Câncer: a agonia de Joana
12/03/2009 at 19:07 (Psicossomática)
Joana tem 92 anos e luta contra o câncer, descoberto tarde demais. Dorme pouco, come pouco e sente muita dor. A vida inteira ela foi daquele tipo teimoso-sabe-tudo-e-faz-tudo-do-próprio-jeito. A sua opinião era sempre correta, sem negociação. Os seus julgamentos também eram implacáveis. Uma vez caído na sua antipatia, era para sempre. Flexibilidade é uma palavra que nunca existiu no dicionário individual de Joana. Nunca foi uma pessoa má, mas era notável a dificuldade de se relacionar com o mundo exterior, sem conseguir transmutar suas raivas e frustrações em compaixão, perdão e amor. Sem uma sólida noção de familia, porque cedo da vida teve que criar seus quatro irmãos, Joana foi incapaz de superar esses abandonos familiares e reconstruir a sua própria família em bases amorosas e de confiança porque a vida se vive um dia de cada vez. Talvez o trauma de ter sido abandonada pela mãe, que saiu de casa para seguir outro homem, e de ver seu pai morrer de tristeza e humilhação por ter sido traído, fez Joana construir para si mesma uma máscara de pedra de mármore branco, impecável e frio.
A aparência física frágil de Joana nunca escondeu que sua pedra de mármore era oca, como são todas as máscaras. Qualquer ventania produzia um som alarmante, de falta de firmeza, medo do novo, do desconhecido, do que não estava em suas mãos, de faltar, de amar, de largar para trás aquilo que já tinha passado e de seguir em frente dando uma chance nova a cada dia. Aos 92 anos, ela ainda lembra das máguas de infância e as repete sempre que pode e continua firme nos seus julgamentos porque nunca descobriu que a vida se renova e que todos os julgamentos são precipitados e inadequados. Até em relação aos filhos, seus padrões de seleção foram sempre os mesmos e algumas frases eram conhecidas e repetidas: “Enquanto estiver debaixo do meu teto, comendo da minha comida, tem que ser do jeito que eu quizer”. “A porta da rua está aberta”. Embora não sendo religiosa, Joana adotou algumas frases bíblicas de conveniência, que ouviu em algum lugar, por exemplo: “árvore que não dá fruto deve ser cortada”.
Joana hoje agoniza as dores do câncer sozinha, mesmo porque dor não se transfere. Nenhuma daquelas pessoas que ela idolatrou a vida inteira está hoje prestando qualquer ajuda em seu leito de dor. Como estarão aquelas que ela magoou e odiou? Ela sempre idolatrava pessoas de seus relações distantes, fora da família, e sempre teceu julgamentos fortes contra os mais próximos, até da família. Hoje, na beira da sua cama, não há vizinhos visitando, nem flores, nem troféus. Netos e bisnetos estão também ausentes porque não sabem que os laços karmicos de Joana são também seus já que ninguém nasce em uma família por acaso. Alguns sequer terão imagens positivas para repassar para seus netos e bisnetos se não reagirem e redescobrirem que o segredo da vida está no amor e que o amor é “o fogo que arde nem doer”, que é renovável, reinventável, reconstituível, reaceso. Todo mundo envelhece, embora só alguns possam ter netos e bisnetos. Aquelas pessoas que Joana tanto idolatrou não se lembram ou não sabem que Joana dedicou parte da sua energia vital, um dia, em vão, para as pessoas erradas, como atores de televisão. Joana talvez não tenha a consciência de que jogou palavas de adoração ao vento, em momentos errados de todas as estações.
Seu corpo não seguiu o vigor de sua mente. Seus arrependimentos batem em caixas postais esvaziadas pelo tempo porque os endereços foram modificados pela vida. Seus laços de amor são escassos e incertos porque ela nunca quiz reinventar o amor. Os filhos se dividem entre amados e odiados e, equivocadamente, espalham entre os seus que a vida é assim, um partido de amados e outro de odiados, sem saber que estão repetindo trilhas fracassadas, de heróis incapazes de perdoar ou de se dar a chance de perdão. Netos e bisnetos se degladiam com memórias tristes e se dividem em partidários dos problemas emocionais de seus pais sem compreender que todo mundo tem problemas mas nem toda pessoa tem facilidade de trabalhá-los e resolvê-los porque é muito mais fácil e conveniente culpar os outros dos próprios problemas. Ninguém tem a obrigação de seguir os caminhos mal traçados de pais, avós, bizavós etc. Há jogadores que fazem gol e há outros que são apenas jogadores. As capacidades jamais serão iguais para todos.
As flores ainda nascem no jardim de Joana, querendo provar que a vida não é aquilo que a gente vê a um palmo do nariz. Passarinhos celebram um dia de cada vez no velho abacateiro no quintal. Joana viveu a vida inteira pensando que era ela quem mandava na própria vida, sem saber que coisinhas pequenas da vida que a gente não digere formam o lastro para a criação de doensas psicossomáticas como câncer. Agora, o corpo não lhe obedece e a vida parece que assume o controle porque há a hora de nascer, de viver e de morrer. Aparentemente, só existe uma opção para o poeta: pedir orações para o espírito de Joana. José Joacir dos Santos é doutor em Psicologia

