A Senhora de Fátima toca aos corações
13/03/2007 at 18:07 (Curiosidades)

Lúcia, Francisco e Jacinta.
Desde muito criança quando comecei a estudar e falavam de Portugal, tinha uma resistência imensa. Era um sentimento muito profundo, “inexplicável”, indefinido, e por isso rejeitei várias viagens para a terra de Camões. Em viagens de trabalho passei pelo menos quatro vezes pelo aeroporto de Lisboa, base aérea, mas nunca desejei sequer comprar alguma coisa. Hoje já sei que quando a gente tem resistência e rejeita pessoas e lugares é porque há um porção da gente na história dessas pessoas e lugares. Por outro lado, mesmo sem ser católico, a Virgem Maria passou a ser uma presença constante nos meus sonhos e visões. A primeira vez sequer tive coragem de falar para alguém do acontecido porque com certeza seria chamado de mentiroso, como foram chamados os pastorinhos de Portugal. Para aqueles que estão presos aos preconceitos impostos pelas religiões, como pode isso acontecer comigo se sequer sou católico?
Já havia manifestado o desejo de um dia ir a Fátima mas sempre pensava que seria um dia. De meados de janeiro ao final de fevereiro de 2007 fui “plugado” a Maria, a mãe de Jesus, logo eu, esse pecador… Manhã, tarde, noite, meio da noite e nova manhã não saía da minha cabeça os cânticos e orações de Maria. Como? Por quê? Então, decidi: Vou a Fátima passar o meu aniversário. Não planejei nada e até o hotel foi uma agência de viagem que escolheu. Quando desembarquei no aeroporto de Lisboa que a bagagem demorou mais de quarenta minutos para aparecer, o meu cérebro foi inundado pelas versões preconceituosas contra os portugueses, inclusive as piadinhas, impregnadas no insconsciente coletivo brasileiro por causa da história oficial. Que estou fazendo nesta terra, era uma das perguntas. Tratei de mudar os pensamentos porque sabia que aquela energia era da inquietação dos passageiros porque as malas não apareciam.
Quando o taxi parou na porta do Hotel Amazônia, na Travessa Fábrica dos Pentes, fiquei sem ânimo de sair do carro: a faixada do hotel era muito familiar e a informação que vinha a superfície era negativa. Meus Deus, que estou fazendo aqui? Era tarde para pensar. Então, paguei o taxi e entrei. Já na porta tive que soltar as malas no chão porque a minha mente se abriu como uma tela de cinema. Voltei no tempo e lembrei de uma viagem astral onde tinha vindo até este lugar mas não tinha entrado. Do lado de fora, as janelas são baixas porque o interior do hotel é abaixo do nível da rua. Lá de fora tinha visto vários pedaços de madeira trabalhada formando uma mesa e sobre ela um cachorro preto. Era o que via neste momento. A decoração interior é toda em homenagem à Amazônia e as tábuas formam uma mesa e sobre ela um lindo cachorro feito em bronze que parece andar. Agora compreendia porque a minha memória visual tinha gravado o medo. O cachorro, que na viagem astral não pude ver de perto, era mesmo feio e imediatamente minha memória celular associou cachorro preto ao lado escuro da força. Lembro ter voltado ao corpo de supetão e quando isso ocorre há dores físicas. Mas ali estava o cachorro, uma obra de arte antiga.
Antes de preencher os papéis do hotel, dei uma olhada geral no saguão para me certificar. O chão, de mármore branco, tem o desenho estilizado da letra tibetana que uso no meu cartão de visitas – o nó da eternidade. Todas as cadeiras têm o mesmo símbolo. Na parede, artesanato dos índios amazônicos e pinturas de pássaro. Nada a temer, fui para o quarto. Logo na entrada, outra surpresa. A cortina do quarto é igual à do meu apartamento em Brasília. Os sinais espirituais estão em toda parte. Naquela noite, muito cansado da longa viagem entre Estados Unidos e Portugal, que passa pelas geleiras do Pólo Norte, sonhei que entrava em uma loja e via um quadro de Maria, a Senhora de Fátima.
Dividi o relato desta viagem a Portugal em vários textos por causa dos acontecimentos a cada lugar relacionados. Em Fátima, no poço onde as três crianças se reuniam e onde receberam o Anjo Miguel para a preparação de tudo o que lhes iria acontecer, senti um forte cheiro de rosas. As pessoas não conseguem falar muito. O lugar impõe um misterioso silêncio de muita paz. Bebi da água do poço oferecida por uma parente dos pastorinhos, com mais de 80 anos. A casa, o curral das ovelhas, os objetos pessoais, um retrato de simplicidade. Em um dos livros que adquiri no lugar, há um relato de um padre furioso porque a Senhora de Fátima aparecia a crianças camponesas, analfabetas, e não em sua igreja, já que ele era “o representante de Jesus”. Ele dizia isso querendo invalidar as aparições e fortalecer a idéia, compartilhada até pela mãe das crianças (por medo), de que elas mentiam. Esses acontecimentos tiveram lugar a partir de 1917.
O santuário principal fica em torno do local onde a Senhora de Fátima aparecia sobre uma pequena árvore. Hoje o lugar é uma capela. Toda a atmosfera do local é especial. Eu não conseguia pensar em mais nada. Na frente dessa capela há uma igreja belíssima, onde estão os restos mortais de Jacinta, Francisco e Lúcia, os três videntes. É interessante ver que a palavra vidente aparece em todos os relatos e textos católicos à disposição no lugar, muitos deles publicados pela Igreja Católica, em contraste com o que prega a Igreja Católica sobre espiritualismo. Fátima impõe essa verdade incontestável, testemunhada por milhares de pessoas. São quatro milhões de turistas por ano, de todas as partes do mundo. Mesmo na época da aparições, em um só dia mais de 70 mil pessoas viram o que descreveram como “uma bola de fogo” que desceu dos céus. Era a Senhora de Fátima, depois que os pastorinhos, três pequenas crianças, haviam sido presos e colocados na cadeia junto com criminosos comuns, a mando da igreja, pelas autoridades da região. Nas memórias escritas, Lúcia, a sobrevimente guardiã dos “segredos” revelados pela Senhora de Fátima, todos relativos aos acontecimentos futuros na Terra, recorda que Jacinta, a pequenina, se ajoelhou no chão da cadeia, para “oferecer aquele sacrifício”, pensando que iriam ser mortos, e os presidiários todos se ajoelharam…
Quando atravessava de um lado para outro da praça onde são realizadas as missas para as multidões e onde ocorrem as celebrações das aparições, ouvi a praça inteira cantar hinos a Maria. Apertei meus dois ouvidos e continuei a ouvir. A praça estava fisicamente vazia e em silêncio, mas no mundo paralelo e invisível estava cheia e cantando. Na hora da missa, que resolvi assistir, chorei emocionado quando uma velha feira entoou cânticos à Senhora de Fátima. A igreja estava lotada e eu comecei a chorar. Tentei me controlar e não consegui. Deixei o choro fluir. Logo atrás de mim outro homem começou a chorar. Pensei comigo: logo dois homens chorando? Daqui a pouco, o choro se espalhou pela igreja. A direferença é que não é um choro de tristeza, é de alegria, uma alegria indescitível, a energia de Maria… O meu coração vibrava e tive que tirar os óculos porque a visão voltou ao normal – como acontece com Reiki e com outras práticas energéticas. Senti os músculos do meu braço esquerdo serem mexidos, exatamente onde durante todo o inverno passado esteve dolorido. Sem medo de estar violando princípios religiosos, em um impulso forte entrei na fila e comunguei. Como deixaria de partilhar o que era chamado pão, naquela casa de que recebia com tanta beleza, oração e que reverenciava Jesus?
Dei risadas escondidas na hora do sermão. O padre começou a falar em perdão, misericórdia, compaixão. Disse que Maria nos exaltava a sermos “perfeitos” e que “a perfeição de Deus é muito mais do que o pensamento poderia alcançar”. Sabia, naquele momento, que aquelas palavras eram inspiradas pela Senhora de Fátima devido a linguagem universal que elas representam e se repetem nos textos budistas e nos ensinamentos da Deusa da Compaixão, Kuan Yin. Sim, definitivamente, a Senhora de Fátima não é um mimo para os católicos. Ela é a energia universal da compaixão, do perdão, o amor incondicional que o terceiro milênio aponta como o código para o reencontro com a gente mesmo. Esse lugar é um daqueles que todos devem visitar algum dia para serem tocados como eu fui, para sempre. José Joacir dos Santos, 13 de março de 2007, São Francisco. jjoacir@yahoo.com

