O que fazer quando alguém está para morrer
Por: José Joacir dos Santos
O drama de morrer não é muito diferente do de nascer. Em ambos os casos há dor, tristeza e alegria. As vezes há outros dramas paralelos como as brigas de família pelos bens da pessoa que vai. Em alguns casos essas pessoas nem esperam a pessoa partir e já querem a partilha. Quase sempre quem está mais perto de quem morre é quem leva a culpa de estar fazendo tudo pelo dinheiro de quem está morrendo. Quase sempre quem faz essas acusações são aquelas pessoas que, se pudessem, estariam mais perto para fazer exatamente aquilo: ficar com o dinheiro e os bens de quem morre. As vezes esses assuntos acabam em outras mortes naquelas famílias mais desequilibradas e que fingem não saber o que é a dor de quem parte e de alguns que ficam. Brincadeiras maldosas e piadas sarcásticas não são propriadas nesses momentos porque todo mundo morre e há sofrimento no ar. A melhor coisa que alguém que não quer ajudar, não tem habilidade para ajudar ou está preso a algum problema emocional relacionado com o sentimento de afeto, apreço e gratidão para ajudar é ficar calado e respeitar o sentimento alheio, que sempre existe. Nenhum ser humano tem a habilidade de medir ou quantificar o sentimento de outro ser humano, por mais ridículo que possa parecer.
O medo de morrer faz a gente se apegar ao corpo que está morrendo sem querer ir. Esse medo provoca dores ajudas no corpo físico. Muitas vezes essa dor é essencial e faz parte do processo espiritual de cura da pessoa que sofre e de quem está ficando para tras. A dor sempre ensina. É muito importante compreender que o choro é parte da cura e quem sentir vontade de chorar não precisa questionar porque está sentindo isso, é chorar mesmo. As vezes a gente chora por nossos próprias dores emocionais diante do sofrimento físico dos outros. Em todos os casos é preciso chorar muito, até secar o que tiver que secar. A única coisa que alguém que não chora pode fazer é abraçar quem chora para dar apoio e conforto, sem impedir ou tentar impedir que a outra pessoa chore. Uma coisa é certa: cada um tem o momento certo de ir, não adiante lamentar, pedir, implorar. É só esperar com paciência e resignação. Mesmo quem resiste, terá os laços com o corpo físico cortados em algum momento. Então, é preciso identificar se um dos fatores aqui citados está dando alarme. Havendo alarme, é preciso que algumas pessoas da família tomem parte no processo para acalmar ânimos, confortar quem precisa e ajudar que o processo transcorra em paz. Flores sempre ajudam muito, até a quem não gosta, porque têm a habilidade de absorver as energias negativas dos sentimentos humanos.
Do meu ponto de vista, é preciso olhar para esses momentos com muita delicadeza porque nessas situações há o envolvimento de antepassados positivos e negativos, assim como há os inimigos e amigos espirituais vivos e mortos de quem está para fazer a passagem. Há, do outro lado da vida, amigos e parentes positivamente ligados pelo afeto esperando como quem espera um bebê que vai nascer do lado de cá. Então, mais uma vez, é preciso que a familia esteja junta em paz e harmonia mesmo que na vida real não exista paz nem harmonia. Cada um com suas orações, porque no carma familiar, tanto positivo quanto negativo, todos estão envolvidos e a gente nunca sabe de que lado está realmente. Eu posso ter a aparência de anjo, tentar me comportar como um anjo e na história do carma familiar não ter nada de anjo. Também existe a redenção e a compaixao, de forma que aqueles que estão ligados à família pelo lado negativo do carma têm uma brilhante oportunidade para comprar créditos, redimir o passado negativo e fazer boas ações. O que seria uma boa ação para uma pessoa que está na cama gemendo de dor? Tocar com carinho a pessoa, usar a voz suave, dizer palavras de afeto e carinho, especialmente lembrar aquela pessoa as coisas boas e as conquistas que ela teve nesta vida. Música ajuda a transmutar a dor, mas nem toda pessoa tem essa sensibilidade.
Quando a pessoa finalmente morre, é comum a casa encher de membros da família, vizinhos, amigos e curiosos. Nesse momento é preciso ter muito cuidado com o espírito de quem já se foi. Quando a gente morre, passa por momentos de transição muito profundos. Geralmente a gente se perde e não tem certeza do que está acontecendo. Acha que está sonhando, pensa que está tendo pesadelos, quer voltar para o corpo de qualquer maneira. Alguns conseguem perceber o que está acontecendo, vêm o corpo gelado, morto e sofrem. Mas o sofrimento maior de quem já morreu é ver o seu próprio funeral onde há pessoas brigando por dinheiro ou propriedades, lembrando as coisas que não deram certo na vida, as coisas negativas que aquela pessoa fez, falando mal da familia, falando de doenças e sofrimento, zombando da cara do defunto e até os pensamentos de cada pessoa são motivos de sofrimento do espírito. Naquela fase de transição não há separação entre o nosso espirito e o mundo. Tudo parece ser a mesma coisa, uma só peça da engrenagem e o espírito sente profundamente tanto o que se diz quanto o que se pensa. Naquela momento o espírito é como um recém-nascido que não sabe comer nem se limpar. É como mergulhar em um rio e se sentir parte da água. É preciso que as pessoas que não compreendem isso, por preconceito religioso ou seja lá de que for, que aquilo que a gente não entende, não percebe e não vê pode ser entendido, percebido e visto por outras pessoas. Então, quando a gente não sabe como se inserir nesses contexto, é calar a boça e o pensamento. Tentar dar o melhor de si, mesmo que não saiba como.
Morrer é o fim e o começo ao mesmo tempo. É a repetição da cena de nascer. É renascer. Felizmente somos seres espirituais eternos e temos o ciclo das reencarnações para cumprir. Aquele que não acredita nisso tem todo o direito de continuar a não acreditar mas não tem o menor direito de achar que outras pessoas não acreditam. O que está em nossas crenças não necessariamente estão nas crenças dos outros. Eu posso ignorar que a Terra gira em torno do Sol mas não poderei modificar nada se isso for verdade e eu não tiver o entendimento sobre esse assunto. Somos seres muito limitados e alguns de nós se limitam ainda mais quando se fecham em suas vidas e esquecem de olhar o horizonte. O mais importante de tudo é tomar a consciência que um dia será a nossa vez. Como as pessoas se comportarão quando for a minha vez? Que méritos e créditos eu terei?
José Joacir dos Santos é doutor em psicologia – jjoacir@yahoo.com

