As cenas do filme eterno se repetem

my-carpets-stolen-in-riade-saudi-arabia.jpgVIDAS PASSADAS * Por José Joacir dos Santos 

É muito interessante a dinâmica com que os assuntos são encaminhados para o meu trabalho. Por exemplo, quando aparece um dependente químico, em sequida vem um grupo. Quando o problema é conflito familiar, vem cinco ou seis clientes com o mesmo assunto, e assim por diante. Os textos também. E o assunto esta semana está sendo reencarnação, karma, vidas passadas. E não há um só minuto de descanso. O trabalho é dia e noite. Quando o corpo dorme, o espírito trabalha e é levado a ver o passado, meu e de outros, derrubando por terra conceitos, preconceitos, afirmações e crenças. Dia sim dia não estou na China, aliás, nas Chinas, porque cada vez é uma região completamente diferente, como se hoje estivesse na Paraiba e amanhã em São Paulo. Nem sempre as sistuações são boas ou prazeirosas. Nos seis anos desta vida que vivi em Pequim, reencontrei pessoas das vidas anteriores e eu pensava, até ontem, que eu era quem tinha dívida com todas elas. Pois é, pensava. Assisti, ontem, bem de perto, uma de minhas vidas em que viajava na Rota da Seda até o Egito, como negociante de tapetes, e me foi revelado o caráter das pessoas que viviam comigo naquela época, cuja convivência se repetiu em várias vidas, inclusive na atual, na eterna roda do Karma. A grande vantagem são as minhas especialidades acadêmicas. O fato de ter estudado, nesta vida, a mente humana, a emoção e a natureza do espírito, torna tudo mais fácil. Sou tratado e cobrado pelo que conheço, estudei e sei.   Em termos emocionais, não é fácil voltar a encontrar as pessoas, com sentimentos mistos, ver o pai, a mãe, mulher, filhos, empregados, colegas, chefes, cada um se revezando em uma posição diferente das demais vidas, como um redemoinho que não se livra de si mesmo. Nesta noite, a grande surpresa foi reencontrar uma pessoa que muito me ajudou quando vivi em Pequim, nesta vida, e saber que ela já esteve comigo em outras vidas. Nesta revelação ela era um empregado de confiança que roubava e forjava assaltos contra mim e meus negócios, naquela vida. Certa vez a caravana inteira foi roubada e os assaltantes foram tão cruéis que me obrigaram a continuar a jornada despido. Houve mortes. Nesta vida, essa pessoa veio ao meu encontro para redimir o seu Karma e, mais uma vez, fracassou. Desta vez, quem era o negociante era ela. Em 1991, caminhando em Pequim, ela se ofereceu para comprar um tapete que gostei muito e estava sem a carteira. Disse não, mas ela insistiu e compramos o tapete. Uma semana depois paguei o tapete. Um mês depois, ela me cobrou o dinheiro do tapete. No começo pensava que era brincadeira mas o assunto ficou sério e veio uma ameaça. Constrangido e magoado, achei melhor pagar o tapete mais uma vez do que ter meu nome vinculado a fofocas. E o meu salário era bem contado naquela época, a Era Collor de Mello, sem chances de sobrar. A amizade foi danificada como um copo de cristal que se quebra. Antes da minha partida definitiva de Pequim, essa pessoa teve prejuízos financeiros e os segócios dela fracassaram ao ponto de ter que se desfazer de bens para pagar dividas.  Tudo poderia ter ficado como estava se não fosse a noite passada, onde tudo foi revelado sem tirar nem por. O outro detalhe, não menos importante, é que aquele tapete foi roubado juntamente com 15 outros tapetes na minha mudança entre a Arábia Saudita e a Indonésia e eu perdi tudo, em 1997. O funcionário que deveria ter feito o seguro total da mudança não o fez. O meu chefe que deveria ter cobrado justiça junto às autoridades da Arábia Saudita nada fez, assim como o outro chefe na Indonésia ignorou todo o meu prejuízo. Em Brasilia, o Departamento de Pessoal ignorou o meu drama, eles estavam preocupados apenas com suas promoções. O meu container chegou em Jacarta, Indonésia, apenas com caixas vazias e saqueadas. Naquele dia, a minha vida mudou. Redirecionei o foco, ligado a tapetes e outras coisas, influenciado pela posição que ocupava como funcionário público de um importante ministério em Brasilia, para o estudo e o aprendizado. Foi naquele dia, diante do container vazio, completamente abandonado por quem deveria me proteger, que decidi investir no meu ser espiritual eterno. Ninguém rouba conhecimento e experiência! Os copiadores de textos da internete, por exemplo, roubam apenas os textos mas não conseguem esconder que a idéia não é deles. É fácil de ver isso, só prestar a atenção nas idéias. Ninguém rouba a construção intelectual do meu ser espiritual eterno, mesmo roubando tapetes e ignorando a vida dos funcionários. Voltar a este passado foi mais um aprendizado e agradeço a quem me levou de volta, para poder ter a chance de escrever para você, leitor, e, quem sabe, se espelhar em mim e na sua história. José Joacir dos Santos é Doutor em Psicologia – jjoacir@yahoo.com

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