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Experimentam vacina contra o vício da cocaína

freud.jpg flor-da-coca.jpg Por José Joacir dos Santos

Sem identificar o hospital espanhol, a agência de notícias EFE publicou dia 08 de maio passado notícia segundo a qual o serviço de psiquiatria do hospital estaria iniciando um projeto de vacinação de 50 pacientes viciados em cocaína com a “vacina contra o vício de cocaína”. Os pacientes, que seriam de Barcelona, Madri  e Valência, teriam entre 18 e 50 anos  e entre os selecionados não poderia existir pacientes com “outras enfermidades físicas ou transtornos mentais” – porque a cocaína os potencializa.  A notícia não deu detalhes técnicos da vacina e nem mencionou se estaria sendo posto em prática o princípio homeopático. Se por acaso existe noticiário eletrônico no além, quem deve ter estremecido com essa notícia foi o pai da psicanálise, o Dr. Sigmund Freud, introdutor da pesquisa com a cocaína para tratamentos psiquiátricos na Europa por volta de 1884. Ele pensava estar no caminho certo para altas descobertas com o que na época era chamado de “pouco conhecido alcalóide cocaína”, extraído de folhas cultivadas por índios latino-americanos, especialmente do Peru (na época). O carro-chefe da propaganda da coca, já no século 19, era que os índios peruanos mascavam a folha contra a fome e o cansaço.

Freud era ambicioso e queria estar no time de frente da Europa de sua época, segundo Ernest Jones, autor de The Life and Work of Sigmund Freud, página 52. Assim que começou a recomendar a cocaína aos pacientes, a qual comprava a peso de ouro já naquela época a distribuidores europeus (que não eram chamados de traficantes), e chegou a pensar que o pó lhe daria fama, dinheiro e prestígio porque imaginava estar no caminho para substituir a morfina no tratamento da dor fisiológica. Nas cartas que escreveu a amigos, chegou a mencionar que tinha “um novo e esperançoso projeto terapeutico”. Confessa que indicou o pó para vários clientes, mas em doses muito pequenas e no estilo médico porque ele não vislumbrava a possibilidade da droga ser utilizada para outros fins, nem também achava que ela poderia viciar alguém – o que hoje sabemos ser esse um dos sintomas dos viciados: perdem a capacidade de raciocionar com clareza; confiam na eurofia que a droga produz no início; não percebem que o corpo vai precisar de maior quantidade na medida que o tempo passa; acham que não viciam; e que podem parar de usar a qualquer momento – os danos só são percebidos muito depois da primeira dose e as vezes nunca serão. A pessoa pode começar a adoecer, ir ao médico, tomar remédios ocultando o vício, e os problemas fisiológicos despencam um atrás de outro.

Apesar da recomendação contrária de amigos mais próximos, médicos, inclusive advertindo sobre as implicações públicas que suas teses poderiam gerar, Freud  publicou alguns artigos defendendo o uso terapeutico da cocaína em prestigiados jornais da época, entre eles Heitler’s Centralblatt fur die gesammte Therapie – da Bélgica. Agora já atraía colegas curiosos e dispostos a participar da pesquisa, com os quais viria a romper amizades pela disputa da liderança das pesquisas, que Freud queria só para ele. Há um episódio citado no livro acima, segundo o qual Freud e amigos teriam combinado de publicar simultaneamente alguns resultados dos estudos da droga mas os amigos “se esqueceram” do combinado, publicaram sozinhos e juraram de pés juntos que não haviam combinado nada. Freud foi incapaz de perceber que esse “esquecimento” já fazia parte dos efeitos colaterais da droga nos colegas viciados. Ele também foi incapaz de perceber que “a droga mágica”, como a chamava, o havia pego pelo pé. Reclamava que a sua namorada estava gerando despesas com o uso da droga mas não admitia que ela já estava viciada. Nesse período, a bibliografia não é clara e as cartas são mais confusas ainda sobre a possível paixão de Freud por um ou outro amigo que parecia mais interessante que a namorada viciada.

“Tomo doses muito pequenas regularmente contra depressão e indigestão, com brilhante sucesso. Espero que ache um jeito de acabar com os vômitos”, registrou Freud em cartas. Nos circulos sociais da classe médica rondava um zum-zum sobre as pesquisas do Dr. Freud e já as apelidavam de “delírios de Freud”. O pai da psicanálise reagia com muita raiva a comentários e fofocas até que um paciente morreu de overdose e um amigo, Keller, também médico, imigrou para os Estados Unidos já viciado e aqui foi reconhecido como portador de distúrbios da personalidade, outro efeito colateral da droga que o Dr. Freud não chegou a imaginar que ocorreria aos viciados – uma das suas fotos mais famosas ele exibe um enorme charuto, que também naquela época ninguém achava, nem ele, que o fumo era nocivo à saúde mas, sim, símbolo de status e de masculinidade.

Acuado por todos os lados e depois de observar que alguns pacientes entravam em convulsão, tinham severas insônias, perdiam o controle sobre os próprios distúrbios emocionais depois de intoxicados (viciados), viam cobras nas paredes sob o efeito da droga, Freud tentou baixar um pouco a bandeira do pau mas era tarde: a sua reputação de médico já estava abalada seriamente. Ele já suspeitava, mas como viciado era incapaz de ir mais à frente, que a cocaína injetada parava a dor mas não funcionava como um substituto para a morfina, o corpo pedia sempre uma dose maior, tinha efeitos colaterais que ele ainda não compreendia, que a superdose matava e, acima de tudo, viciava. O que mais lhe intrigava era o fato de que alguns usuários da droga não demonstravam claramente os efeitos colaterais, inclusive ele, enquanto que outros era logo visível o efeito mórbido. Tecnicamente Freud cometeu o grave erro de pensar que a cocaína só viciaria aqueles que a injetam pela veia. Também estava longe dele perceber os danos que a droga causa às funções cerebrais como um todo.  Naquela época ainda não se sabia que cada um tem uma genética diferente e reage diferentemente a estímulos iguais. As questões do DNA e da memória celular ainda não apareciam nem psicografadas. Ele pensava que se administrasse nos pacientes apenas 0.03 a 0.05 gramas por dose funcionaria como medicamento mas não sabia que o corpo absorve essa dose rapidamente e passa a exigir doses maiores a cada dia, ao ponto do usuário perder o controle e caminhar para as superdoses capazes de impedir o funcionamento normal dos órgãos internos como fígado, baço, pâncreas, coração, sistema linfático como um todo e até do sistema digestivo. Quando o viciado atinge essa etapa começa a ter tremura nas mãos, necessita de outras drogas adicionais, quer misturar cocaíca com outras coisas mais excitantes, tem dores pelo corpo, tem cansaço, começa o processo de perder ereção e toda a bagagem emocional não-trabalhada sadiamente despenca. Tem ataques estéricos com pequenas coisas e todas as fraquezas do seu sistema físico vêm à tona, embora a grande maioria dos usuários seja incapaz de perceber qualquer desses efeitos colaterais da droga — perdem a noção da realidade.

O pai da psicanálise morreu sem saber que as doenças mentais podem ser tratadas sem medicamentos de laboratórios e que a psicoterapia pode necessitar de complementos de vitaminas, sais minerais, ervas medicinais, florais, yoga, atividade física, reeducação alimentar, envolvimento familiar, terapias energéticas como Reiki e que o paciente precisa rebuscar os seus valores espiritualistas, isto é, estímulos cerebrais positivos, sadios e não-anestesiantes. Ele jamais vai saber que a cocaína hoje é responsável por uma rede internacional de crime organizado responsável pelo fim de inúmeras vidas e pela hospedagem forçada de milhares de pessoas em hospitais (privilégio daqueles que têm dinheiro), muitas vezes sem recuperação, sem mencionar o número de famílias destruídas. (*) José Joacir dos Santos é pos-graduado em Fitoterapia, Mestre em Medicina Oriental e Psicanalista. jjoacir@yahoo.com

É a beleza fundamental?

cleopatra.jpg Por José Joacir dos Santos

Até bem pouco tempo não era politicamente incorreto dizer que “a beleza é fundamental”.  Com o aumento da população, o desenvolvimento da sociedade e com a solidez da democracia já é possível desmascarar preconceitos embutidos em conceitos que viraram normas, tabus, regras e crenças populares. No que se refere à beleza física, essa frase provavelmente foi refeita e saiu dos bares burgueses de Copacabana, na época da Bossa Nova, e já foi dita até em conceituados programas de televisão sem culpas aparentes. Embora a Bossa Nova seja cultivada hoje mais fora do Brasil do que dentro, o brasileiro já assimilou inconscientemente essa história e colocou a beleza física como o pré-requisito para tudo, inclusive para ignorar que a vida humana tem um caminho que a leva naturalmente à velhice. Estaria a beleza nos olhos de quem ver?

Antigamente o foco da beleza era a mulher, mas hoje o homem já disputa quase que meio a  meio esse mercado, especialmente nos países democráticos. Talvez o país não tenha chegado ao nível de neurose sobre a beleza que hoje vive a Coréia do Sul, um país pouco maior que Sergipe e onde se executam o maior número de cirurgias plásticas por pessoa no mundo, cujo modelo de beleza se baseia na fantasia dos filmes de Hollywood – completamente oposto à cultura oriental coreana, uma das mais antigas e ricas do continente asiático.

Antes de trazer o assunto à tona, a professora perguntou aos quase cem alunos estrangeiros na sala de aula do Citi College de San Francisco, EUA: levante a mão quem acha que as empresas escolhem os empregados pela beleza física e não pela capacidade? Noventa e cinco por cento levantou a mão. Observando atentamente essa reação, logo compreendi: Entre esses alunos estão pessoas de diferentes raças e nacionalidades, obviamente todos já foram vítimas de preconceito de raça, cor e aparência física no cada vez mais difícil e humilhante mercado de trabalho norte-americano para estrangeiros ou imigrantes. E a história anterior dessas pessoas? Por que largaram seus países de nascimento? Uma senhora húrgara, imigrante, disse que sentiu na pele quando as duas filhas deram entrada no processo de visto para os Estados Unidos, em dias diferentes. A primeira teve o visto negado e o agente consular nem abriu o passaporte dela muito menos leu os documentos. A segunda, nervosa, resolveu pintar o cabelo de loiro um dia antes da entrevista. Advinha o que aconteceu? Ela recebeu o visto. Há quem diga que brasileiros brancos não tem muitos problemas com visto para os EUA e quando têm são tratados diferencialmente em relação a outros de outras “cores”.  Seja verdade ou não, há o sentimento de que a beleza física, especialmente a aparência, faz diferença na hora da entrevista para um trabalho e que está diretamente relacionada ao sucesso na vida, isto é, os mais bonitinhos não suam muito e conseguem tudo o que querem se expressarem um sorrizo para os selecionadores ou encarregos de seleção de pessoal para emprego e outras atividades, especialmente se esses selecionadores forem pessoas frustradas e inseguras. Há quem diga que os norte-americanos escolhem o presidente entre os de melhor aparência e o ex-presidente Clinton fez o que fez dentro da Casa Branca porque era branco, bonito, de olhos azuis e homem. A América Latina talvez não tenha chegado a esse estágio, mas por que será que candidatos barbudos têm mais change entre as mulheres do que aqueles sem barba? Há quem ache Fidel Castro lindo! Estaria por tras disso outra coisa chamada opção pelo machismo por parte das mulheres?

Tive um cliente que não queria assumir a sua homossexualidade porque era médico militar e antes de largar a terapia deixou a barba crescer, para “parecer mais macho cho cho”. Seria essa a causa da preferência dos homens nordestinos por bigode?Uma outra colega levantou um aspecto mais polêmico: minha mãe prefere a minha irmã mais bonita. Chinesa, Lin se queixa de dois preconceitos dentro de casa: de não ser homem e de ser “feia”. Na China, até hoje, as famílias preferem meninos a meninas e a aparência física é determinante no sucesso ou no fracasso de uma pessoa, mesmo que seja homem. As lojas de cosméticos são as mais prósperas em Pequim e faz muito tempo que as empresas estrangeiras descobriram esse filão no mercado. A obsessão pela beleza na China não é coisa da Bossa Nova, tem milênios, só que em outros tempos essa beleza era fundamentada na interior e não na exterior, desenvolvida, por ironia do destino, com o advento do comunismo em 1948 – o comunismo pregava que o cuidado com a beleza era coisa de burguesia inútil. Não se sabe como Lin chegou aos Estados Unidos mas uma coisa é certa: ela não quer voltar para a China, nem para a família que ficou lá. Disse, de público, que junta dinheiro para fazer cirurgia plástica para tirar as abundantes bochechas que sua mãe lhe deu, aquela mesma que prefere a outra filha “mais bonita”. Ao dizer isso, suas bochechas ficam vermelhinhas! Uma profissão próspera em San Francisco são os salões de beleza, que aqui aplicam até injeções de butox – nos salões de beleza para ricos, trabalham também profissionais de saúde nas diversas especialidades ligadas à beleza externa e até terapeutas holísticos direcionados para a beleza interior. Apesar das mulheres levarem a fama de se preocupar mais com a beleza externa, homens heteros e até executivos vão aos salões para pintar as sobrancelhas e passar um risquinho preto ao redor dos olhos sem drama porque não têm paciência de arrancar aqueles cabelinhos brancos nas sobrancelhas e pouco resistem a receber um risquinho preto para salientar a “beleza” dos olhos. O Estado da California foi taxado por um jornalista brasileiro de “Mega Gay”, em um artigo para guia de viajantes de uma revista gay brasileira. O que ele não sabe, porque aqui passou duas ou três semanas como turista, é que este é um dos estados norte-americanos onde há uma antiga tradição de liberdades individuais, em todos os aspectos, garantidas pelo sistema jurídico. Mesmo assim, parece ser unanimidade a afirmação de que para ser famoso e próspero nos Estados Unidos, inclusive em estados liberais como a California, a beleza física e a aparência externa contam. Negros e latinos, mesmo na terceira geração nascida aqui, mas são feiosos, só ganham fama quando ninguém pode fazer o que eles fazem. Até que ponto no Brasil essa história é igual e ninguém sabe ou não estuda? Quem pode ignorar que no Brasil de hoje quem não aparenta ser jovem, mesmo que seja plástica, não tem muita chance? Isso sem falar no mercado de trabalho porque o brasileiro é taxativo: acima de quarenta, não! Essa filosofia de vida distorcida é realimentada todos os dias pelas telenovelas, revistas, rádios, música popular etc. Clientes dizem que no mundo gay isso é mais taxativo. Os de rostinhos bonitos podem tudo, os que não têm essa “sorte” se contentariam com o amparo inseguro do escuro da noite. Não se sabe como se comportam as mulheres gays porque elas se escondem de todas as formas, chegando até a casar. O homem é mais radical: ou assume ou casa para pular a cerca. Se é tido ou se acha feio vai para a marginalidade. Se é bonito e todo mundo acha, escolhe com quem dorme, mesmo com os heteros que desejam dar uma experimentada. Segundo as estatísticas oficiais norte-americanas, a grande maioria dos estupros masculinos nas prisões são cometidos por homens heteros.Há pressões sociais de todos os lados para que você “melhore” a sua “beleza”. Todos os comerciais de televisão dizem isso subliminarmente a todo instante e há um poderoso mercado de cosméticos, sustentado por laboratórios farmacênticos, empenhado em provar que você é feio e precisa melhorar com tais e tais fórmulas milagrosos que eles inventaram. Ninguém abre a boca para falar mas há quem diga que até homens brancos tatuados ou com piercings só são admitidos para empregos que “não envolvem a imagem da empresa”, isto é, funções internas ou em horário noturno, longe do público. Apesar dos defensores de uma história digna e antiga sobre tatuagens, a verdade é que para a sociedade norte-americana, que divulgou esse costume no mundo todo através dos filmes, a taguagem lembra prisioneiros e quem está na prisão não é flor que se cheire. A mesma coisa é para piercings. Apesar de ferrenhos defensores no Brasil tentarem passar uma imagem chique, aqui essa imagem está ligada aos drogados e depravados que vivem do dinheiro do seguro social pago por honestos trabalhadores. Apesar dos mais novos serem aparentemente mais tolerantes, os acima de trinta anos ainda se levantam quando um passageiro cheio de piercings e tatuagens senta ao lado no metrô ou no ônibus, como o fazem naturalmente com negros mal vestidos e sujos – a California está cheia de pedintes negros e a maioria vive suja pelas ruas, envolvida nas drogas e  no crime e se faz de vítima da escravidão – sim, aquela nossa da Lei Áurea.

A beleza externa deve ser cultivada sem exageros porque os exageros levam a neuroses e a falsos conceitos de felicidade e profundidade. As pessoas muito ligadas na aparência externa geralmente ignoram o que se passa dentro delas. Atrelam-se ao externo para fugir daquilo que não conseguem processar no seu mundo emocional e com o exagero se tornam superficiais até em uma simples conversa. Certa vez ouvi de uma senhora de até certo nível social que preferia “morrer numa mesa de cirurgia plástica” do que “ficar velha e com rugas”. Olhando para ela, a gente não sabe quando ela está rindo ou chorando porque o rosto, de tanta plástica, já não consegue expressar emoções. Aqueles que nasceram privilegiadamente com um rostinho bonito também sofrem e são cobrados e até usados por isso, inclusive pela família – há nos Estados Unidos concurso de beleza para meninas abaixo de cinco anos de idade! Não se sabe ainda o que acontece com o lado emocional daquelas que passam da idade e são substituídas pelas mais novas na passarela. Na Venezuela há clínicas especializadas em cirurgias plásticas para meninas que pretendem se candidatar ao concursos de Miss – nacional e internacional -, tido como fonte be renda e prestígio fácil. Há rumores em Jakarta, Indonésia, de que os árabes recrutam meninos asiáticos bonitos para trabalhar na Arábia Saudita e em outros países do Golfo Pérsico, mas quando lá chegam passam a servir sexualmente a seus patrões. História parecida aconteceria com rapazes brasileiros recrutados com promessa de emprego em grandes cidades da Espanha e que quando chegam lá são trancados em motéis e casas do ramo de prostituição masculina, da mesma forma que aconteceria com meninas, especialmente as loirinhas – a Espanha é o país da Europa onde se registra o maior número de gangues do sexo fácil. Então, a beleza é fundamental? Onde está a beleza? Um velho ditado afirma que a beleza está nos olhos de quem vê e isso é muito correto porque são os olhos o espelho da alma. A gente vê o mundo de acordo com o nosso estado de espírito, ou seja, com o nosso banco de dados emocional. Quando você fica zangado, a vista fica turva. Fiz cirurgia para corrigir o “vício de refração em que os raios luminosos que entram em cada olho, paralelamente ao eixo óptico, são levados a um foco aquém da retina, dado o alongamento ântero-posterior que existe nesse olho”, mais conhecido como miopia, segundo o Novo Dicionário Aurélio. Quem não usa lentes fundo-de-garrafa não sabe o que é acordar um belo dia, abrir os olhos e ver as linhas da palma da mão. Essa emoção eu tive quando operei dos olhos! Quando usava óculos, tirava algumas vezes do rosto porque tem hora que você quer jogá-los no lixo. Incomoda o nariz e freia você até de beijar. Então, voltando a ver tudo sem óculos descobri uma infinidade de coisas que nunca tinha visto por pura incapacidade visual e naturalmente taxado de feio ou bonito. Posso achar uma rosa feia e você, do meu lado, achar a mesma rosa linda. Essa codificação está dentro de cada um porque tudo foi criado para ter a sua própria e única beleza, embora a gente não consiga viver sem os padrões criados por nós mesmos e repassados de geração em geração, sejam falsos ou não. O uso disfarçado do preconceito em nome da beleza é condenável e intolerável. Especialmente com relação ao ser humano, quem pode ver feiura, por exemplo, na imagem de Madre Tereza de Calcutá? (*) José Joacir dos Santos é psicanalista e doutor em psicologia - jjoacir@yahoo.com

A pior rejeição é a dos pais

Por José Joacir dos Santos

 Um dos piores sentimentos que o ser humano pode experimentar é a rejeição.  Não há como avaliar entre o mais ou o menos dolorido processo de rejeição, seja  na escola, na rua, nos grupos,  na hora de ser escolhido para um trabalho, em casa, pelos pais,irmãos ou até quando você rejeita você mesmo, baseado em preconceitos. Já se sabe que o trauma mais dolorido e difícil de tratar é aquele que é continuo e demorado. Então, é na família onde todo o desequilíbrio tem origem porque a maioria das pessoas está dividida entre os que ficaram ou  não com suas famílias até os 18 anos, pelo menos. A vida parece ser uma carga pesada para aquelas pessoas que não tiveram pais fixos, por alguma razão, isto é, foram criadas em diferentes casas ou por pessoas diferentes que não eram os seus pais, ou ainda aqueles que nunca tiveram uma família e foram criadas em orfanatos. Muitos sequer têm força para lutar por uma vida sadia porque não tiveram a auto-estima construida por um carinho, um abraço, um elogio, uma demonstração de pertencer a alguém no sentido afetivo, não naquele equivocado onde pessoas se juntam e acham que não propriedades — inclusive pais que pensam que seus filhos são propriedade, como cavalos que se escolhe para o transporte de carga. É muito comum  uma mãe reclamar que tal filho não pára em casa porque ela é incapaz de perceber que quando o filho não pára em casa pode ser o que lhe falta ele não acha em casa: aceitação – que é definida basicamente pelo nível de afeto expressado e o ser humano precisa de afeto para ser equilibrado durante toda a vida.Uma senhora teve quatro filhos, todos homens. O mais velho era o favorito e ela não escondia. Todos os planos eram traçados para a vida dele até na mesa da cozinha, onde todos se reuniam  para o café da manhã.  Quando um dos outros perguntava alguma coisa ela mandava ele se calar e tomar o café porque entendia que aquilo era uma interrupção no assunto principal da mesa: o filho mais velho! Quando um dos meninos brigava na rua ou na escola e a mãe recebia uma queixa, poderia se preparar para uma boa surra, daquelas que a mãe bate e dá sermão moralista ao mesmo tempo, fazendo a criança se sentir o pior ser do mundo. Quando o filho mais velho aprontava qualquer coisa, tanto na escola como na rua e a mãe recebia uma queixa, ela dizia que iria tomar as providências quando chegasse em casa mas na verdade ela abraçava o filho e dizia: macho é assim mesmo meu filho! Aos poucos a vizinhança já não mais reclamava para não perder a amizade daquela mulher. O filho virou o terror da vizinhança e se envolveu em gangues. Quando a família começou a receber queixa dos pais e não mais da mães, o meu personagem não pensou duas vezes: convenceu o marido e a família mudou de bairro mas o filhinho querido não deixou de ser privilegiado e os demais nunca deixaram de ser “os outros”, em tudo, na vida. A mãe ficava deprimida quando o filho passava tempos sem vir em casa…A mãe nunca se submeteu a uma terapia e a história veio através de um dos “outros”, Matheus, o mais novo. Cheio de problemas com todas as namoradas, o meu cliente não tinha a menor idéia de onde estava a chave do seu “problema com mulheres”.  Quando solicitado a fornecer maiores detalhes sobre a vida atual do seu irmão preferido da mãe, a resposta não poderia ser outra: nenhuma mulher presta. A minha mãe faz ele bricar com todas as mulheres. Ele já casou e já se separou. Nesta família de quatro homens, nenhum tem uma história feliz de relacionamentos afetivos. Aprofundada a investigação da vida afetiva da mãe antes de casar, a avó confidenciou que o pai não tinha sido o amor da vida da mãe e sim a “escolha” da família. Também chegou à conclusão que o irmão, preferido da mãe, era o mais parecido com o seu avô paterno, falecido, que tinha eleito a sua mãe como a preferida, entre os demais irmãos dela, ao ponto de escolher o homem que casou com a sua mãe. Não se sabe se a mãe chegou a gostar de algúem da sua própria escolha. Essa história de pai escolher namorado ou marido das filhas tem a ver com a sua própria imagem emocional conturbada, presa em alguma fantasia não realizada e doentia, embora comum em culturas fechadas como a indiana e dos países muçulmanos, embora fosse uma prática  em pequenas províncias do Nordeste. É diferente daquela situação em que a família se preocupa, e tem que se procupar, com quem a filha vai casar ou está namorando ou “ficando” e até com as amizades comuns, sem neuroses. Nestes casos, há fatos reais, por exemplo: se o rapaz é de uma família equilibrada, se ele é equilibrado, se não tem vícios, se tem um projeto de vida baseado em estudo, profissão, carreira etc. Isso é importante porque ninguém conserta ninguém com uma barriga ou com um casamento forçado. A rejeição pura e simplestemente, porque “eu não gosto daquele cara”, pode ter um fundo emocional, não resolvido, escondido na sombra de quem rejeita. Falamos aqui mais de filha porque tradicionalmente as famílias não se preocupam com quem o filho vai casar, e a maioria dos casos de briga de mãe com namorada do filho é puramente desequilibrio emocional da mãe. É lamentável que a sociedade tenha esse preconceito de não se preocupar, em termos genéricos e sadios, com quem o filho está ficando, namorando e vai casar, especialmente porque o homem demora muito mais a amadurecer que a mulher e pode simplesmente não escolher mas ser escolhido, por várias razões, inclusive o forçamento de barra através da gravidez não desejada nem planejada a dois. A maioria dos pais peca nesse aspecto e o pai especialmente é relapso com o filho porque ele acha e foi educado a achar que ser homem é tudo. O Ministro Gilberto Gil diz, em uma de suas canções: “quem dera, pudesse todo homem compreender, oh mãe, quem dera…”.A rejeição da mãe de Matheus teve efeitos perversos em todos os aspectos da sua vida. Fez o primeiro e o segundo graus com dificuldade e sempre esteve entre os piores da sala. Sofreu de asma entre 11 e 16 anos, e quando o clima esfria demais ele ainda tem problemas respiratórios. Nunca quiz fazer um concurso público porque “sei  que nunca vou passar”. Não tentou vestibular pela mesma razão. Mesmo para pagar suas contas em banco ele deixa quem quizer entrar na sua frente na fila. Lembra que sua mãe usava sempre a seguinte frase quando ele aprontava alguma coisa: “não sei a quem esse menino puxou”. Traduzindo: você não tem nada a ver comigo! Sofre de ejaculação precoce e nos últimos dois anos tem fumado maconha, o que agrava ainda mais seus problemas respiratórios-físico-emocionais, pela supressão neuronal que a maconha proporciona. Asma tem a ver com problemas emocionais não resolvidos. É lento em tudo, não consegue ler um livro até o final e acima de tudo é extremamente pessimista. No emprego, é aquele que faz o trabalho de todo mundo e naturalmente o chefe faz dele o que quer. Confessa que quando quatro rapazes de Brasilia, filhos de gente rica, botaram álcool e atearam fogo em um índio que dormia em um ponto de ônibus ele achou “legal” e nem ficou “com pena do índio miserável” que morreu. Quando perguntei sobre política, Matheus disse que só participava das manifestações políticas pela farra e pela baderna, não importava quem estava organizando porque “no meio do povão, eu consigo gritar”. O que mais impressiona em Matheus é a sua vontade de “sair disso”, não muito comum nas pessoas com quadro emocional semelhante e ainda mais vivendo sozinho em uma cidade grande. A rejeição boicota a auto-estima, a capacidade de lutar, de ver como uma pessoa cheia de capacidades. É um veneno que as vezes vem pelas mãos que supostamente deveria estar revestidas do mais puro amor, incondicional, de pai, de mãe e de irmãos. (*) José Joacir dos Santos é psicanalista, psicossomatista e mestre em Medicina Oriental (jjoacir@yahoo.com).