Por José Joacir dos Santos
Em meados de maio de 2011, acordei no meio da noite com um um pesadelo. Estava em um hotel no meio de uma briga feia, que tinha começado porque reclamava da qualidade do quarto e o dono, em vez de acomodar minhas reivindicações, preferiu briga. A coisa envolveu outros hóspedes e aí acordei. Sentei na cama e mandei Reiki para a situação. Como estava organizando minha viagem ao Nepal, comecei a pensar mil coisas a respeito da viagem, a duvidar se deveria ir ou não, se este era o momento porque a situação do país não estava nada segura para estrangeiros: crise econômica, desemprego e pobreza crescente. Já entrei no avião rezando e mandando muito Reiki para o quem fosse encontrar. Tudo transcorreu normalíssimo no Nepal. Ao contrário, foi prazeroso re-encontrar com a cultura tibetana ainda preservada pelos inúmeros imigrantes tibetanos que ali vivem.
Ainda no Nepal, cheguei a voltar, em pensamento, àquele pesadelo com o hotel, que nada parecia com o hotel em que me hospedei em Katmandu. Como mandei muito Reiki para a situação, estava gratificado que tudo havia sido transmutado daquele pesadelo. Na primeira noite, cheguei a trocar de quarto porque na janela havia muito cocô de pombo e isso tirava a imagem bonita dos jardins do hotel. Também não queria que o cocô de pombos trouxesse coisas negativas. Há muito aprendi que só se deve ficar em hotel de cinco estrelas em países difíceis, complicados, remotos ou que estejam passando por uma crise como o Nepal. Aquele era um hotel de cinco estrelas, embora o banheiro parecesse que nunca havia sido lavado na vida. Uma vez que hotel é para se dormir, dava para tomar banho de chinelos e gastar meio papel higiênico para cobrir o vaso e pronto.
Sempre quiz ir a Katmandu… O lado budista da cidade é como se você voltasse ao antigo e lindo Tibete. Numa sentada para almoçar, em um restaurante caseiro em frente à grande estupa do Buda do Futuro, imagens das minhas vidas passadas desfilavam à minha frente. Lágrimas caíam e eu fiz um esforço enorme para me concentrar no apetitoso prato-feito de arroz com vegetais picados com cogumelos. Sai do Nepal com a sensação de não mais voltar, o que é lamentável, mas as minhas orações agora eram para que o avião me levasse vivo para a India porque a lataria parecia que iria despencar no ar.
Logo que voltei para a India, comecei a organizar a próxima viagem porque não se sabe o que esperar de 2012. Desta vez a viagem é para Punjab, o estado indiano onde fica localizado o Templo Dourado da religião Sikh, construído em 1574. Sikh é uma seita que vem do hinduísmo, onde há aspectos de religião misturados com militarismo, espadas, guardião de templos, difícil de compreender. Os homens nunca cortam os cabelos do corpo e a mulher não tem papel algum, a não ser procriar. O interessante é que eles são organizados de tal forma que os homens têm que usar turbantes e uma pulseira de qualquer material no braço, desde criança e para o resto da vida. Eles também usam muitos anéis e são bons comerciantes. Dizem que o templo tem uma camada de ouro ao redor, nas paredes mais altas e o complexo inteiro. Além de servir como um “vaticano” para a religião deles, é um lugar muito bonito e pacífico, cheio de rituais como a obrigação de homens e mulheres, mesmo turistas, de lavar os pés, deixar os calçados na porta e usar um pano qualquer na cabeça – boné não vale. Há guardas só para fiscalizar se você lavou os pés. A indumentária deles é coisa de ficar horas olhando e as espadas estão sempre à mostra.
Não foi possível achar um hotel de cinco estrelas em Amritsar, só por um dia. A viagem de Nova Delhi, de 13 horas de trem, requer pelo menos um banho digno, já que sou brasileiro e o nosso povo tem mania de tomar banho. A viagem deveria durar só 5 horas e 45 minutos… Não havia muita informação sobre os hotéis na internete e decidi ficar em um chamado Lua Azul. Morto de cansado da viagem, peguei o primeiro triciclo que apareceu e fui para o hotel. Você não se sente muito confortável sentado atrás e um ser humano pedalando na frente… Ao avistar o nome “Lua Azul”, tive uma sensação estranha e logo me veio um converseiro na cabeça, começando pelo nome do hotel: como você vai ficar em um hotel de uma lua que não existe?
A gente tem a impressão que os avisos do universo são sempre em relação ao momento presente. Naquele pesadelo, o universo tinha me avisado sobre algo que eu nem havia planejado ainda, que era essa viagem a Amritsar. Ao ser cumprimentado na recepção do hotel, de luzes apagadas, o recepcionista apenas perguntou meu último nome e logo passou a chave. Quando o carregador veio pegar minha mala eu o reconheci na hora – briguei muito com ele naquele pesadelo. Ninguém precisava me levar até o quarto porque eu já sabia o caminho, mas fiquei quietinho. Todos os personagens daquela briga vinham à minha mente, até o que eu dizia e gritava, o chão das escadas, os corredores, a porta do quarto e até a cor da madeira da cama. O mais chocante foi um quadro na parede, acima da cama. Eu me tremi todo.
O que fazer? Ir embora? Ao entrar na recepção eu já não estava raciocinando claramente. Todo aquele pesadelo tido antes da viagem para o Nepal estava bem ali na minha frente. O carregador, com voz macia, me perguntou se queria café da manhã e para me livrar dele disse sim. Só deu tempo tomar um banho rápido e o café da manhã estava ali, perfeito, simples mas apetitoso. Aquele hotel havia sido uma casa na colonização britânica mas eu não quiz perguntar nada para não trazer mais coisas à tona. Depois do banho e do café da manhã, olhei no relógio e vi que não havia muito tempo para ir ao templo e ainda pegar o trem das cinco de volta a Nova Delhi. Será que era seguro deixar minhas coisas nesse hotel e ir para o templo? Que opção tinha, levar a mala para o templo? Lá fora a cidade de Amritsar é mais pobre do que Katmandu. Os serviços de taxi são oferecidos por triciclos… Fiz uma oração e pedi proteção antes de sair para o templo, com todas aquelas vozes nos meus ouvidos. Ao descer as escadas, vi que as portas de todos os quartos estavam abertas. Eu era o único hóspede…
O templo em si é bonito de se ver e eu ficava dividido entre olhar para as pessoas e a arquitetura. As pessoas tocam nas paredes, nas árvores, parecem depositar ali todas as suas esperanças. Elas se vestem e se comportam de maneira muito exótica. Os homens ficam de cuecas e mergulham nas águas do piscinão que rodeia o tempo porque, para eles, aquela água é santa. As mulheres podem molhar os saris, vestidas, e mesmo assim há uma ala muito pequena reservada a elas enquanto que os homens podem ficar seminus em qualquer lugar da área. O mundo, na India, é dos homens. Mulheres na política é para inglês ver. A sensação que eu tinha a todo instante é que estava dentro de um filme muito exótico, onde todos os meus conceitos e preconceitos nada valiam. Ver as pessoas beberem daquela água é algo que quem viaja pela Índia precisa acostumar o estômago.
No meio daquele formigueiro humano, um dos guardiães do templo, armado, se aproximou de mim e me disse que queria ser fotografado comigo. Alguém tirou a foto e ele se despediu de forma tão rápida quanto foi a aproximação. Por que eu? Contando o tempo real no relógio, voltei ao hotel preocupado em sair dali o mais rápido possível. Eram quase quatro horas e meu trem saía às cinco. O recepcionista me ofereceu um café. Meio hesitante, aceitei. Paguei a conta e fui para a rua arristar um taxi mas acabei indo para a estação de triciclo. Nada demais, além das imagens e das vozes, aconteceu comigo naquele hotel. Lembra que mandei muito Reiki à distância quando acordei na noite do pesadelo? Sim, o tempo é uma ilusão mágica no nosso raciocínio lógico, mas as orações funcionam independente da lógica e do tempo. Tudo foi transmutado e agora eu tenho o bônus de poder mandar mais orações para aquele meu passado que não foi nada pacífico. A memória celular é algo que cada vez mais me fascina, especialmente a memória celular espiritual. Somos seres eternos, ligados a um grande arquivo no tempo, jamais tive dúvidas!