Futebol separa casais?
Por: José Joacir dos Santos
É muito triste ver um jovem goleiro com suas precisas mãos algemadas pela polícia sob a acusação de cúmplice em assassinado. Não faz muito tempo que todas as câmaras do mundo estavam voltadas para as mãos preciosas de goleiros de várias nacionalidades, reunidos na copa do mundo. O futebol é um dos esportes mais fascinantes, que gera fortunas, capaz de congregar milhares de pessoas em um único foco, a bola! Parece que as pessoas esquecem tudo na vida diante de um grande jogo e o mundo vira um colorido maravilhoso de bandeiras, camisas, raças e beleza. Gritar pelo gol é uma excelente terapia, se a pessoa não tiver fígado e pulmões fracos. Este artigo está longe de fazer uma análise profunda sobre o futebol e aqueles por ele envolvidos, por isso estou livre para lhe perguntar: afetivamente, você é vitima do futebol?
Faz tempo que atores perderam o troféu dos mais complicados em termos de relacionamentos afetivos, troca de parcerias, divórcios. A atriz de Hollywood se gabava de seus recordes de divórcios, como se isso fosse uma taça de ouro. Nos últimos anos, as páginas de jornais, especialmente os sensacionalistas, estão cheias de notícias de jogadores famosos que se divorciam, separam, reconhecem ou rejeitam parternidades, são presos com prostitutas e travestis. Há os que dão milhões para os cofres das igrejas sem questionar o destino do dinheiro, pensando que terão terrenos pagos no céu. Raramente se vê um jogador fotografado ao lado da esposa ou companheiro de longa relação. Contraditoriamente aos abraços e beijos mostrados pela tv, há até queixas de homofobia no futebol, embora líderes e pessoas famosas tenham defendido os direitos civis igualitários de todos os cidadãos pelo mundo afora.
Qual seria a incompatibilidade entre futebol e casamentos ou futebol e relacionamentos afetivos? Que fascínio exercerá uma simples bola, capaz de envolver profundamente uma pessoa e fazer essa pessoa colocar todo o universo ao seu redor em segundo plano? Anos atrás tive um amigo que sofria muito a cada jogo. O goleiro de certo time era seu amante. Nos dias de jogo ele ouvia, desesperadamente, uma música cantada por Maria Bethania que dizia “… ele é casado, e eu sou a outra que o mundo difama…”. Sim, o goleiro-amado pelo meu amigo era casado e tinha duas esposas: aquela que havia se casado e cuidava dos seus dois filhos, ainda crianças, e o futebol. O meu amigo era só uma de suas diversões para quebrar a rotina do futebol. Existiria uma relação entre falo e bola? Por qual motivo o amante do futebol é capaz de deixar o amante sofrer, roer as unhas, e se amargurar na longa espera? Ele nunca sabia quando o amante apareceria, sempre no meio da noite. Imagine a esposa. Como era um amante masculino, ele tinha que viver no anonimato. Eram os anos 90 em Brasilia e a homossexualidade era crime, embora livre na escuridão da Esplanada.
Brasília nunca foi tão famosa pelos times de futebol, mas, mesmo assim, havia times da região, das empresas, dos ministérios. Com o tempo, o consultório passou a receber esposas, amantes ou namoradas de jogadores de futebol e a primeira queixa era: solidão, abandono, longas esperas, falta de cometimento, insegurança na relação e, especialmente, as conversas sobre jogo. Quando a cliente começava a falar eu já sabia do resto: ele chega em casa correndo, larga as roupas pelo chão da casa, grita que prepare o prato com comida, toma banho, veste a roupa do time, come correndo, agarra a mochila e diz: tem jogo hoje e vou chegar tarde!!! Durante a copa na África havia um comercial interessante na tv indiana: o rapaz assiste televisão de braços com a namorada. Ela dá um cochilo. Ele estica a mão atrás do sofá e puxa um enorme boneco de pano e coloca no lugar dele. A moça continua dormindo e ele corre para a casa dos amigos onde todos estão felizes, vibrando, com copos nas mãos, pelo futebol… As vezes os filhos gritam, pai, pai, quero ir e ele responde: juro que na semana que vem eu levo você. A semana que vem nunca chega. A mulher quer ir mas ele diz: não beim, é um ambiente só de homem. Quando ele volta, tarde da noite, o prato está gelado. A mulher esquenta, ele come e diz, “tou morrendo de cansado, vou dormir”. Dorme e ronca. Pelo menos uma vez na semana essa rotina se repete.
Quando não tem jogo, ele se deita no sofá e fica procurando de canal em canal onde tem jogo ou notícias de jogo. Não adianta os protestos do resto da platéia. O assunto é, tam tam tam tammmmm: jogo. Certa vez uma cliente disse que o marido saiu para jogar na sexta e voltou na segunda, de cuecas, sem dinheiro e sem saber onde perdeu a roupa… Na época da copa ou de campeonato nacional a coisa fica intensa: jogo, jogo e jogo. A turma do time dele também se empolga e qualquer folga na semana, especialmente à noite, “vou bater uma bolinha”. O celular não pára: jogo, jogo, jogo. A família, a cama, a mesa e o banho podem esquecer que existe uma pessoa a mais na casa porque essa pessoa vive para o seu futebol. Isso até lembra outra música de Chico Buarque, não é? Como serão os casamentos com jogadores famosos, menos famosos, quase famosos e ainda para serem famosos? Separação parece ser o caminho para muitos casamentos onde futebol tem um fanático ou um profissonal dedicada a esse esporte.
Será que todo mundo tem que gostar de futebol? Há brasileiros que pensam que quem não gosta de futebol, cerveja, samba não é brasileiro… Pena que quem ganha a copa é um time estrangeiro… Ele vira para a mulher e diz: beim, a única coisa que eu faço por mim é o futebol, você não percebe? O que ele não percebe é que direciona toda a sua vida para o futebol. Do jogo há sempre um churrasco, um bar e essas coisas parecem com aquela relação entre fumante e cafezinho. “Se tomo café lembro do cigarro. Se fumo tenho que tomar um cafezinho”. Quem aguenta isso por muito tempo? O pouco que sobra é quase nada para sustentar os relacionamentos, a atenção aos filhos, o interesse pelo vida dos membros da família, o amor, o cuidado, o gato, o cachorro, o aluguel. Mas, a gente pode culpar uma inocente bola por tudo isso? Não, não estamos procurando um culpado.
Quando o Brasil perdeu a copa da África, os cronistas esportivos queriam “matar”, em seus artigos, o tal do Dunga. Os comentários eram tão cegos como as pregações de pastores evangélicos fanáticos. Pela telinha, direto da África, olhava para a cara amargurada do Dunca e pensava: coitado! Era como se perder não fizesse parte do jogo. Era como se os perdedores não fossem aqueles que ganham milhares de dólares de salários nos times europeus. E o povo ainda acredita que eles machucariam suas musculosas pernas pela pátria! Por que “deuses” perdem um jogo? Algo está errado nas regras desse jogo. A idéia do futebol parecia ser um esporte feliz e as platéias deliram com o domínio propriamente da bola, do jogo-de-cintura do jogador, nada mais. Desde quando passou a ser algo sem controle emocional, uma frissura masculina incontrolável e alienante? Já observaram como já há mulheres que tentam imitar os gestos masculinos dos jogadores? Será que “deuses” encomendam assassinatos com as mesmas mãos que agarram bolas fantásticas? Podem “deuses” deixar atrás de si pessoas mal-amadas, filhos sem pais, pais sem filhos, pratos nas mesas e amantes solitários? Mas, veja, por que será que esses deuses masculinos quando fazem um gol se agarram, se beijam, celebram e dividem momentos afetivos de fazer inveja a quem está do outro lado da tela? Eles fazem as pessoas gritar alto, soltar o corpo e desejar uma “cerva gelada e lôra”… Os tambores roncam, a festa vira a noite, mas, e as esposas, namoradas, namorados, filhos, amantes, onde ficam? Em que parte o jogo se perdeu? Será que há uma semente de solidão, de tristeza, de abandono ou de pobreza que só a adrenalina do gol pode por alguns segundos se liberar ou bloquear? O que anda na cabeça daqueles pobres meninos ricos do futebol? Quantos ajudam orfanatos, hospitais sem equipamentos, escolas sem livros ou qualquer outra ação que seja compatível com os risos, os abraços e os afetos entre si exibidos a cada gol? Em que parte do estádio ficou perdido aquele esporte inocente que servia para liberar o suor e socializar? José Joacir dos Santos é psicólogo jjoacir@gmail.com

