É triste o quadro da saúde mental nos EUA
31/10/2008 at 00:25 (Psicanálise e Psicologia)
A edição de outubro do jornal “Psychiatrist”, para assinantes, traz um ensaio assinado pelo Dr. Peter F. Buckley, sob o título “Fatores que influenciam no sucesso do tratamento de esquizofrenia”, no qual, pela primeira vez, é listado junto ao artigo o nome dos laboratórios farmaceuticos dos quais o autor recebe pagamento para avaliar os medicamentos psiquiátricos e antidepressivos. O que me chama a atenção no artigo científico não é a discussão do autor sobre qual droga é mais ou menos eficiente nos tratamentos, que ele mesmo diz “não dispõe de evidências claras” sobre o que os médicos escrevem sobre as reações positivas e negativas dos medicamentos. É citado vários “estudos” feitos em pacientes com os medicamentos e também me chama a atenção quando ele diz que tal e tal medicamento foram testados juntos e esse e aquele foram “descontinuados” por não fazer efeito “depois de 18 meses” de ingestão. Dezoito meses de ingestão para ver se aparece um resultado?
Quando o autor fala em farmacogeneticos e poliformismos, diz que “até recentemente, as razões pelas quais um paciente mostra um mínimo ou não não-mostra resposta a um antipsicótico tem sido um mistério”. No final do artigo o autor cita a entidade chamada “Substance Abuse & Mental Health Services Administration (SAMHSA)”, “a qual enumerou uma lista de dez componentes que caracterizam o processo de recuperação” de pacientes sob tratamento com remédios psiquiátricos e/ou antidepressivos (que nos EUA não é exclusividade de médicos): “auto-direção e responsabilidade (do paciente em colaborar com o tratamento); individualização de tratamentos (reconhendo que ninguém tem uma genética igual) e tramentos holísticos combinados com alopáticos (enfatizando a importância da adaptação ao processo às necessidades individuais de cada paciente); tratamento envolvendo o paciente como um todo (emoção, mente, corpo e espírito); tratamento não-linear; tratamento que envolva serviços de apoio e a eliminação de preconceitos; e ânfase na esperança de recuperação”. O autor conclui que “em mais de 50 anos, o tratamento de esquizofrenia permanece inconclusivo”, isto é, a medicina alopática não encontrou a fórmula mágica, mas continua testando medicamentos. Ele diz: “um tratamento sério ainda está para aparecer” (acho que ele quer dizer: eficaz).
Nas referências, o autor é honesto e apresenta uma nota de rodapé na qual aparece um link para o site da NANI (The National Alliance on Mental Illness). A NANI publica o resultado de uma pesquisa que apresenta o quadro nacional dos Estados Unidos em termos de tratamento de doenças mentais (acima, aperte para aumentar), com o grau de eficiência dos sistemas de saúde, estado por estado. A letra “A”, em azul, é o mais eficiente mas não chega a bom, e a letra “U” é o estado que não respondeu à pesquisa (Nova York e Colorado). Colorado está na sétima posição no número de suicídios (a primeira posição é o número maior de suicídios). Para ver detalhes da situação em cada estado, copie o link a seguir inteiro e junto: http://www.nami.org/content/navigationmenu
/grading_the_states/NAMIs_Grading_the_States_2006_Report.htm
Nenhum estado recebeu a cor azul, de “bom”, e a cor verde, letra “B”, onde a situação é “médio”, só cinco estados aparecem. A cor amarela já é “ruim”, e neles está um dos estados mais ricos e considerados “leves” que é a California, mesmo assim ocupa a 42ª posição na quantidade de suicídios, entre os 48 estados. Só em San Francisco, nos últimos dois anos, é alarmante o número de suicídios efetivados em um dos principais pontos turísticos da cidade, a ponte Golden Gate. O Havai, considerado turístico, ocupa a posição 41ª. O primeiro da lista é o estado de Wyoming (MY), localizado no Centro-Norte do país. Esses estados do centro-norte é onde moram aqueles norte-americanos mais consevadores, onde existem aquelas seitas e religiões extremistas, onde imigrante não tem vez. O estudo aponta as deficiências de cada estado, e de um modo geral está a “falta de comprometimento dos profissionais de saúde, falta de hospitais (os hospitais de saúde mental do Havai são superlotados), falta de treinamento adequado, preconceito, falta de recursos (pouquissimos são os hospitais que oferecem serviços públicos e gratuitos), falta de treinamentos assertivos”. Há que se considerar a complexidade da sociedade norte-americana atual, onde há um alto índice de automedicação porque poucos podem pagar os caríssimos tratamentos hospitalares e o povo é vítima do excesso de propaganda sobre”medicamentos maravilhosos” nas meios de comunicação. Há uma carência muito grande de profissionais habilitados e um aumento grande de pacientes necessitados que voltam de guerras, como Iraque, conflitos sociais internos, drogas e desastres naturais. José Joacir dos Santos é jornalista e doutor em psicologia jjoacir@yahoo.com

