A gente sonha muito e está sempre procurando explicações para os sonhos. Até aà tudo estaria bem se a gente não tendesse a colocar um pitada indevida de interpretação, nem sempre correta porque as nossas interpretações podem sofrer influências do nosso estado emocional do momento. Estava em Riade, Arábia Saudita, há quase um ano, sob forte pressão, intrigas e confusão geradas por uma mulher, colega de trabalho, ambiciosa, insegura, infeliz, confusa entre amor e sexo, solteira, envolvida em diversos problemas, difamada. Fez de tudo para ser chamada de volta ao Brasil. Fui mandado para substituÃ-la.
A vida em um paÃs islâmico não é fácil para mulher solteira por causa dos costumes muçulmanos. Não se sabe porque decidiu voltar para Riade — diziam que o problema era dinheiro e a esperança que alimentava em um romance proibido. Houve uma reação negativa por parte dos chefes que não a queriam de volta. Inconformada, ela mobilizou todo tipo de gente, fez chantagem e pintou a si mesma de inocente injustiçada. Essas coisas à s vezes funcionam bem e a mulher foi mandada de volta para Riade, onde passou a infernizar a vida de todos nós. A mulher ligava para minha casa, quando eu estava trabalhando, para falar com meu filho menor e perguntar sobre a nossa vida privada e o menino contava tudo, até o que tÃnhamos comido no jantar da noite passada.
Em seguida espalhava para quem quisesse ouvi-la. Imediatamente à chegada dela senti que deveria partir. BrasÃlia não dava resposta ao meu pedido e passei a ter pesadelos insuportáveis, movidos pela ansiedade. Via coisas horrÃveis vindas daquela mulher, inclusive imagens dela pagando para fazer bruxaria contra todos nós. Uma noite mal deitei e tive uma visão muito nÃtida no teto do quarto como uma grande tela de televisão. Nela havia a imagem de uma enorme janela que dava para uma parede. Fixei-me nas grades da janela, senti falta de ar e voltei ao normal pensando ter visto uma prisão. Conectei a idéia de prisão ao momento que estava vivendo e não dormi mais. Decidi ir embora de qualquer jeito, mesmo com prejuÃzos profissionais. Nos primeiros dias de dezembro daquele ano a resposta de BrasÃlia chegou: fui transferido para a Indonésia.
Fui embora. Em Jakarta, o quadro polÃtico-social não era promissor, mas resolvi não pensar. Três meses depois da minha chegada ao paÃs, estouraram os conflitos sociais que resultaram em centenas de mortes e na derrubada do ditador Suharto. O container com minha mudança chegou aberto e vilipendiado. Roubaram, durante o mês sagrado do Ramadam, todos os objetos de valor que eu tinha. A embaixada em Riade despachou a mudança sem seguro – não sei se de propósito ou não. Perdi, entre outras coisas, 16 tapetes colecionados ao longo da minha vida. A imagem da janela voltava à tona e depois do roubo do container passei a achar que era o sinal de que estava no caminho errado do ciclo da minha vida. Mas não era nada disso! A perda material lembrou-me do ditado que diz que a gente perde os anéis mas ficam os dedos. Com a convulsão social, a segurança em Jakarta ficou sofrÃvel. Estrangeiros eram assaltados à luz do dia, casas incendiadas, mortes.
Decidi mudar para o bairro da embaixada do Brasil e aproveitar a queda do preço dos aluguéis devido à desvalorização brusca da moeda local. Olhei 35 casas, mas não me sentia nelas nem conseguia negociar o valor do aluguel até o patamar fixado pelo governo. Ao a sair da 35 . casa, um homem chamou-me do outro lado da rua e convidou-me para ver a sua casa. Quando olhei a casa pensei que era mais uma que não daria conta de pagar. Ao passarmos da sala de visita para a de jantar quase cai: estava na minha frente a mesma janela que tinha visto no teto do meu quarto em Riade. Meu coração quase sai pela boca. Pedi para usar o banheiro e lá fechei os olhos e rezei. Imediatamente senti que era aquela a casa que deveria morar. Sai do banheiro e perguntei o preço – era o dobro do meu limite. Despedi-me e caminhei para a porta de saÃda. O dono da casa me puxou pelo braço e disse: vai ficar com a casa? Não, só posso pagar a metade do que me pede – respondi. Então a casa é sua, disse ele. Morei naquela linda casa, de janelas altas, o resto do meu tempo na Indonésia.
Nas noites de verão, um imenso pássaro noturno sobrevoava a casa até meia-noite fazendo um barulho assustador, que nunca entendi por quê. Do dia em que minha mudança entrou naquela casa em diante tudo na minha vida fluiu positivamente. Realizei grandes projetos na Indonésia, divulguei o Brasil em todos os seus aspectos culturais e até levei uma banda da Bahia com 22 pessoas. Com essa banda realizamos seis grandes shows, nas maiores cidades da Indonésia, com público de 10 mil ingressos vendidos com antecipação, na mesma época em que estava em debate no congresso indonésio a independência do Timor Leste e lá, no Timor Leste, centenas de pessoas perdiam tudo, inclusive a vida. Realizamos shows numa das maiores casas de espetáculo da capital com cantores locais cantando música brasileira, na lÃngua portuguesa, proibida no Timor Leste. Uma rádio local gravou todos os meus Cd e passou a executar 30% de música brasileira na sua programação, em um paÃs de muitas raças e lÃnguas, onde a grande maioria da população nunca havia ouvido a lÃngua portuguesa.
Nada disso eu teria conseguido na Arábia Saudita porque eles são completamente fechados ao mundo exterior. E muito mais aconteceu de bom. Esta história tem o objetivo de mostrar que nem sempre o que a gente acha que é realmente é. Escapa da nossa percepção a grande tela. Ficamos presos em pequenos ângulos pela confusão da nossa cabeça. Enquanto direcionei aquele sonho com a janela para o lado negativo em que vivia naquele momento, a espiritualidade mostrava-me que as dificuldades eram momentâneas, que o sofrimento é passageiro. Dava-me um sinal sem questionar se eu entenderia ou não. Isto prova que estamos protegidos porque existe um projeto eterno para cada um de nós, independente das pessoas que cruzarem nosso caminho, especialmente aquelas que cruzam para fazer o mal. Muitas vezes elas fazem o mal para que sejamos beneficiados com o redirecionamento do nosso caminho em busca da trilha original de alegria e luz.