ao corpo carnal, que apodrece na cova. É um sofrimento horrível sentir a decomposição simplesmente porque não sabemos exercer a vontade para libertamos do cadáver. É, ninguém escapa disso! Vontade não é dizer que “eu queria tanto fazer isso…”. Vontade é a força que gera decisões, aqui e agora, hoje, porque só existe o presente. Para exercermos a vontade é preciso treino. Como começar a dizer não ao explorador? Como dizer não a nossos próprios pensamentos derrotistas? Como sair do comodismo da vidinha besta que a gente vive? Como mudar se não quero estudar, trabalhar, acho difícil fazer uma dieta, não paro de sair com “aquela turma”, e continuo pensamento que não mereço viver melhor? Uma amiga mora em um prédio onde um dos moradores é travesti. Tudo seria normal se ele (a) trabalhasse oficialmente e se respeitasse como é. Mas ele(a) toma conta da vida dos vizinhos, quer que os moradores aceitem os seus vasos de planta que atrapalham a circulação pelos corredores, quer que o vizinho do lado deixe de usar incenso porque lhe incomoda o cheio, quer que retirem os quadros das áreas comuns porque não lhe agrada a estética e ainda quer ser sindico (a) para ter uma fonte de renda. A única coisa que falta para essa pessoa é olhar para si mesma nos grandes espelhos apostos na entrada do prédio. Falta-lhe a razão, a percepção de que para exercermos nossa vontade não podemos agredir uma comunidade. O fato de ser travesti não significa nada. A tentativa de invadir a vida das pessoas e de impor sua vontade a uma comunidade torna essa pessoa um prato cheio para estereótipos negativos, os quais retornarão para o seu campo energético e atrapalharão os portais da sua vida.

Aqui a vontade tem efeitos contrários. É a falta de exercitar a vontade que nos faz alimentar os medos como uma criança que está sob o chicote do pai e suplica em lágrimas e palavras carinhosas que o “papaizinho não bata”. A criança não sabe ainda o que é vontade porque está em formação e mesmo apanhando poupa o pai de palavras agressivas porque o respeita como um deus. Todo pai é como o deus para seu filho e é por isso que muitos filhos copiam exatamente as mazelas dos pais porque acreditam que estão se tornando deuses. Se olharmos para a história grega, veremos que os deuses matavam e cometiam todo tipo de atrocidade para manter status. Muitos desses deuses são usados nos consultórios como arquétipos e modelos para espelhamento e assim continuarmos os ciclos humanos de pobreza de espírito. O que dizer de Freud, uma pessoa de difícil convivência que não conseguia manter amigos por muito tempo porque só ficava com ele quem aceitasse o jogo da vida à sua maneira? Ramatis critica, em “Fisiologia da Alma”, o analista que ativa “as emersões do subconsciente” do cliente, e o faz fixar-se nos “recalques de infância”, ou então tenha submetido, ainda, ao “exame de abalizado psiquiatra, que pode tê-lo enquadrado sob a terminologia pitoresca dos tipos esquizotímicos ou ciclotímicos, segundo os estudos dos temperamentos feitos por Kreitchmer”, e a contra-gotas o mantém escravo da terapia sem o auxiliar a desenvolver os exercícios da vontade de soltar as âncoras do passado inútil. Sem irmos muito longe encontramos a igreja, onde tudo é pecado: orgulho, avareza, ciúme, vaidade, inveja, calúnia, ódio, vingança, luxúria, cólera, maledicência, intolerância, hipocrisia ou então de amargura, tristeza, amor-próprio ofendido, fanatismo religioso, ociosidade, prepotência, egoísmo, astúcia, descrença espiritual ou ainda as conseqüências nefastas das paixões ilícitas ou dos vícios perniciosos de “atitudes anti- evangélicas”. Esses “pecados mortais” são passíveis do fogo do inferno. Por outro lado, esses semeadores da culpa não têm coragem e vontade para descer dos seus púlpitos para encorajar ao podre crente a exercer a vontade e alterar esses estados mentais e assim ter uma vida melhor aqui e agora porque também estão presos a padrões mentais seculares e inúteis. Muitas vezes o crente sai do templo carregado de culpa, medo, tortura mental e não foi isso que Jesus planejou.

A pedra que Ele se referiu seria aquela que daria a sombra acolhedora em um dia de Sol, a proteção contra as tempestades do vento e a firmeza para um sono tranqüilo em noites de trovoada – a mensagem foi de amor, não de medo! A lista de pecados reflete pessoas que têm medo de exercer a vontade pura, cheia de beleza, por lhe falta amor. Não existe na face da terra quem não precise mudar porque o próprio universo se renova a cada segundo. Aí você vai dizer: time que está ganhando não se mexe! E eu vou perguntar: ganhando até que ponto? Não existe fórmula de mudança que sirva à coletividade, mas existem caminhos a serem explorados por cada um. Você pode pensar que seu time está perfeito sem notar que os jogadores estão infelizes. Os arquétipos não lidam com Aids, supermercados, impostos, drogas nas escolas, solidão nas grandes cidades. Cada um deve achar seu próprio caminho, com suavidade, persistência, vontade, fé, compaixão porque há janelas abertas nos nossos mundos mentais embora não consigamos perceber sozinhos porque nos fizeram acreditar que somos burros, incapazes, inúteis, ignorantes. Enquanto a religião e a educação familiar não mudam, a gente precisa ter jogo de cintura e buscar alternativas sadias fora delas – porque das doentias estamos fartos.

Como começar? Largando gradativamente as drogas legais ou não; despachando, com classe, as companhias agressivas, violentas, distantes, irresponsáveis e cheias de promessas não cumpridas; soltando-se do peito da mãe que não quer que você cresça para que ela não fique sozinha na velhice; largando esse emprego insalubre que lhe empurra para a cova mais cedo; soltando os medos inúteis que lhe prendem como se o chão fosse cheio de cola; parando de fingir ser a vítima eterna; dizendo não àqueles que lhe exploram e você bem os conhece. A gente finge que é aquela pessoa boazinha, mas esconde monstros no coração. Não existem exploradores sem a permissão dos explorados. Mudar é uma decisão íntima, solitária, resultante da compreensão de que a vida é um momento no tempo. Quem precisa de um companheiro preso ao leite da mãe, surdo, mudo, que sai da cama para o banheiro como se o sexo praticado fosse sujo e imundo ou que lhe empurra no corredor quando a criança chora? Quem precisa do medo da escuridão, de batalhar, de sair à rua e encarar o primeiro emprego? Quem precisa das culpas de Freud e da sua dificuldade de compreender a missão da sexualidade sadia, seja qual for a expressão? Quem precisa do sensualismo exagerado de Apolo, que preferia o diabo a ter que lidar com a vida real? Precisamos, sim, diminuir a importância dos nossos monstros, desclassificá-los, dizimá-los, deixar a garuda virar codorna e o dragão virar libélula — sem rancores, com compaixão. Essas coisas não são como aquelas que a gente pensa que só acontece com os outros.

Entrei no quarto de meu sobrinho e deparei-me com inúmeros monstros de plástico, modernos, agressivos, movidos a pilha, que falam. Ele sabe o nome de todos e trava suas batalhas imaginárias quando está só, imitando a televisão. Parece que a história da Mula-sem-Cabeça da minha infância foi substituída por monstros chineses que não apenas matam mas utilizam alta capacidade tecnológica para isso, as vezes para “salvar” uma princesa mimada e pretensamente indefesa que guarda a sete chaves caprichos mesquinhos, ligados ao sensualismo barato ou a ausência do pai. Os pais do meu sobrinho trabalham oito horas e ele passa quase o dia com a “tia” que não sabe ler. Só uma pergunta vem à minha mente: estava mesmo na hora daquela criança ser trazida ao mundo? Opa, falemos baixinho porque a Igreja diz que camisinha é pecado e Aids não existe. Não posso pretender que as pessoas não tenham filhos, mas posso sugerir que planejem a vida, façam uma agenda detalhada, com dia e hora, para executá- la no momento certo e esse momento é aquele quando a gente olha pra trás e nada nos chama. É preciso checar se as escolhas que fazemos estão em viradas para um caminho limpo, seguro, seco, agradável, iluminado, protegido, onde a gente possa exercer a vontade com a força de quem decide construir uma casa, plantar o jardim, escolher o cachorro de estimação e convidar os vizinhos para um café sem questionamentos a respeito da qualidade da louça a ser servida. Também não tem importância o que pensa o vizinho não convidado vai pensar. A única relevância será a quantidade de risadas a respeito das coisas da vida, dos projetos que não deram certo, dos tropeços tentando acertar, daqueles que tentaram impedir o progresso puxando para baixo quando a gente exercia a livre e espontânea vontade. Para quem filho tem ou cuida da humanidade como opção de vida, resta repassar o recado que Nossa Senhora Abadia um dia me deu: “não tenha medo de nada, siga em frente, olhando para o céu e com os pés bem firmes no chão, mas desbrave a vida sem cordas nas mãos”.

A Saúde do Fígado é o Termômetro das Emoções

Quando fui iniciado no Budismo, nos início dos anos 90, na Tailândia, rejeitei a idéia de meditar. Como esvaziar o cérebro e para quê? Muitas foram as tentativas fracassadas e aos poucos fui descobrindo que o cérebro foi feito para pensar, sem interrupção e isso funciona como uma torneira aberta dia e noite. Esvaziá-lo não era mesmo uma tarefa fácil, mas descobri que fazia sentido.

Quando consegui isso tive uma enorme sensação de paz. Esse simples exercício produz resultados impressionantes. Você passa a controlar e a selecionar o que, quando e como pensar. Isso terá um enorme impacto em todos os seus órgãos interno na direção da saúde, especialmente o fígado. Aos poucos vai descobrir um outro passo mais que importante: visualizar.

É verdade que a gente é o que pensa e se isso é feito com imagens visuais os efeitos são profundos. Vá ao cinema e mantenha os olhos fechados o filme todo e depois discuta o filme com alguém que viu o filme. Você vai descobrir que o seu filme foi outro. Outro exemplo: alguém constrói no seu cérebro a idéia de que há dois caminhos depois da morte – céu e inferno. Aí você morre e vai contar os pecados que acha que tem.

A conta dá desfavorável… Para onde você vai? Para aquela sua criação íntima de inferno, aquela que você visualizou a cada vez que sentiu no coração a pitada da maldade criativa. Não é toda pessoa que visualiza com facilidade mas quase todas pensam sem parar, dia e noite, e remoem os pensamentos como um carro descontrolado de ladeira a baixo. Esse remoer vira imagem.

A mente é tudo e precisa ser “domesticada” a nosso favor porque se a deixarmos solta ela vai… O cérebro é apenas uma parte do nosso corpo e temos que exercer controle sobre ele: direcioná-lo, exercitá-lo. Muita gente enche a cabeça de lixo sem saber que tudo fica em alguma parte da sua memória celular, à espera de maiores informações para se materializar no corpo físico. Não existe um pé de maçã quase abacate assim como não existe um pensamento positivo quase negativo. A natureza dividiu as coisas em polaridades e com isso temos que conviver. O que definiríamos como lixo? Tudo aquilo que não nos ajuda e evoluir, a compreender a dinâmica da vida e de trabalhar a favor do nosso processo angelical. No tempo de Jesus tínhamos que largar tudo e seguir o pastor. Hoje tendemos a seguir o consumismo.

Como já tivemos muitas vidas, o trabalho de em busca do equilíbrio depende das nossas ações mentais e físicas. A comunicação do mundo moderno é maravilhosa mas exerce forte pressão e é capaz de nos tornar insensíveis, alheios, perdidos, desligados, vazios ou cheios mentalmente do que não necessitamos e nos puxa para baixo. Por exemplo, o tum tum tum da música desestabiliza completamente o chácra básico tanto quanto o telefone celular desestabiliza os ouvidos, centro do equilíbrio emocional, se usado sem moderação e sem limites. O que isso tudo tem a ver com o fígado? O fígado está ligado ao cérebro pelo mais que poderoso Nervo Vago, o maestro dos líquidos vitais. É preciso reagir diante do jogo competitivo do mundo moderno que nos empurra para a ilusão do conforto, o ódio, a calúnia, o rancor, a amargura, o sofrimento, a maldade, a maledicência, a inveja, o egoísmo, a violência mental e emotiva, os abusos emocionais, o prejuízo ao próximo, e tentarmos ser anjos aqui e agora, aprendendo a conviver com o próximo, que não é uma figura fictícia – o próximo dos outros é você! O próximo é quem estar ao lado, na frente, na mente. Esse aprendizado passa necessariamente pelos processos mentais e depende exclusivamente de uma saúde física estável.

Os sentimentos negativos envenenam os pensamentos, desequilibram os corpos emocional, espiritual e material e se materializam em forma de doenças. Muitos de nós fixamos nossa mente em um momento difícil da vida, com uma pessoa desfavorável, e assim nos tornamos amargos e achamos que isso é Deus quem quer. Esse amargor fica rodando no cérebro como uma fita-cassete até se materializar em doenças de pele, alergias, câncer e uma infinidade de desequilíbrios psicossomáticos que muitas vezes a gente tem dificuldade de se livrar deles sem ajuda profissional. Quando o fígado está congestionado pode-se sentir um amargor na boca, um mau-humor insuportável isto é, um alarme do corpo pedindo ajuda. O cérebro é inteligente, obedece unicamente às nossas ordens e sabe onde arquivar tudo que lhe é enviado, com a melhor das intenções porque ele é fiel ao portador. A inteligência universal criou o corpo humano com um emaranhado de órgãos, coordenados pelo cérebro, formados de células e só há pouco tempo é que a ciência descobriu que uma célula reproduz todas as características do corpo através do DNA. Já pensou se tivessem criado esse arquivo nas pernas? O que aconteceria com uma pessoa que perdesse as pernas? José Fuzeira, revisor de Ramatis no livro “Mediunidade de Cura”, repete o que os tibetanos dizem há séculos e que os chineses reproduzem na Medicina Tradicional Chinesa: a emoção está ligada ao fígado. “Daí, pois, o fato de que as angústias, preocupações, aflições, frustrações, cólera, ciúme, inveja, inclusive os descontroles nervosos afetam a região hepática à altura do plexo solar ou abdominal”. As famosas dores na barriga que aparecem quando a gente está sob tensão emocional não são bem na barrida e sim no plexo solar, onde se encontram o fígado e a vesícula. As dores acontecem porque a vesícula se contrai, fica lenta e não produz os líquidos que deveria.

Os sentimentos negativos, espalhados na mais perfeita rede de comunicação comandada pelo cérebro, viram fluidos venenosos e com eles o fígado perde a força vibracional natural. Ele não foi criado para processar outros venenos como álcool, cocaína, maconha e comprimidos para dormir. Congestionado, a rede perfeita do corpo fica bloqueada e as demais funções físicas, emocionais, mentais e espirituais ficam comprometidas. Não é à-toa que pessoas viciadas passam a ter problemas sexuais, de administração da própria vida, de falta de concentração, de memória, etc. O uso prolongado de antibióticos e comprimidos para dormir fazem a pessoa perder o sono, ficar angustiada e deprimida. O fígado bombardeado, sem fôlego, não consegue processar tanto veneno. Os ataques espirituais são também efetuados pelo fígado. Se o fígado tem essa importância, e os outros órgãos? Não há, no universo, tudo faz sentido! A engenharia genética espacial é a mais afiada de todas as engenharias. Um cliente meu, de 20 anos, colocado de frente ao espelho não conseguiu se definir. Outro, de 26, sentado e de olhos fechados, não conseguiu visualizar o Sol. Ambos têm em comum uma história de judiação do fígado através de suplementos alimentares indicados por academias, aqueles que fazer inchar os músculos. No turbilhão da vida somos ensinados a valorizar inúmeras coisas inúteis, enquanto que deixamos de perceber outras simples como o significado dos sentidos corporais (ver, ouvir, respirar, sentir, pensar, comer, amar) e amadurecer com saúde. A maioria dos jovens acha que jamais envelhecerá e que o corpo é saco para qualquer pancada. Nem todos terão a chance de envelhecer com saúde para repintar a casa, olhar para as flores, sentir o dourado do Sol no frio da idade, o calor de um abraço após um inverno longo. A maioria esquece de uma ferramenta fundamental e usada sem muita propriedade: a inteligência. Na China cria-se cobra hoje em dia para fins alimentícios e medicinais enquanto que no Egito antigo criava-se cobra como arma militar – assassinatos e suicídios. É do veneno da cobra que se extrai vacinas. Na China as pessoas matam cobra criada no cativeiro como galinhas e comem o fígado cru, tido como ativador da imunidade geral do organismo humano. Para testar a importância do seu próprio fígado, encha a cara de bebida alcoólica e veja como fica o seu humor na manhã do dia seguinte. Há uma vasta literatura que pretende ensinar a meditar e a visualizar mas as vezes esses ensinamentos são longos e cheios de misticismo, quando deveriam ser apenas um treinamento simples para esvaziar a mente.

Como desfrutar disso tendo um fígado saudável? Assim: aproveite a hora do almoço e antes de comer pare por cinco minutos. O estômago cheio atrapalha porque os órgãos precisam se comunicar no processo digestivo. Retire os sapatos, feche os olhos e focalize a sua mente na imagem do mar, do sol, ou do céu azul ou em uma palavra, por exemplo, Jesus. Não deixe que nenhum outro pensamento ou imagem atrapalhe. Se preferir, imagine que você é um pé de bambu, oco, solto ao vento. Concentre-se no entrar e sair do ar do seu nariz. Observe a grandeza do instrumento que carrega o seu espírito eterno. Da terceira vez em diante tudo fica mais fácil. Quando abrir os olhos verifique a cor das coisas ao seu redor e não se surpreenda se sentir a visão melhor. O mais interessante no treinamento de esvaziar a mente é que o cérebro se educa a focalizar e a direcionar sua energia vital para aquilo que você desejar, sem se perder no emaranhado multidimensional das informações a que somos submetidos todos os dias. Passe a tomar um copo de chá de boldo por semana e seu fígado vai lhe agradecer bastante. O budismo ensina que a repetição é o grande segredo da materialização do que pensamos ou rezamos. Mas o budismo leva em consideração que você tem a consciência do templo que é seu corpo e do carinho que você tem por ele que é, afinal, o veículo do espírito. A repetição errada produz efeito contrário. Dê ouvido a suas orações, visualize o que você diz e reze, crie, e em pouco tempo toda a sua vida tomará um rumo sadio através da seleção das memórias que comporão sua luz eterna, angelical. Jesus nos diz que somos a imagem e semelhança de Deus. Então, construa essa imagem e semelhança, modifique o estabelecido, programado, herdado pelo sangue ou pelos pensamentos dos outros, sem venenos químicos ou mentais. Tome conta desse ser angelical que se esconde em máscaras falsas, sem bases sólidas, de um mundo material onde deveria existir apenas como apoio ao seu desenvolvimento espiritual. Lembre-se que tudo que você processar mentalmente vai direto ao seu fígado e você vai precisar dele para ter uma velhice sadia e feliz. Limpe a casa e dance. Cuide do seu fígado para que ele dance a dança das águas e dos fluidos que processa com a finalidade de enriquecer o seu espírito eterno em busca dele mesmo. Neste aspecto, ninguém é diferente, por mais que lhe queiram dizer para atrapalhar ou retardar a sua evolução. Se ainda assim acha que não é capaz, use a inteligência e procure ajuda. A inteligência não foi criada só para o uso intelectual porque um intelectual crítico, questionador, incrédulo é igual a um touro que se acha o rei do pasto sem perceber que o açougue o espera. Como vê, uma vez na terra precisamos de corpo sadio para poder liberar a mente como um lançador de foguetes que é o espírito.

Voltei ao passado para desfazer os laços de sangue

Embora a literatura a respeito de vidas passadas seja ampla e de fácil aquisição, na hora de espremer os limões pode confundir e despertar interesses variados. Quando trabalha-se com este assunto o leque de possibilidades se amplia.

Quando você conversa com alguém sobre isso logo a pessoa fica interessada em saber “o que eu fui”, e quase ninguém sabe que um indivíduo pode ter tido centenas de vidas e que terá muitas mais se não evoluir espiritualmente. Acessar essas informações gravadas no DNA espiritual nem sempre é bom.

Os anjos e santos não reencarnam porque não necessitam, mas nós aqui não temos nada de anjos ainda. Há surpresas, nem sempre positivas, nos reencontros com pessoas ligadas ao nosso passado espiritual. Mas o livre arbítrio anda conosco para o devido uso.

O exemplo pessoal que se segue pode servir de orientação e reflexão. Passei oito meses em Nairóbi, Quênia, Leste da África, por força do meu trabalho. Logo na chegada dá para vislumbrar o estágio de desenvolvimento da tão judiada África.

Uma colega me aguardava no aeroporto com a notícia de que não haviam feito reserva para mim em hotel algum porque só se faz a reserva para poucos dias, não para meses. De lá saímos para procurar um lugar onde pudesse me hospedar.

De três da tarde a oito da noite vagamos de pensão para pensão, de hotel para hotel, alguns lotados e outros sem condições de segurança. Por fim paramos em um hotel caro, onde pude dormir para no dia seguinte continuar a procura. Dois dias depois sai do hotel disposto a encontrar um lugar. Depois de três decepções, de longe gostei da um pequeno prédio onde alugavam apartamentos e, com as malas no carro da minha amiga, paramos para conversar com os donos. Assim que o portão se abriu eu fiquei tonto. Na minha cabeça uma sucessão de imagens foi projetada. Disfarcei bem e na medida em que a proprietária, imigrante indiana, mostrava um dos apartamentos vagos, passei a sentir a sensação de que estava com pessoas conhecidas espiritualmente. E estava!

Não gostei do apartamento e pedi para ver outro, se houvesse. A resposta foi positiva e quanto a senhora abriu a porta do apartamento eu senti uma espécie de raio luminoso e reconheci duas lamparinas sobre a mesa do centro da sala. Há muita queda de luz no Quênia e demora a voltar. Olhei para a mulher e via na minha mente um tapete com um desenho conhecido. Este apartamento tem um tapete no quarto? – perguntei. Tem, vamos ver? Ao chegar no quarto o tapete era o que via na minha mente e estampava um símbolo conhecido do budismo, o infinito. Novamente senti o raio de luz e ao olhar para a dona do apartamento fiquei diante de uma situação ocorrida em outra vida, onde fui assassinado juntamente com minha parceira, exatamente naquele lugar onde havia sido uma fazenda de imigrantes ingleses. Eu, africano, havia me apaixonado pela européia filha do patrão, o que era inconcebível. Fomos mortos e enterrados na beira do rio que passava ali próximo e esse assassinato nunca foi descoberto. Tem um rio aqui perto? Sim, tem, fica logo ali – respondeu a proprietária apontando por entre a janela.

Não perguntei mais nada e assinei o contrato. Onde há fumaça há fogo e onde há fogo há vida. As lamparinas e o tapete sinalizavam para mim que alguma coisa no meu ciclo de existências estava presente ali e era hora de ativar e desatar o nó. Nos próximos dias fui apresentado pela proprietária ao seu empregado encarregado da administração e para quem eu deveria dirigir todas as minhas necessidades como morador. Ao apertar a mão daquele senhor novamente tive as imagens na minha mente. Estava agora diante do mandante do assassinato. Não pude disfarçar muito minha emoção e, ao ser notado, respondi que ainda estava passando pelos efeitos do fuso-horário. Nos dias seguintes tive imagens claras de toda aquela vida na África e compreendi porque sempre me recusei a viajar para aquela parte do mundo e ao mesmo tempo temia o que pudesse vir nos próximos meses, convivendo diariamente com meus assassinos. Quem seria aquela que tanto amei e por ela morri? Será que nos encontraríamos? Como seria ela? Seria bom? Começaríamos tudo outra vez, já que ela poderia ser minha eterna alma gêmea? Dias depois voltei do trabalho de carona. A tarde estava linda. Era bom sentir o cheio das árvores e a umidade do rio. Entrei pelo portão principal, cumprimentei os seguranças e me dirigi ao pátio, onde havia uma escada que lavava ao meu apartamento. Neste pátio também existe um florido jardim e uma pequena piscina.

De repente, parei meus olhos em um rapaz indiano. Meu sangue subiu, tremi, fiquei assustado e ele também. Assustei? – perguntou. Não, eu só não esperava encontrar ninguém aqui e agora. O rapaz aproximou-se e se apresentou como filho do casal proprietário. Ao apertar a mão dele o meu coração também se apertou e pensei que iria passar mal. Disfarcei bem, pedi licença e subi as escadas sem olhar para trás. Estava ali “a minha companheira”, vestida de macacão aparando as árvores e colhendo flores! Enquanto tentava abrir a porta, as imagens do passado vivido com aquele viajante do tempo se sobrepunham umas às outras em minha mente. Entrei e sentei-me no sofá da sala estarrecido com a nitidez das imagens. A partir daquele dia passei a evitar, de todas as formas, aquele rapaz. Ao mesmo tempo passei a sonhar com ele todas as noites e a conversar mentalmente. Pedi ajuda espiritual e a resposta foi imediata: passei a ter acesso a outras vidas, outros lugares, outros tempos. Praticava Reiki, juntamente com florais do Himalaia, todos os dias para apressar a desprogramação daquela vida passada e sofrida. Instintivamente o rapaz também passou a me evitar, embora a mãe não perdesse uma oportunidade para me fazer perguntas sobre a minha vida atual, no Brasil, e a falar das habilidades intelectuais do filho. Satisfiz sua curiosidade e não fiquei surpreso quando ela me perguntou se eu tinha me assustado com o filho dela. Respondi que sim, mas justifiquei que achava ele parecido com uma pessoa que conhecia e por isso fiquei assustado com sua presença.

Os indianos acreditam na reencarnação e eu tinha certeza que eles suspeitavam de algo, mas jamais dei um passo nessa direção, por instinto. A única incursão que fiz foi através da empregada doméstica. Perguntei se o casal tinha muitos filhos e ela me deu a ficha: não, só um rapaz. É casado? Não, é solteiro e não tem namorada. É gay? Não, esse é um tabu para os africanos-indianos! Ela também disse que ele vive no mato, isolado, e quando volta para casa fica o tempo inteiro cuidando das plantas sem dá atenção a ninguém, como se a vida presente não lhe interessasse. Na véspera do jogo do Brasil na Copa do Mundo/2002 ele bateu na minha porta, perguntou se eu iria ver o jogo e me convidou para fazer parte de um grupo de pessoas, inclusive alemães, que iria ver o jogo. Agradeci, e fiquei nervoso pela maneira como ele me olhava, querendo mais conversa, enquanto segurava a porta esperando que ele fosse embora. Quando ele foi, sentei no sofá e chorei compulsivamente. Por que voltamos a nos encontrar ambos em pele de homem? No dia seguinte amanheci com febre, desanimado e não fui trabalhar por absoluta falta de forças.

O administrador bateu na porta para avisar que o táxi que eu havia contratado estava lá fora esperando, como era habitual. Disse-lhe que dispensasse e que estava com febre. Em minutos ele dispensou o táxi e voltou com remédios para febre. Muito solícito, perguntou se desejava encomendar comida já que não cozinhava porque comia em restaurante perto do trabalho. Concordei. Ele encomendou a comida por telefone e disse, em bom e sonoro inglês – a nossa língua comum: fulano, filho do proprietário, também está acamado, com febre. Depois de acompanha-lo até a porta, sentei-me na cama e rezei profundamente. Senti uma espécie de sono e deitei. De repente, materializou-se um homem em frente à cama, disse que não me preocupasse com nada, fosse com calma, resolvesse as pendências com o exercício do perdão e que, com relação à febre, ele iria colocar um remédio no meu corpo. Senti um perto no pé e adormeci. Acordei com o administrador chamando para almoçar. Tinha dormido uma hora e quarenta minutos, mais ou menos.

O administrador é casado mas não consegue ter filhos. Por que? Todas as vezes que ele me dava as costas eu repetia mentalmente: eu lhe perdôo! No dia do jogo do Brasil tive que arranjar algo para fazer e bem longe de casa. Lembrei de uma livraria que havia descoberto em um jornal e fui lá. Quênia é ex-colônia inglesa e as principais livrarias são cheias de livros em inglês, caros e raros, muitas vezes sem público. Fui direto a uma prateleira onde havia livros budistas e encontrei lá verdadeiras jóias. Daquele dia em diante virei freguês assíduo, lendo a uma velocidade que me surpreendia. Meu nível de compreensão estava aguçado. No final dos oito meses havia lido 102 livros. A leitura mudou meu padrão vibracional e talvez por isso o rapaz teve que viajar a serviço para costa do Oceano Índico, bem longe de mim. Será que eu estaria fugindo dos fatos ou teria que enfrentar e contar tudo que sentia? Valeria a pena acordar todos os sentimentos envolvidos em todos nós ali reunidos? Trazer de volta um passado triste? A resposta na minha cabeça era sempre não! Enquanto isso, o contato com espíritos aumentou.

Os mentores apareciam em sonhos, ao vivo e em cores e me davam verdadeiras aulas. As viagens astrais se intensificaram e todos os meus caminhos foram abertos, inclusive comecei a trabalhar, nas horas vagas, como terapeuta – o que não havia programado. Conheci terapeutas indianos, tibetanos e chineses. Eram impressionantes aqueles contatos, no meio da África, exatamente com culturas que não eram africanas e que me puxavam de volta aos ciclos orientais Para minha alegria, conheci uma mestra indiana ligada à fraternidade de Kuan Yin, que não sossegou enquanto até me iniciar. Uma nova amiga chinesa me surpreendeu com dois presentes de uma só vez: uma imagem de Kuan Yin, minha predileta (Deusa chinesa da Compaixão e do Perdão) e outra de Kuan Kun (protetor espiritual chinês). Imediatamente organizei um altar e passei a realizar orações e a recitar mantas, perdoando e desfazendo todos os laços que me prendiam a quem quer que estivesse envolvido com aquela vida passada e que por obra do destino estávamos reunidos ali. Torneiras abriam-se sozinhas e lâmpadas queimavam com freqüência. Eu não desistia, exercitei à exaustão os exercícios de perdão, em voz alta, junto com orações e mantras, dirigidos a todas as pessoas daquele lugar, uma por uma. Mudei a alimentação só para frutas, legumes e peixes. Nada de sexo nem de bebidas. Disciplina e oração.

Afinal, não é todo dia que a gente tem a oportunidade de apagar o passado sem dor. Ao final dos oito meses, quando minhas malas estavam na porta do apartamento esperando o motorista que me levaria até o aeroporto, um dos empregados entregou-me um pacote em nome do filho dos proprietários: cinco caules da árvore africana chamada “dama da noite”, que brota suas flores ao anoitecer. Lembrei que certa noite, ao chegar em casa, a árvore estava repleta de flores, inundando todo o pátio com seu maravilhoso cheiro. Larguei minha sacola no chão e comecei a tocar nas flores. Minutos depois o rapaz chegou, saudou-me, disse o nome da árvore e também que ela era comum naquela região africana. Não alimentei o diálogo. Segurei os caules até próximo ao aeroporto, pedi ao motorista que parasse e os devolvi à terra. Mentalmente dei por encerrado aquele ciclo de minhas vidas, agradecido pelas pessoas maravilhosas que conheci, pelos laços que desfiz e pelos 102 livros espiritualistas lidos, graças a Deus. Todas as vezes que olho para céu limpo e azul do Planalto Central eu me recordo que o passado é para ser deixada para trás, sempre. O futuro ainda não chegou. O que de real existe é o presente, aqui e agora, hoje. E eu tenho a minha vida em minhas mãos para realizar todas as transformações que desejar, com vontade e fé. jjoacir@yahoo.com

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