Jota e Jury

Por Valeria Sasser, jornalista 

Lá pros lados do Nordeste, numa cidadezinha miúda, encravada no meio do sertão da Paraíba, havia um sítio de bom tamanho. Essa gleba começava no riacho que corria à leste, juntava-se ao norte e ao sul com terras alheias e à oeste, beirava a estrada que ia até o litoral.

Havia nesse sítio, uma casa de formas modestas, mas de ambientes confortáveis, ou pelo menos confortáveis à maneira do sertão. A vasta varanda de cimento vermelhão polido com cera, varava de ponta à ponta a fachada da casa e redes de várias cores ali estavam para o deleite dos meninos da família, nas tardes de preguiça e calor intenso, como só o sertão tem.

Um desses meninos era o Jota. Um menino de pele morena, pequenino, barrigudinho, de pernas fortes, com a cabeça grande típica do lugar e olhos muito brilhantes. Jota era o mais novo dos irmãos e sempre, ou era deixado de lado dos folguedos de seus irmãos mais velhos, ou era usado como gandula ou poste. Isso sempre o irritava muito, mas naquele lugar, naquela idade e com sua baixa estatura, reclamar era inútil.

Como o tempo demorava muito a passar naquelas bandas e todo desconforto parecia durar uma eternidade, Jota decidiu juntar-se aos adultos na lida diária para ter um pouco de sossego. E assim o fez.

Nos primeiros dias, tudo era novidade: o arado, o broto novo saído da terra escura, o sol queimando a boca e os ombros, a comida fria, mas gostosa que a mãe mandava entregar, o céu incandescente no pôr-do-sol. E havia também Jury, uma égua mansa, manchada de branco, que os trabalhadores usavam para o transporte de ferramentas e alguns ítems de necessidade no campo. Jury logo se apegou ao Jota, e ele, à ela. Mas era um relacionamento de amor e ódio.

Jota se protegia do sol embaixo de Jury e essa andava para o lado para deixá-lo descoberto. De propósito. Jury bebia água e respingava em Jota. Jota comia banana e atentava a égua com a casca quase vazia de fruta. O cheiro da banana deixava o animal louco, porque ela adorava bananas. Jota comia a fruta até quase o toco, olhando no olho do animal, que por sua vez pousava o olhar fixo na banana. Ele, então, dava o cotoco de banana para ela, que comia com tanta voracidade que quase lhe mordia a mão. E ele ria!

Ainda assim, um não vivia longe do outro.

Um dia, não conseguiam equilibrar uma certa carga nos jacás de Jury e bastava ela dar dois passos para ficar estressada com o desequilíbrio em cima de si e parar relinchando irritada com os jacás tortos no lombo.

Até que um peão do sítio olhou pro Jota, olhou para o jacá, tirou o chapéu, coçou a cabeça, olhou de novo para os dois e propôs: “Porqui é que num butamu o minino Jota nu outro jacá de contra-peso? Ele mi pareci du tamanhinho exato di contra-peso!”

E assim, o pai de Jota pegou o seu filho e, depois de mandar mudar toda a carga para um jacá só, colocou o menino no outro.

Perfeito contra-peso! E lá foi Jury com o Jota encarapitado em seu jacá, olhando para o menino com olhos de égua curiosa a cada dez passos, porquê, afinal, esse era um ponto de vista totalmente novo para ela, que sempre tinha Jota ao seu lado, mas no chão.

O Jota, esse ficou com um pouquinho de medo na primeira vez, depois aprendeu a dobrar as perninhas de modo confortável e passou a desfrutar do passeio, afinal menino sertanejo não tem medo de coisa pouca.

Jury, seguindo seus instintos maternais nunca exercidos porque ela era híbrida, começou também à cuidar e a desfrutar de seu pequeno companheiro no lombo. Mesmo quando não havia carga, ela relinchava, ficava inquieta, mostrava os dentes até que Jota subisse e se encarapitasse no jacá. Daí, Jury saía, pode-se dizer, saltitante de felicidade. E Jota também apreciava esse amor do animal por ele.

Assim, Jury e Jota ‘Contra-Peso” ficaram conhecidos por aquelas bandas por conta dessa amizade sincera e profunda de que desfrutavam. Até que Jota cresceu, Jury envelheceu e a vida os levou em diferentes direções, como sempre acontece com meninos sertanejos e éguas híbridas.

Repasse de e-mail ajuda o crime organizado

INTERNETE 

Há muito tempo que apago, sem ler, e-mails que recebo com anexos, especialmente de pessoas que não conheço, que eu não esteja esperando ou que o assunto não esteja entre os que trato publicamente. A razão disso é simples: há um exército de pessoas bem ocupadas e cheias de maldade que passam o dia ao computador procurando uma maneira de enganar, roubar identidades, senhas, cartões de crédito e um dos caminhos é pescar as pessoas que vivem na internete abrindo tudo que é site e copiando coisas para repassar, tanto fotografias como textos. Essas pessoas também são alvo fácil do crime organizado que age pela internete, de várias formas. Uma delas é a oferta de emprego ou parceria internacional, com ofertas iguais à chamada “lei do Gerson”, quem lembra? Outra forma é pescar as pessoas que buscam namoro pela internete. Para isso elas são capazes de tudo para envolver o “parceiro”, com mil e uma promessas, todas fantasmagóricas, incluindo promessas do amor e casamento. Verdadeiras gangues organizadas fazem esse trabalho e o alvo dessas gangues são pessoas solitárias, sozinhas, carentes, que passam horas ao computador procurando parceiros ou acessando sites criminosos com rosto de auto-ajuda. Textos bonitos, geralmente de “autor desconhecido” ou “anônimo” trazem escondidos vírus e programas espiões que copiam todas as senhas dos computadores, dados pessoas de identidade, contas bancárias, cartões de crédito etc.A sofisticação das gangues é tão grande que recentemente foi descoberta nos Estados Unidos uma rede de “laranjas” que anunciavam através dos números especiais começados por 0800, abertamente. Também aparece todos os dias em jornais e televisões casos de pessoas sozinhas, a maioria mulheres acima de trinta anos, que trabalham “inocentemente” para grupos criminosos com sede em países africanos como Nigéria e Benin. A tática usada é a seguinte: eles entram naqueles grupos de procura por parceiros e namoro, do tipo “alma gêmeas”. Respondem aos anúncios das pessoas que procuram parceiros. Se for mulher, mandam fotografia de um homem bonito na mesma idade, e passam a mandar emails amorosos e apaixonados. Se for homem, a mesma coisa, mandam logo a foto de uma bela mulher, as vezes fotografada na rua. A pessoa cai e logo se apaixona. A pessoa carente logo acha que tudo aquilo é verdade. Com o tempo e a persuasão, os criminosos conseguem que a pessoa repasse número de telefone, endereço, número de cartões de crédito e de contas bancários. O maior fraude envolvendo cartões de crédito e conta bancária também ocorre com aqueles e-mails procurando “parceiro” ou “representante para firma internacional”. As pessoas simplesmente acreditam nessas ofertas miraculosas e caem nas mãos do crime organizado. Geralmente os emails falam de uma pessoa em país islâmico ou africano que tem “uma grande” quantidade de dinheiro em um banco do país onde mora e precisa de um parceiro com conta bancária para “transferir” a suposto fortuna. O dinheiro seduz e na medida que a pessoa responde a “equipe” localiza o camputador da pessoa e copia tudo. Faz uma semana que uma grande rede de televisão norte-americana mostrou um documentário sobre este assunto, na maioria envolvendo homens e mulheres solteiros, sozinhos e carentes e procurando parceiros na internete. O esquema montado por uma gangue localizada no minúsculo país africano chamado Benin, mas administrado por nigerianos, roubava e comprava cartões de crédito roubados.  A gangue fazia compras na internete com os cartões roubados e mandava entregar na casa das pessoas (“laranjas”). As pessoas recebiam os pacotes achando que era o parceiro ou o grande amor da vida delas que estava já se preparando para o casamento futuro. Os supostos amores apaixonados convenciam as pessoas de receber os pacotes e despachar novamente para endereços na África e até na Suíça, pagando, claro, a remessa aérea.        

Algumas das vítimas chegaram a pagar a remessa para esses países iludidos com a promessa de que o “parceiro” pagaria a conta total no final de cada mês, e ainda deixaria 20 por cento de lucro sobre o valor de cada pacote remetido. No final do mês, depois de inúmeras encomendas re-despachadas para o endereço indicado, o “parceiro” desaparece ou manda email dizendo que está muito doente em um hospital e pede mais dinheiro. Uma das vítimas esvaziou toda a sua conta bancária, no valor de 40 mil dólares, pensando que iria receber cinco vezes mais o valor como foi prometido pelo suposto “parceiro”. É impressinante como entre essas vítimas haviam pessoas bem instruídas que, na ilusão do lucro fácil, além de ficarem milionárias também teriam o amor de suas vidas e, acima de tudo eram pessoas instruídas, isto é, inocentes mas nem tanto. Para você ter uma idéia, um dos mais organizados países africanos é o Quênia, onde trabalhei nove meses. Não existe transporte urbano público, não existe rede de esgotos, muitas ruas não têm nome e nem número nas casas, imagine Benin e Nigéria. Autoridades norte-americanos dizem que a Nigéria é hoje o maior centro de criminalidade no continente africano, onde as pessoas boas e simples não têm como lutar contra as gangues organizadas. Lá estariam montadas as maiores redes de falsificadores de papéis e documentos de toda espécie, de nota fiscal a passaportes e moedas.      

 Também é impressinante como pessoas de bom coração tem a coragem de ficar horas na internete repassando a amigos e-mails com estórias fabulosos, falsamente cheias de emoção, contando histórias tristes, as vezes com fotografias maravilhosas e cheias de virus invisíveis! Um exemplo disso recebi esta semana: o e-mail, de uma pessoa que conheço, boa de coração, repassava o anúncio de que um hospital no interior de São Paulo estava com “excessos de córnea”, que essas córneas estavam sendo “jogadas fora” porque não tinha candidatos aos transplantes. O anúncio é assinado por um médico. Liguei no número indicado. Era mesmo de um hospital, mas fui informado que tratava-se de um anúncio falso e que o suposto médico estava sendo processado pelo hospital já há quatro anos. Quer dizer: faz quatro anos que pessoas de coração bobo repassam esse e-email sem sequer se darem ao trabalho de ligar para o hospital e checar a veracidade dele. Você acha que algum hospital no Brasil está jogando córneas fora?       

 A única forma plausível de manter o coração bom e ajundando as pessoas é ao vivo e em cores. Há inúmeros hospitais, creches e escolas precisando de voluntários e pessoas de coração bom para ajudar, bem perto da sua casa. Ao invés de ficar em casa grudado na internete ajudando ao crime organizado internacional a ficar mais rico com o sangue e o suor de pessoas honestas e boas, por que não se envolver nos programas sociais que o Brasil tanto aprecia? Energeticamente, esse trabalho de repasse de falsos e-mails, com falsas e comoventes estórias, é compra de carma negativo. Ao infectar de vírus e de programas espiões o computador de um amigo ou de uma pessoa da sua lista de e-mails você está prestando um desserviço e prejudicando a vida das pessoas achando que está “repassando” um grande texto anônimo ou uma bela fotografia manipulada por gangues internacionais. Há muitas maneiras positivas de lutar contra a solidão, a sobra de tempo e um parceiro que pode ser o “amor da sua vida”: ao vivo e em cores, olho a olho, cara a cara, enfrentando gente porque sem isso a vida perde o objetivo. Uma terapia faz bem a saúde e ajuda a combater os sintomas e a enfrentar a solidão. As vezes a solidão é interior, e a cura dessa dor não está na internete, que é uma das mais revolucionárias invenções humanas. Como tudo que é humano, a internete não está livre dos ratos que vivem na escuridão dos esgotos procurando um bom pedaço de queijo! Você quer continuar a trabalhar para eles? (*) José Joacir dos Santos é jornalista e doutor em psicologia oriental jjoacir@yahoo.com

A vida é do jeito que a mente quer

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Estava em um quarto escuro com outras pessoas e pelas brechas da porta via os dedos de um homem forte, querendo arrombar a porta. Percebi que estava em viagem astral quando me perguntei se era um sonho. As outras pessoas dentro do quarto morriam de medo daquele homem que passarei a chamar de Igor. Estavam todos aprisionadas mentalmente a ele. Compreendi que a minha missão era resgatar essas pessoas, inclusive Igor, que tinha uma forma física monstruosa, com grossos cabelos nas mãos, semelhantes a cabelo de cavalo. Meu raciocínio funcionava em uma velocidade acima da natural, com consciência e percepção de tudo o que acontecia.
Prestes a arrombar a porta, uma arma parecida com faca se materializou na minha mão. A ponta era fina, torta e cabia nos buracos da porta. Com força cortei dois dedos do agressor, que ficou mais enfurecido e tentou enfiar o braço pelas brechas para me pegar. Sem pensar, enfiei a faca pela porta na direção da garganta dele e aceitei em cheio. Ele desmaiou. Neste momento a minha missão acabou. Quando ele desmaiou, toda aquela energia que materializava o corpo dele se desfez. Abri a porta e todas as pessoas puderam ser assistidas imediatamente antes que ele recuperasse a força mental. Aquela faca era plasmada com o mesmo material do corpo mental dele para dar a impressão que era uma faca de verdade, como as que ele conhecia e tinha usado contra pessoas inocentes. O mental dele só reconhecia o que era material e um dos medos dele, talvez de outras vidas, era ser degolado. A minha energia foi utilizada para penetrar no medo, fraquejar a força mental e, nesse intervalo de milésimos de segundo, cortar os laços que prendiam aquelas pessoas a ele pelo medo. O medo como energia comum dos dois lados desta história foi utlizado pela espiritualidade para facilitar o acesso ao mental de ambos e libertá-los.
O quarto encheu de luz e eu saí. Era de madeira, antigo, no meio de uma floresta. Pude ver, e figuei emocionado, os inúmeros trabalhadores espirituais que estavam nas redondezas, cada um com uma função diferente, inclusive a de me tirar do lugar se não tivesse sucesso a minha missão. Assim como os guarda-costas de uma autoridade do lado de cá, esses trabalhadores estavam todos camuflados para parecer pessoas comuns naquela região e não levantar suspeitas. Enquanto observava, meu cordão prateado foi puxado a uma certa velocidade e eu pensei que já ia ser devolvido ao meu corpo, mas não fui.
Até chegar no próximo destino, pude me divertir com chuva, neve e frio. Via cair a neve e a chuva, sentia que fazia frio mas nada me afetava. Neste momento eu me deliciava em ver esse fenônimo com toda nitidez e consciência. Voava tão próximo às casas que podia ouvir diálogos e outros sons das pessoas. Por um momento tive vontade de parar para ver algumas cenas mas quem me puxava me lembrou imediatamente que eu não estava fazendo turismo.
Fui “solto” em um lugar onde moravam freiras ou monjas, não deu para saber exatamente se eram católicas ou de outra religião. A irmã que veio ao meu encontro, a “superiora”, não me olhou de frente e cobrindo o rosto disse: eu não sabia que você era chinês… Eu, chinês? – respondi. Ela riu, olhou para mim e aí compreendi a surpresa dela porque sua face parecia de japonesa. Mesmo no astral, a herança genética tem influência e eu compreendia que isso fazia parte da richa inútil entre chineses e japoneses até hoje. Outra irmã se aproximou. Olhou para ela com ar de repreensão e ela imediatamente virou para mim e disse: muito bem, o meu código é tal e tal — Um número imenso, com letras e números, parecendo código de barra de mercadorias. E o seu é tal e tal, não é? Não sei, é – respondi. A outra irmã olhou novamente para ela e deu outro empurrão. Compreendi que a interferência da outra era para quebrar a insegurança e a rigidez mental da irmã que me recebia, que era acostumada à rigidez da disciplina da organização religiosa que pertencia. Estava calmo, mas sabia que o tempo é ouro nesses momentos. Por fim, a irmã me levou até um poço, desses de água, e disse: eu nem quero chegar muito perto deste local, mas é aí. Enquanto colocava a cara no buraco a irmã saiu correndo do local.
Mal deu tempo de enfiar a cara no buraco e fiquei logo sabendo qual era a minha missão: Um ser masculino emergiu do buraco, inchado, branco, e tentou me amedrontar fazendo caras e bocas. A cara dele se transformava nas feições mais horripilantes possíveis e ele me agarrou dizendo que ia me fazer “em pedacinhos”. Grudado ao corpo dele, comecei a falar sem parar. A minha missão era tentar convencê-lo a sair do lugar onde ele tinha morrido e de onde atormentava a vida daquela comunidade, inclusive impedindo que o poço fosse utilizado. Quando disse que ele tinha morrido, ele mostrou o rosto real e disse, com sarcasmo: eu, Victor, morto? Senti ele me apertar como se fosse me esmagar. Mantive o meu discurso sobre morte, reencarnação, tempo que ele estava, que não tinha medo dele, que os apertos dele não funcionavam, que era tudo mental, que ele tinha se aprisionado por medo e covardia etc. Quando mais ele me apertava mais eu falava, parecendo uma gravação. Não sei o que aconteceu porque fui puxado e colocado de volta no meu corpo. Na minha cama, as imagens ainda eram muito nítidas na minha mente e tive que mandar Reiki para aquela situação. Levantei da cama completamente descansado, tranquilo, ciente de que tinha trabalhado e que era maravilhoso poder fazer isso. Não foi fácil para mim perder o medo de enfrentar essas situações, mas a ajuda dos nossos protetores é enorme.
Essa experiência vem a confirmar a importância de se ter uma mente sadia, equilibrada, vigilhante, centrada nos aspectos bons e positivos da vida porque a gente nunca sabe a hora exata de ir para o outro lado da vida. O que a gente sabe, com certeza, é que a gente leva a mente do jeito que ela estiver conectada aqui e agora, mais nada. Se você morresse agora, neste instante, ao que e a quem você estaria atrelado? Como está a sua mente? O que anda pensando? Onde está colocando o seu foco de vida? Em quem você pensa o tempo todo? Que sentimentos você guarda na mente? Seja qual for a resposta, é o que você será quando sair do corpo atual definitivamente e será com essas imagens que você cria ou que deixa interferir no seu ser que você vai ter que lidar sozinho. Qual será a história das pessoas acima que usavam o medo para manter os seus próprios medos? O que você está pensando agora? José Joacir dos Santos é psicoterapeuta, psicossomatista, jornalista. jjoacir@yahoo.com

O que fazer para limpar a energia do carnaval?

O carnaval é uma das manifestações populares que mais se aproxima de uma definição do povo brasileiro, que nasceu para viver em uma sociedade livre, tolerante e democrática, sem dúvidas. Privar a juventude dessas festas é um erro. Educá-la a se conectar com a alegria saudável da festa é uma obrigação dos pais e responsáveis, embora muitas famílias ainda não saibam que a raiz da unidade familiar reside no diálogo franco, aberto, honesto, com uma pitada de amor incondicional entre todos os membros. A energia do carnaval torna-se muito pesada com o passar dos anos. Pesada significa densa, palpável, como o cheiro do cigarro nas roupas íntimas após uma noite na boate. Esse tipo de energia não é visível ao olho nú mas algumas pessoas podem senti-la no físico em forma de barulho no ouvido, saudade exagerada da folia, depressão, dificuldade de voltar à rotina do trabalho, menstruação irregular, vontade exagerada de fazer sexo, insônia, dor física indefinida, vontade de chorar sem motivo aparente, entre outras. Algumas pessoas começam a querer viajar para as famosas micareis, deixando para trás dívidas, compromissos, pensando poder reproduzir aqueles momentos do carnaval. Essas vontades podem não ser suas e sim a energia de outras pessoas grudada em você.

            O pensamento é o melhor e mais eficiente transmissor que existe. Imagine uma multidão como aquela das ruas de Salvador pensando ao mesmo tempo, no mesmo lugar, e sendo conduzida a pensar com os comandos dos trios elétricos. A temática das canções é basicamente sexo. As pessoas se vestem de forma provocante pensando em sexo. O som dos tambores vibra na intensidade da tonalidade do chácra básico, que fica entre o órgão genital e o ânus. A vibração que é gerada aí é puramente sexual, densa, física. É a que abre caminho para os caboclos cachaceiros incorporarem nos terreiros. A mistura de sons e tons faz o conteúdo emocional da multidão desmoronar como um sorvete fora da geladeira e o “líquido” desse sorvete é absorvido por cada pessoa de acordo com o conteúdo emocional individual. O uso de drogas, a falta de sono e a alimentação irregular aceleram qualquer processo, que pode ser mais intenso em algumas pessoas, chegando aos desmaios ou a perda do rumo, da direção, do senso crítico. Sexo é ótimo, a dois, com história a contar, com prazer, alegria e segurança de fazer.

            A intensidade dessa convivência faz a energia individual se misturar com a coletiva, de forma que quando acaba o carnaval e as pessoas viajam para as suas vidas levando consigo essa energia como uma mala invisível, que permeia por muito tempo no corpo, na mente e no espírito de cada uma delas. A cidade fica um tempo sob um silêncio estranho, como se tivesse ainda cheia de gente mas não há ninguém. Nos meses seguintes ao carnaval você vê pessoas que saem no meio da noite com o som do carro ligado no mais alto volume com as músicas do carnaval da Bahia, que está a quilômetros de distância daquele estado e o calendário já andou bastante. Se, passado o carnaval, você não consegue tirar da cabeça a vontade de largar tudo e ir embora para Salvador, ou de compar uma cabana e ir morar naquela praia, ou de trazer aquele baiano bonito que lhe beijou sem saber o seu nome, ou aquela garota linda que foi para a sua cama sem nem perguntar o endereço do hotel, então você precisa reciclar a sua energia.  Junte a essa informação o fato de você não conseguir arranjar, na sua própria cidade e nos dias normais da vida, um companheiro. Então, o seu emocional está capenga mesmo e o único caminho é a terapia. É possível que o destino de alguém seja encontrar o amor da vida na multidão de salvador? Sim, tudo nesta vida é possível. Acontecendo algo semelhante, deixe que o tempo e a distância definam bem a relação, pelo menos um ano, para uma tomada de decisão. Sinto dizer que já existem os amantes profissionais especializados na junção carnaval-pessoa carente à vista, iguais àqueles dos chats da internete — unicamente por dinheiro…

            O que você pode fazer imediatamente depois do carnaval é tentar reaver a sua própria energia, realimentar o sistema de defesa do organismo e redirecionar o seu pensamento para a sua própria vida, de forma construtiva e saudável. Não se esqueça que você não pode ver o perfume no ar mas ele existe. Tudo que existe na terra contém formas diferenciadas de energia. As pessoas mais sensíveis, mesmo se refugiando numa praia ou fazenda ainda assim sentem a energia do carnaval de outras cidades. Não há como fugir da gente mesmo nem do inconsciente coletivo!

Muita gente volta do carnaval com hepatite, HIV, herpes, sífilis e outras doenças invisíveis porque tomou banho de rio, de praia poluída, de banheiros enferrujados, beijou desconhecidos, bebeu sem saber qual era a bebida etc. Então, se você se submeteu a algo parecido, faça pelo menos exame de sangue, fezes e urina. Depois disso, comece a se tratar pela alimentação. Coma as frutas da época ou faça suco, com prioridade para aquelas produzidas na sua própria região. Esqueça aquelas hortaliças e verduras dos supermercados porque elas são produzidas a quilômetros de distância e processadas com aqueles conservantes para parecerem frescas e verdes. Aquilo que não tiver o cheiro original você não compra, por exemplo: manga sem cheio não amadureceu no pé; Coentro sem cheiro tomou banho de conservante. Claro, se você fuma já não sente 100% dos cheiros originais. Compre tudo orgânico, nas pequenos produtores ou nas feiras. Essa regra não se aplica ao limão, aquele da caipirinha, porque ele tem defesa própria e você precisa tomar pelo menos um copo de suco de limão por semana, só água e o sumo, de preferência de manhã, em jejum. O sumo de limão com água alcaliniza o organismo e não danifica a flora intestinal, como muita gente erradamente pensa. Quem danifica é a casca do limão, que é ácida. A energia do limão é restauradora e protetora. Vá para a cama o mais cedo que puder. É bom lembrar que tudo que entra pela boca, inclusive o beijo, vai para algum lugar dos nossos corpos físicos e sutis, quer você queira ou não, tenha consciência ou não.

Faça ginástica, ioga, Reiki, tome passe e banho de rosas. Reze da maneira que você souber, mas não deixe de fazê-lo pelo menos uma vez ao dia. Se não tem tempo, faça enquanto dirige. Quem lhe olhar de fora vai pensar que você é maluco, falando sozinho, mas, o que importa o que os outros pensam? Adicione uns dentinhos de alho na carne e pequi no arroz. Coma mandioca, pepino com casca, brocoli quase cru, alcachofra, tofú, soja, castanha do Pará e deixe no esquecimento, por um bom tempo, as carnes vermelhas, feijão e massas. Esqueça, se possível para sempre, a água gelada. Chupe carambola, manga espada, laranja com cenora e seja generoso na melancia com acerola. Deixe que os estrangeiros incutam na cabeça dos bobinhos que soja não é bom para a saúde e coma tudo de soja! A energia sutil da soja ainda não é muito conhecida, mas os seres espirituais já sabem para que ela serve, e a gente vai precisar muito dela nos dias que virão, com as mudanças climáticas. Não espere que “descubram”. Coma pelo menos uma vez por semana e me fale de rejuvenescimento daqui há alguns anos. Não tem nada errado com o carnaval e você já pode começar a economizar para o próximo. O que está ficando pesado a cada ano é aquilo que você viu nas ruas escuras, nos becos, no luxo de algumas escolas de samba e que, a nível energético, não se separa dos foliões que pulam sob os holofotes das grandes avenidas e clubes. Você pode não ter visto nada, mas estava tudo lá. Ninguém está imune, mas você pode fazer a sua parte. (*) José Joacir dos Santos é psicossomatista, psicanalista e mestre em medicina oriental. jjoacir@yahoo.com

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